Capitalismo, gozo e a contingência do amor na contemporaneidade
Teresinha N. M. Prado (EBP/AMP)
Para articular a configuração contemporânea do laço social e o axioma “não há relação sexual”, precisamos necessariamente passar pela mutação do discurso do mestre em discurso capitalista. Em Estou falando com as paredes, Lacan localiza o discurso do capitalismo como a foraclusão da castração, sua rejeição do campo do simbólico, deixando de lado as coisas do amor[1]. Então, o discurso capitalista empreende uma forclusão da castração, sem, contudo, obter sucesso nas tentativas de escrever a relação sexual que não existe.
No Seminário 17, Lacan descreveu quatro tipos de discurso, fazendo circular no sentido horário 4 elementos: S1, S2, a e $, em quatro lugares: o de agente, que se dirige ao outro (destinatário) a fim de que se produza algo (este é o lugar da produção), e abaixo do lugar de agente, bloqueada pela barra e inacessível à produção, estaria o lugar da verdade. Os quatro discursos são, respectivamente, o do Mestre, o da histérica, o do analista e o Universitário, cujas implicações ele deduz. Ali o discurso do Mestre aparece como o avesso do discurso do analista, pois aquilo que nele se encontra em posição de verdade (recalcado) é justamente o que no discurso do analista aparece como outro (destinatário): o sujeito dividido ($). Nesse mesmo Seminário, Lacan introduz um quinto discurso, ao qual dá o nome de discurso capitalista, que seria um “efeito de mutação capital, […] que confere ao discurso do mestre seu estilo capitalista”[2]. Essa mutação do discurso do mestre coincide com uma mudança que se deu na história da humanidade: a partir de certo momento “o mais-de-gozar se conta, se contabiliza, se totaliza”[3].
No ano seguinte, Lacan esclarece do que se trata nessa mutação: o lugar de agente passa a ser ocupado pelo $, e o lugar da verdade pelos S1, que se pluralizam, assim como o produto, os objetos a, descartáveis, oferecidos pelo mercado com a promessa de complementaridade e gozo, que se torna um imperativo insaciável, aumentando, em vez de arrefecer o mal-estar na civilização, pelo que Lacan chamou de produção de uma “insaciável falta-a-gozar”[4]. Como isto se dá? A ciência na contemporaneidade, aliada ao mercado de consumo, produz objetos de gozo que não precisam da escala inversa da lei do desejo para serem obtidos e usufruídos. Hoje eles estão disponíveis, seja nas prateleiras das lojas, nos stories das redes sociais, nos sites de comércio virtual e nos cardápios dos aplicativos de encontros.
Como diz Miller, em “Teoria do parceiro”, a relação com o Outro é mediada pelo sintoma, destacando a definição do amor, em Lacan, como “o encontro, no parceiro, dos sintomas, dos afetos, de tudo o que nele e em cada um marca o rastro de seu exílio da relação sexual”[5]. Exilados, portanto, todos somos, cada um à sua maneira. Miller afirma que “a invenção lacaniana do objeto a quer dizer que não há relação sexual”[6], pois o parceiro do falasser não é o Outro sexual, mas o que o substitui como causa do desejo[7]. Portanto, nessa seara não há dois sujeitos em questão, mas cada um com seu objeto-causa.
A sexualidade, então, “está no centro do que se passa no inconsciente – diz Lacan – e está no centro por ser uma falta”[8], pois, no lugar em que se supõe que se poderia escrever algo da relação sexual, o que surge são “os impasses gerados pela função do gozo sexual”[9]. Isso faz com que o gozo esteja “fadado às diferentes formas de fracasso”[10].
Quando falamos que não há uma fórmula universal que possa escrever a proporção entre o gozo de um homem e o gozo de uma mulher, partimos do pressuposto de que esse campo só pode ser abordado pela via do singular. Ou seja: cada um goza de um modo, determinado pelo que comumente chamamos de troumatismo, o furo estrutural, o ponto onde o real irrompe na estrutura, o impossível de dizer, o lugar sem-sentido na trama da linguagem, que nos constitui.
E por que o discurso capitalista, ao produzir a foraclusão da castração, deixa de lado as coisas do amor? Se o amor se estabelece na hiância da inexistência da relação sexual, na tentativa de escrevê-la, ele, portanto, aceita a castração, dado que tenta supri-la, oferecendo-se como aquilo que falta ao amado, como dom do que não se tem, escamoteando seu caráter narcísico. O discurso capitalista, por sua vez, ao produzir cada vez mais objetos descartáveis, não se ocupa propriamente do desejo, mas reafirma um imperativo de gozo.
Diante disso, o que pode a psicanálise na contemporaneidade, tomando como ponto de partida a teoria dos discursos de Lacan? Como uma espécie de laço social, justamente, tal como vemos na construção desse matema, o discurso do analista é o único que dá lugar de sujeito ao outro (destinatário), ficando o agente na posição de objeto. Assim se abre a possibilidade de subverter o discurso capitalista que ludibria o sujeito, fazendo-o acreditar-se agente, quando, na verdade, é comandado por uma profusão de significantes-mestre (S1) que se sucedem no lugar da verdade e servem ao imperativo do consumo. Ao sustentar o lugar de semblante de objeto, o analista permite uma extração de gozo e uma abertura para que apareça a divisão subjetiva e a castração, restituindo o sujeito em seu lugar de falante e permitindo que se veicule a questão sobre o que causa seu sofrimento.
