Noite da Biblioteca – Rumo ao XV Congresso da AMP
Andrea Vilanova (EBP/AMP)
Na medida em que há sinthoma, não há equivalência sexual, isto é, há relação. Com efeito, se a não-relação deriva da equivalência, a relação se estrutura na medida em que não há equivalência. Há, portanto, ao mesmo tempo, relação sexual e não há relação. Há relação na medida em que há sinthoma, isto é, em que o outro sexo é suportado pelo sinthoma.
(LACAN, 2007, p. 98)
Promovido pela diretoria de Biblioteca, o encontro ocorrido em 28 de novembro último, surgiu de uma aposta de trabalho rumo ao XV Congresso da AMP. O significante rumo destaca-se nas falas como um indicativo de trabalho por vir, ao mesmo tempo em que indica o trabalho em andamento.
A partir de uma referência do ensino de Lacan, em epígrafe, Maria do Rosário – convidada por Paula Legey e por Angélica Bastos – relança um paradoxo, advertindo-nos do valor de mal-entendido subjacente ao dizer lacaniano. Ao destacar o efeito de expansão que captura os aforismas lacanianos, reduzindo-os a clichês, ela sublinha a perda de sua virulência, daquilo que comportam do real do dizer.
O encontro, ativado pelo trabalho de muitos, fez ressoar impasses conceituais que alimentam a investigação, no caso a caso, exatamente pelo que em cada caso pode responder a cada vez sobre o real, a partir da clínica.
Como, a partir do gozo, que não se compartilha, pode-se fazer relação? Esta pergunta surge em meio aos exercícios de leitura, cotejando as fórmulas da sexuação, do Seminário 20, com a passagem em destaque, do Seminário 23.
Rosário sublinha que não é a modalidade de gozo que pode fazer relação, mas o ponto de falha intrínseco à invenção de cada ser falante, ponto de onde se produz uma abertura. A modalização de um laço só se produz com o sinthoma. Assim, se o sintoma freudiano se apresenta com seu caráter de tentativa de sutura, o sinthoma lacaniano vem promover esse novo giro que, ao se destacar do Outro, coloca a solução do falasser em sua parcialidade, fraturada, capaz de abrir-se à própria sinthomatização constitutiva das relações.
“O que pode existir se produz a partir do que não há”. Trata-se de uma formulação decantada a muitas mãos, na polissemia de um encontro preparatório para o XV Congresso da AMP, onde cada participante, a partir de seu ponto de fratura se abre para o que enlaça nossa comunidade. A noite da Biblioteca da Seção Rio brotou dessa impossibilidade de soluções conceituais fechadas, com uma abertura para a vivacidade da clínica, o que pode nos proteger da dogmatização que seria a morte da psicanálise.
