Demonstração da inexistência da relação sexual
Mirmila Musse (EBP/AMP)
No dia 12 de novembro aconteceu, na sede da Seção São Paulo, uma das atividades preparatórias da EBP para o próximo Congresso da AMP – Não há relação sexual. A Diretoria da Seção escolheu um fragmento de um dos argumentos do Congresso, escrito por Christiane Alberti[1], que conversasse com o tema da atual Diretoria: Ler um sintoma na época em que o Outro não existe:
Que não haja relação sexual que seja inscritível é precisamente o que condiciona que haja relações – que haja algo da ordem do sexo –, aquelas que as ligações inconscientes revelam; essas relações que passam pelo gozo, pelo corpo e pela língua, pelo saber-fazer do inconsciente com lalíngua, em outras palavras, pelo sintoma.
Teresinha N. M. Prado, convidada para sustentar a atividade, lê tal pedido da seguinte forma: “Portanto, o que me foi pedido então, foi uma articulação entre o impossível do laço e a invenção do sujeito, […] a invenção de cada um, com lalíngua, as sobras da linguagem, aquilo que, na fala, escapa às normas.”[2]
Destaco da apresentação e da discussão que Daniela de C. B. Afonso propôs sobre esse texto a função da nomeação quando tomada como um ato.
O texto de Teresinha N. M. Prado é costurado a partir de um caso comentado por Lacan no capítulo XI, “A sutura identificatória do sujeito”, do Seminário 12, ainda inédito. Tal caso, apresentado na ocasião por Leclaire, havia sido discutido anteriormente, em um seminário fechado, em 3 de março de 1965. Lacan problematiza, neste capítulo, a função da nomeação como aquilo que viria “suturar, ocultar, colar o furo que situa do sujeito”. Há uma ambiguidade do nome próprio que, por um lado, tem função de “denotação”, de nomear socialmente, e por outro “especifica uma particularidade”[3].
Dois aspectos da apresentação me parecem interessantes para avançarmos no tema do Congresso:
- A nomeação é sempre um ato: é o ato de nomear que desloca o aspecto da pura convenção social dada por uma nomeação para a exigência de “um lugar simbólico de transmissão”[4].
- No caso discutido por Lacan nesse capítulo, o nome inventado por Leclaire, Poor(d)j’e-li, tem função de nome próprio porque é “uma espécie de sutura simbólica que tampona o furo no real por onde o sujeito “escapa”[5].
Na discussão com Daniela de C. B. Afonso, Teresinha N. M. Prado localiza três elementos que fazem do nome inventado uma “tentativa de fazer existir algo que é estruturalmente impossível”. A partir da produção de um sonho, da sonoridade do nome inventado com o nome de batismo e do efeito sonoro no corpo, o sujeito chega à invenção do nome: “um fragmento sonoro que age como nome, fixando um ponto de gozo (o objeto a, causa de desejo) na borda desse furo”[6].
Deste sobrevoo que faço da atividade, destaco que a nomeação construída no caso evidencia a relação sexual impossível, passando a ser uma “colagem sobre o real: uma tentativa de fazer existir algo que é estruturalmente impossível”[7]. Por fim, ainda ressoa uma pergunta surgida na discussão: já estaria presente naquele momento, em 1965, o germe do conceito de lalíngua?
