Do ensino à transmissão numa Jornada da EBP-Seção Sul
Marcia Stival (EBP/AMP)[1]
O convite para articular a temática da VI Jornada da EBP-Seção Sul com o aforisma Não há relação sexual foi considerado como uma oportunidade para dar mais um passo na direção do Congresso da AMP. Acrescento um passo pela possibilidade de ler as ressonâncias da Jornada a partir daquela fórmula proposta por Lacan.
Partir dos ecos também permitiu situar momentos em que as vertentes do ensino e da transmissão se apresentaram numa atividade de Escola, evidenciando o que ficou em aberto, mas não sem algumas marcações que dizem do que já conseguimos tocar.
Desde a reflexão sobre o tema para a VI Jornada, levamos em conta a inexistência da proporção sexual. Foi com esta perspectiva e com a intenção de instigar um ponto de investigação que a presença do que há – o gozo – tornou-se a vertente visada para o trabalho.
O título lapidado para a Jornada trouxe uma questão que nos aproximou de elementos recolhidos em supervisões de casos e prosseguiram nos inquietando. Como numa busca para operar sobre o que é mais próprio de cada um, emaranhado nos ditos e nas atuações, surgiu: Cadê o gozo?. Se a perspectiva da localização já estava delineada, foi com o resgate de significantes advindos de atividades na EBP-Seção Sul que a estruturação do subtítulo foi tecida. Assim, a fim de orientar a questão, propusemos: Cadê o gozo? O que diz a época e a clínica.
A dimensão do ensino estava proposta, considerando as vertentes clínica e epistêmica, expressas no argumento da Jornada, nos eixos de trabalho e, posteriormente, nos textos selecionados com fragmentos de casos. Na apresentação destes, reverberaram a prática articulada à exploração de conceitos e matemas freudianos e lacanianos, a apresentação de modalidades de gozo, assim como a referência à presença do analista no manejo de casos, em tempos variados de análises.
Nas considerações sobre O que há, Marina Recalde[2] salientou a presença do gozo autoerótico, resgatando elementos infantilizados, como uma tendência que ganha cada vez mais espaço entre jovens e adultos. Que repercussões este movimento poderá ter, considerando a proliferação do afastamento entre as pessoas e uma visada da intimidade que ganha novas configurações na época?
Além de perguntas ressaltando O que há, no decorrer da Jornada algumas referências calcadas na inexistência da relação sexual também emergiram na apresentação dos trabalhos, tais como as destacadas abaixo:
– Não há possibilidade de coletivos de Uns sozinhos;
– Não há comunicação no nível do gozo;
– Não há identificação sexual, há opacidade do gozo;
– Não há relação sexual, há relações contingentes entre os seres que falam;
– Não há relação entre significante e gozo;
– Não há relação entre significante e significado;
– Não há relação sexual entre homem e mulher[3].
Anunciando certas obscuridades por trás do que há, o trabalho seguiu instigante. Assim, o ensino também foi mostrando seus limites em função do tempo possível para as explorações.
Poderíamos ter ficado com as queixas, lamentando perguntas que não foram feitas e colocações de retorno que deixaram de ser expressas. Mas estávamos num contexto de Escola, pensada “para colocar em prática o ensino de Lacan, para assegurar sua transmissão, para funcionar a serviço da psicanálise”[4].
Frente ao compromisso que isto traz, a responsabilidade diante das contingências favoreceu a tomada de uma decisão: a presença de uma nova mesa de trabalho, criada ao longo da própria Jornada. Uma mesa que deu espaço para questões envolvendo os tempos de uma análise e os efeitos de gozo incidindo na posição da analista. Uma mesa que contou com a presença de Ondina Machado[5], marcando sua visada a partir da questão. De fato, foi uma maneira de ir além do programado para a proposta O ensino do AE, mas não sem contar com esta atividade.
Podemos considerar que esta Jornada comportou uma contingência e, a partir do saber fazer diante de uma experiência de real, favoreceu a inscrição de um ato. Seria possível pensar que a concepção e realização desta mesa fez reverberar a perspectiva política da psicanálise, além da clínica e epistêmica?
Nesta questão está imbuída a aposta de uma articulação entre esses parâmetros possíveis de se verificar na Escola, considerando que pudemos presenciar um espaço vazio entre a contingência e o ato, entre a experiência de real e o que se decantou com a mesa de trabalho. Um hiato que não foi preenchido, mas que precisou de bordas, que comportou leituras e a partir da qual novos laços de trabalho foram tecidos.
Chegar no hiato, que aponta para O que não há, não foi sem uma experiência de real e seu desmembramento via transferência de trabalho. Um percurso que possibilitou a efetivação de um ato na Escola e a incidência das transmissões, que tocaram corpos e fizeram reverberar afetos.
