Biblioteca da EBP-Leste-oeste
Adriana G. Pessoa[1]
Em 2025 o desafio da Comissão de Biblioteca da Seção Leste-Oeste foi o de trazer para discussão com a participação de convidados, o tema proposto de “O que é ler em psicanálise”.
Tema instigante que se refere a singularidade do trabalho analítico, na dimensão de ensino e por que não de transmissão na Escola, nas atividades da biblioteca. Questões iniciais formuladas em relação a temática proposta, que vem sendo discutidas nas atividades.
De que leitura e de que escrita se refere? Qual a marca do escrito e da leitura em psicanálise? Como podemos discutir a função do escrito para além dos semblantes? E a relação entre o escrito e o real?
A psicanálise diz respeito a uma escuta, e também uma questão de leitura. Podemos dizer que no campo da linguagem a psicanálise toma seu ponto de partida na fala, mas se refere ao final a escrita, àquilo que o inconsciente escreve.
No seminário Mais, ainda, Lacan começa a demarcar algo da escrita, para além da fala e sua relação com o inconsciente. “ É evidente, que no discurso analítico, só se trata disto, do que se lê, e tomando como o que se lê para além do que vocês incitaram o sujeito a dizer”.¹ Miller em texto Ler o sintoma afirma: O inconsciente é que se lê”.
Com intuito de avançar na temática da função do escrito e da leitura, convidamos colegas de outras Seções a estarem conosco nos sábados da biblioteca da SLO em que privilegiamos este tema.
Ram Mandil (Seção Minas) inaugurou as manhãs com seu texto o Ato de Leitura em psicanálise demarcando a diferença entre ler um sintoma e ler o inconsciente. Mandil retoma em seu texto a afirmativa de Miller sobre o inconsciente é que se lê, para questionar se podemos considerar o inconsciente como um leitor, como um intérprete. Daí a questão: como ler o inconsciente visto ele ser o leitor de si mesmo? Ao que o autor responde:
“O inconsciente pode verdadeiramente aprender a ler, ao longo de uma experiência analítica, é alguma coisa que não pode se escrever. O que não pode se escrever, e sabemos disso através do próprio Lacan é, de fato, a relação (rapport) sexual entre os falasseres (parlêtres)².
Iordan Gurgel (Seção Bahia) outro convidado das manhãs de sábado da biblioteca trouxe contribuições a partir da leitura do texto de Miller Ler o sintoma. Iordan, em sua apresentação destaca de início a necessidade de um esclarecimento: esse “ler” não é simplesmente saber “ interpretar o sentido do sintoma” mas sim que se refere a um retorno a “letra” à matéria da escrita , ao gozo produzido pelo sintoma como resto do real. Pode-se deduzir segundo Iordan, que ler não é compreender e sim um ato que toca o real do sintoma, isto é, aquilo que resiste ao sentido do deciframento. Quando então falamos de ler o sintoma, trata-se de ler uma escrita do gozo. Diz-se da articulação da leitura do sintoma com a prática clínica, e também o que Miller propõe em seu texto sobre uma ética da leitura analítica. A leitura analítica implica em deixar cair o ideal de deciframento total, acolhendo o resto, do “não-todo” que permanece opaco nos afirma Iordan, mas legível.
A aposta na continuidade do trabalho, de leitura dos textos, discussão está colocada em nossas atividades, num enlaçamento do “ler” com a clínica psicanalítica nos tempos atuais para o ano de 2026.
