Duras, Lol e o “esquecimento de si”
Fernanda Costa (EBP/AMP)[1]
Exílio e arrebatamento. Esses significantes foram o ponto de partida de uma das noites do Seminário de Orientação Lacaniana da Seção Minas Gerais[2]. Neste ano, investigamos o comentário de Lacan sobre James Joyce ter inventado em Exílios uma forma para a inexistência da relação sexual[3]. Na noite em questão, Henri Kaufmanner[4] introduziu O arrebatamento de Lol V. Stein, de Marguerite Duras nessa discussão, interrogando-o quanto à tomada de forma ou não diante da não-relação sexual.
Na vivaz conversação que seguiu, destacou-se uma dificuldade em referenciar Lol a uma “forma”. Isso por ela sempre estar “justamente, em lugar algum”[5]. Como nos lembrou Mandil, a escolha de Jacques Hold como narrador, um ser enamorado de Lol, contribui para esse efeito. Pois, embora Hold não faça outra coisa senão falar da amada, o leitor nunca tem acesso direto a ela. O que parece conferir uma espécie de inconsistência estrutural ao romance.
Curiosamente, para Duras, é essa personagem intangível que inspira todas suas heroínas: “todas as mulheres dos meus livros… derivam de Lol V. Stein. Ou seja, de um certo esquecimento de si”. Não seria esse um dos aspectos centrais da obra?
Retomemos seus momentos cruciais: o arrebatamento e sua rememoração[6]. No primeiro, em um baile, Lol observa um casal dançar. Trata-se de seu noivo que está trocando-a pela fascinante Anne-Marie Stretter. Lol não sofre em vê-los, está arrebatada. Contudo, no fim do baile, ao se separar dos recém-amantes, grita, se debate e cai “inconsciente [évanouie]”[7], desvanece. Um tempo depois, sabemos que essa foi uma reação à impossibilidade de assistir seu ex-noivo despindo Anne-Marie. Lol precisava vê-los para que seu corpo fosse “substituído” pelo dela. Assim, à medida que “o corpo da mulher aparece para aquele homem, o seu se apaga, se apaga voluptuoso, do mundo”[8].
No segundo momento, deitada como uma “mancha” [9] no campo de centeio, Lol espreita o quarto de hotel de outro casal: Hold e Tatiana. Ela os “vira aparecer sucessivamente na moldura da janela, aquele espelho que nada refletia e diante do qual ela deve ter sentido deliciosamente a exclusão de sua pessoa”[10]. Assim, realizou o que queria: um instante de “esquecimento absoluto”[11].
Vale ressaltar que Lol não é voyeur. Kaufmanner, apoiando-se em Lacan, inferiu que, nesse momento, a personagem faz surgir o objeto olhar na sua versão “intolerável”[12], em sua função de mancha. Esta, ainda que localizável, permanece informe, opaca, não especularizável. Perturba a unidade da cena. Tal como Lol no campo de centeio ao dividir e angustiar Hold ou como os cabelos desalinhados de Tatiana que fazem sombra à luminosidade de seu belo corpo nu.
Assim, com a emersão do objeto olhar, Lol parece “esquecer de si” e, paradoxalmente, se fazer existir alhures, na delícia de sua exclusão, um gozo que lhe dá alguma consistência corporal. Para Lacan, trata-se de uma montagem análoga a uma fantasia na qual Lol experimenta uma espécie de “ser a três” que “a realiza”[13]. De toda maneira, como observou Santiago, não parece que Lol encontra uma forma referida pela inexistência da relação sexual. A impressão é que com o ser a três, diante do que não há, ela busca uma existência: da relação sexual[14], d’A mulher[15]. Do seu próprio corpo?
Por outro lado, não teria Duras inventado nesse romance uma forma para o “esquecimento de si”? Segundo a escritora, escrever é “contar uma história e a ausência da história. É contar uma história que atravessa sua ausência”[16]. Assim, não seria O arrebatamento um jeito de apreender, via escrita, um gozo opaco, refratário à história, mas que atravessa sua ausência ao ser transmitido pela letra?
