“Não há relação sexual… então, o que há?”
Analícea Calmon (AME, EBP/AMP)
A máxima de Lacan, trazida neste título sob a forma de uma sentença lógica, orientou a atividade preparatória para o XV Congresso da AMP, realizada na EBP-Seção Bahia, no dia 15 de outubro de 2025.
Tal atividade, coordenada por Iordan Gurgel (AME EBP/AMP), contou com as participações de Analícea Calmon (AME EBP/AMP), Marcela Antelo (AME EBP/AMP) e Milena Nadier (Associada IPB-Ba). Foi divulgada num cartaz ilustrado por uma pintura de Arthur Boyd, intitulada Lovers in a Boat with a Pink Sky, que faz referência ao tema, associado à expressão ‘Barco Sexual’, nome dado a uma publicação da AMP, que anuncia, em 5 línguas, o Congresso.
Este mesmo título foi dado por Marcela Antelo ao Editorial da publicação, redigido e apresentado por ela na noite da Atividade Preparatória. Um ponto destacado na sua apresentação foi a analogia com um barco no qual Lacan houvera viajado com uma família de pescadores. Foi a esta viagem que Lacan, no Seminário 11, se referiu, ao se descrever observado por uma lata de sardinhas, visando explicar a esquize do olho e do olhar.
O barco em questão, disse Marcela, é e não é o barco sexual, na medida em que recolhe a vertente do sentido e a do não sentido, embora não se pretenda ser um barco carregado de sentido. E os colegas que o carregaram ouviram uivos e foram objeto de olhares e de registros escritos por outros lacanianos de todas as línguas faladas no Campo Freudiano. Estas línguas geraram produções que já começaram, e vão continuar a acontecer, em torno deste tema.
Nesse momento vamos sobrevoar duas delas que marcam dois pontos a serem destacados na máxima de Lacan. A primeira delas, apresentada por Milena Nadier, se refere ao “não há” que, a partir de um texto de Christiane Alberti, é considerado, não como um furo, mas, sim, como uma afirmação de pura ausência. Diante desta afirmação, Milena interroga: “como faze existir uma bibliografia para um Congresso, acerca do que ‘não há?’”
Instigada pela referência à máxima Não há relação sexual ser considerada a versão final do conceito de ‘trauma’ em Lacan, Analícea tentou fazer existir uma bibliografia para construir um texto que possibilitasse entender esta relação. Nos primórdios da Psicanálise, encontrou a noção de trauma como causa do sintoma.
Remetendo à abordagem freudiana, Lacan retirou o conceito de trauma de uma perspectiva diacrônica e o colocou numa perspectiva sincrônica, considerando-o como um troume, fazendo aí um jogo significante e homofônico com furo. Esta pontuação de Lacan parece contradizer o que está posto no comentário de Milena ao texto de Christiane Alberti, acerca do “não há relação sexual” não ser um furo. Entretanto, não há contradição, pois a não relação sexual, de fato, não é um furo, como está dito. O furo só aparece quando se tenta fazê-la existir.
Diante disso surge a pergunta: “… então, o que há?”
Fazendo uma referência ao último ensino de Lacan, Iordan responde que o que há é o Um do gozo, considerando que cada sujeito é Um em seu modo de gozar e o laço possível é entre Uns que não se relacionam, mas que se escrevem como singularidades e podem se articular na transferência, no amor, na arte e na escrita.
Enfim… naveguemos.
