Biblioteca da EBP-Nordeste
Sandra Conrado[1]
A diretoria de biblioteca se destina à política de acervo e documentação da Seção Nordeste. Estende seu trabalho também para questões epistêmicas e tem a transmissão como base do ensino e da leitura do que está ativo na cultura. A marca de seu trabalho se dá através das “Noites de Biblioteca”, rubrica designada ao espaço dedicado ao diálogo da psicanálise com outros saberes que acenam para as subjetividades de nossa época: a literatura, a educação, o teatro, o cinema e a arte em geral. Assim, é um espaço que se permite ler as letras, mas também as formas de sintomas de um tempo que implica para nós um dizer sempre a mais. E quando possível, sempre melhor.
Neste primeiro ano de trabalho da gestão 2025-27 realizamos atividades que nos chegaram pelas janelas abertas, como vento que inundou os espaços das redes sociais, perturbou pais e preocupou escolas: a série “Adolescência” (criação de Jack Thome e Stephen Graham). Também questionou o modo de gozo masculino, com o filme “Oeste Outra Vez” (escrito e dirigido por Erico Rassi) e o livro “Ainda Estou aqui” (escrito por Marcelo Rubens Paiva), que originou o filme homônimo, emocionando os jovens com a história de uma família que resistiu a um dos períodos mais duros do país e rendendo ao Brasil o Oscar de melhor filme internacional.
Abrindo a janela da formação, a diretoria, em suas Noites de Biblioteca, dirigiu um olhar para questões que puderam ocupar, na discussão com a comunidade analítica e os participantes da Seção Nordeste, temáticas envolvendo a psicanálise em intenção e extensão. Começamos com a pergunta “Por que falar de supervisão?”. Como sugestão da comissão da diretoria de biblioteca, pudemos falar de um assunto fundamental para o campo freudiano: o valor da “Tradução”. Outra proposta que animou nosso trabalho foi a solicitação da Diretoria da EBP para a realização de uma atividade preparatória ao XV Congresso da AMP em abril de 2026, cuja temática “Não há relação sexual” encontra-se referendada no “Barco Sexual”, boletim do Congresso, em várias referências e em muitos comentários dos membros da AMP sobre o tema.
Segue uma pequena resenha dessas atividades de 2025:
Sobre a série Adolescência, recebemos Marcelo Veras (EBP/AMP) que contribuiu como sua análise “O que não faz série na série Adolescência?”, abrindo uma reflexão sobre a adolescência hoje, e o que os adolescentes estão falando de si mesmos em nossa época. Além disso, trouxe a questão fundamental sobre o que esses sujeitos podem nos ensinar, destacando a essência do que traz a série: os excessos e a violência.
Na atividade sobre o filme “Oeste Outra Vez”, recebemos o ator Daniel Porpino, com quem conversamos sobre sua atuação e a forma satírica com que o filme trata a questão do masculino na relação com o feminino. Suas amarguras e a forma como dá destino às suas angústias, suas perdas amorosas, além do esvaziamento emocional no discurso que se apresenta na relação com seus pares, bem como seus chavões. Um filme cómico, que, pelo humor, discute o ridículo de um gozo fálico em seu fracasso.
Do livro “Ainda Estou Aqui”, de Marcelo Rubens Paiva, discutido por Sandra Conrado e Tatiana Schefer, foram extraídas não só as memórias de um filho sobre sua mãe, mas também seu relato sobre o Alzheimer dela, aparecendo como insuficiente no apagamento do que vinha de seu corpo: “Ainda estou aqui”. A história de uma mãe, de uma mulher, sua dignidade, a ética de um desejo. Uma história, um livro que nos ensina, ao modo de Antígona (de Sófocles), discutido por Lacan (Seminário 7), o valor ético do desejo. A Diké de Eunice Paiva, que diferente de Antígona, manteve vivo no materno “um desejo não anônimo” (Lacan), relatado por seu filho: “Eu não casaria com minha mãe”.
“Por que falar de supervisão?” veio como proposta de abrir para a comunidade analítica o valor político da supervisão. Paula Borsoi (EMP/AMP), nossa convidada, trouxe algumas provocações. Entre elas, a supervisão no campo institucional, que mesmo colocada na psicanálise em extensão, há que se articular com a psicanálise em intenção. Supervisão é tema presente no singular da formação, mas também, para além da análise, no campo institucional. A atividade nos colocou a trabalho, com questões que passaram pelo ato analítico, pela ética e a política da Escola, mantendo viva a questão: o que é um analista?
“Migrações da Tradução”, com a convidada Marcela Antelo (AME/AMP e EBP), a partir de uma citação de Cortázar, extraída de Serge Cottet, desloca o exílio da condição geográfica à relação com a língua. A tradução, como nos ensina Antelo, está por toda parte na psicanálise: do saber ler nas entrelinhas (Miller) ao esforço de dizer o intraduzível. Fazer análise noutra língua pode permitir tocar algo do gozo, menos barrado pela língua materna. Antelo, assim, nos convidou a tomar a tradução como experiência de feminização. “Traduzir: do texto escrito por um outro às marcas do texto que cada um traz advindas de seu próprio enredo com o Outro. Litoral onde se faz poesia, ali onde não há relação sexual. Porque traduzir é interpretar”.
“Não há relação sexual”, tema do XV Congresso da AMP, também entrou em discussão nas nossas “Noites de Biblioteca”, nas quais pudemos contemplar, dentro da proposta da diretoria da EBP, a realização de uma atividade preparatória ao XV Congresso em Paris-França/2026. Contamos com a presença dos colegas Glacy Gorski (EBP/AMP) e Wilson Lima, que recolheram “pérolas” do barco sexual. Nele pudemos navegar com os temas “Não há relação sexual: há o amor” e “Não há relação sexual: há gozo”, que produziram uma excelente discussão estendendo-se pela via do desejo e da feminilidade.
