Comentário sobre alguns textos do Scilicet – XV Congresso da AMP – Não há relação sexual
Heloisa Caldas (AME, EBP/AMP)
“Existirmos, a que será que se destina?”
Quando recebi o convite da Presidente da EBP, Maria José Gontijo, juntamente com o Diretor da Escola, Luiz Felipe Monteiro, para falar aqui, fiquei sabendo que na organização do próximo Congresso da AMP se tem evitado fazer, nos preparativos do Congresso, uma antecipação exaustiva do seu tema. Ou seja, não esgotar o assunto antes do próprio Congresso acontecer! Assim, vou trazer apenas algumas frases que sublinhei de quatro textos do Scilicet conforme a sua leitura me provocou. Busco assim afinar meu comentário com a lógica do trabalho de cartel que norteia a organização da coletânea, na qual cada um dos textos se conecta a um aspecto para abordar o tema do Congresso da AMP. Além disso, cada cartelizante toma um viés singular, o que resulta numa elaboração própria que traz a marca de sua formação e prática. Eis a riqueza diversificada do Scilicet ao redor de um tema comum.
Segundo a ordem em que estão no livro, começo pelo texto de Susane Zanotti, cujo cartel trabalhou o aforismo: “O ‘não há relação sexual’ não implica que não haja relação com o sexo”. Para falar disso, Susane traz algo que pesquisa há muito tempo em sua experiência de escuta psicanalítica aplicada a pessoas intersexo. Seu trabalho tem um viés inédito, pois toca justamente no ponto em que, devido à não relação, é preciso inventá-la, de uma forma um tanto diferente da experiência contemporânea da diversidade sexual LGBTQIA+. Me ocorreu que a imagem ícone desse movimento evoca o arco íris e a materialidade da luz, que de forma total ofusca e cega. Porém, ao se difratar em inúmeras tonalidades de cores, torna-se o espetáculo do arco-íris. No caso trazido, o real opaco se apresenta em dois planos. Não se trata apenas da invenção de um semblante, o que não é pouco, diante do real do gozo; antes disso, foi preciso outra operação, pois a genética e/ou a morfologia do corpo não se encaixa, de saída, na bio-lógica e menos ainda em identidades estabelecidas pela cultura. Para além do que ocorre no movimento LGBT… e inclusive dos sujeitos transsexuais que adotam estratégias para modificar o corpo por escolha própria, os sujeitos ditos intersexos, para vestir o real do corpo com um semblante sexual, precisam tecê-lo tanto no plano da equivocidade não escolhida, mas imposta pelo real no corpo biológico, assim como escolher um semblante possível para contornar o real no corpo de gozo. Para abordar isso, Susane traz o sonho de um jovem paciente que avança em análise na direção de uma invenção que o situa na partilha sexual. Sendo religioso, ele procura o pastor, fala de sua condição de intersexo se lhe conta seu sonho. O pastor, ao avesso do que seria um bom pastor que recolhe o rebanho, aceita a decisão impar do jovem de se desgarrar do semblante no qual, até então e precariamente, ele havia sido colocado, para adotar o semblante que a interpretação de seu sonho sugeria. Parece uma versão contemporânea, digamos assim, da fábula de Esopo “o menino e o lobo”. Quando o menino se debatia com a possível proximidade do lobo mau, no caso a indefinição do corpo biofisiológico, isso o assustava. Através do sonho, ele pôde assumir um lugar na partilha sexual e encarar de frente o lobo no sexo.
Por outro viés, Antonio Teixeira aborda o tema de seu cartel – “O fiasco em que consiste o sucesso do ato sexual” – através de um conto de Rubem Fonseca intitulado “Viagem de núpcias”. Eis que um casal, muitíssimo bem enquadrado na cultura cisheteronormativa, depara-se com um fiasco. O que se espera do corpo do macho, caprichosamente falha. Por quê? Seria tão bom se fosse instintivo, como parece ser no reino animal. Porém, eis que o animal humano contraria essa regra de ouro. Entre desejo, demanda e gozo, o órgão padece dos caprichos que fazem do corpo humano um falasser e perturba as núpcias. A idealização do lindo corpo da noiva amada opera como obstáculo a não ser profanado. Antonio trabalha cuidadosamente o conto para nos mostrar como esse homem consegue desidealizar sua noiva para tomá-la menos como objeto agalmático e mais como palea, ilustrando o que Freud apontou nas suas “Contribuições à psicologia do amor”. A invenção gatilho que o leva à potencia sexual é bizarra, mas nitidamente aponta à condição desejante que visa um gozo entre objeto e abjeto.
Mirmila Musse traz, por outro lado, a acepção lacaniana do objeto a em sua condição de vazio, disparadora, portanto, do desejo, para abordar o aforismo do seu cartel: “A ausência da relação sexual obviamente não impede, longe disso, tal ligação, mas lhe dá as condições”. Ela escolheu tratar de “A condição da transferência na ausência da relação sexual” e situa, de saída, nos três pontinhos do título do Seminário 19 – …ou pior –, a representação lacaniana de um lugar vazio. De fato, o objeto precisa ser esvaziado na sessão analítica, para que o trabalho analítico aconteça. Muitos objetos já são evitados e não comparecem ao consultório – o oral, o anal, e o fálico – a não ser pela fala que os evoca. Mas não se consegue evitar outros objetos em sua materialidade gozosa como o olhar, a voz e o sentido. É preciso, então, esvaziá-los, ao máximo, pela manobra do divã, pelo silêncio do analista e pelo corte. Mirmila aponta que uma aparente contradição opera: justamente porque não há satisfação sexual alguma é que o amor comparece e faz laço. Um laço absolutamente ímpar, pois, como ela destaca, não há “O dizer do analisando”, mas Um dizer singular, um saber que o analisando tece, desde que o analista não se faça de obstáculo pela enfatuação de que detém um saber. Ou seja, o SsS é uma miragem que a transferência tece para suprir um laço possível diante da não relação sexual.
Por fim, trago minhas impressões do texto de Valéria Ferranti, que o redigiu a partir da questão: “Tudo que é escrito parte do fato de que será para sempre impossível escrever como tal a relação sexual”. Seu texto discorre sobre a redução da defesa repetitiva que permita alcançar o mínimo: uma iteração mais leve e viável para contornar o impossível da relação sexual. Como ela diz “há uma escrita na palavra […] um texto que se oferece ao deciframento, sem, no entanto, encontrar seu ponto final, porque ‘gira’ incansavelmente para tentar escrever o impossível de recobrir”[1]. Mas um giro que é de outra ordem, não a repetição necessária do maquinário sintomático, mas a iteração do incurável que gira a roda viva.
Escuta-se isso nos passes de final de análise, no estilo de cada AE, assim como na arte que precede e ensina à psicanálise. Ao ler esse texto de Valéria, lembrei do primeiro verso da letra de uma canção antiga de Caetano Veloso que escutei novamente. O nome é Cajuína e o primeiro verso diz: “Existirmos, a que será que se destina?”. Letra e música foram compostas após um encontro entre Caetano e o pai de Torquato Neto, jovem e brilhante, que havia escolhido antecipar seu fim. Diz Caetano que nesse encontro ele chorou muito a perda do amigo e foi o pai de Torquato quem o consolou[2]. Dias depois ele compôs a música e escreveu a letra contornando o real da vida e da morte. Eis que diante de um gozo impossível de negativizar e um furo impossível de tamponar, cifras e letras contornam um troumatisme[3]:
Existirmos, a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos iluminaTampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina[4].
