Apresentação do Scilicet 2026
Ana Lydia Santiago (AME, EBP/AMP)
A conversação sobre o Scilicet 2026 que nos reúne hoje[1] é uma atividade preparatória ao XV Congresso da Associação Mundial de Psicanálise (AMP), assim como o volume Scilicet 2026, Não há relação sexual também se inscreve como um trabalho preparatório a esse encontro, esperado para se realizar em Paris, de 30 de abril a 3 de maio de 2026. Para os dois últimos Congressos bienais precedentes e para o atual, Jacques-Alain Miller elegeu como título uma proposição aforística de Lacan. Desta vez, Não há relação sexual permitirá abordar o tema extremamente embaraçoso das relações entre os homens e as mulheres.
O Scilicet 2026 é o décimo primeiro da série de volumes preparatórios aos Congressos da AMP. Sua preparação envolve um número expressivo de membros da AMP de diferentes Escolas, que se reúnem em cartéis multilíngues e, dessa maneira, têm a oportunidade de conhecer mais de perto colegas de outras Escolas, em uma experiência que reforça e consolida a Escola UNA. Christiane Alberti, atual Presidente da AMP, me confiou a tarefa de Delegada do Conselho da AMP responsável pelo Scilicet Não há relação sexual, e, assim, eu orquestrei a produção e impressão desse volume em cinco línguas – português, espanhol, francês, italiano e inglês – as línguas faladas nas sete Escolas de Psicanálise do Campo Freudiano, reunidas pela AMP. Esse Scilicet 2026 particularmente contou com a participação de 400 membros da AMP, e já está à mão dos membros inscritos no XV Congresso, como também está à venda no site da EBP[2].
O que quer dizer scilicet? Scilicet é uma contração da expressão latina scire licet, que pode ser traduzida literalmente como “é permitido saber” ou “pode-se saber”. Por isso mesmo, cada volume preparatório para o congresso da AMP ressoa com esse título, que foi o título escolhido por Lacan para sua revista, que ele próprio apresentava aos seus leitores com este apelo: “Você pode saber!” Tive oportunidade de mencionar isso em um Podcast de divulgação do Scilicet Não há relação sexual, produzido por Maria Rita Guimarães e Ernesto Anzalone, e que já está no ar, no site do Instituto de Psicanálise de Minas Gerais[3]. “Você pode saber!” é uma afirmação exclamativa, pois o discurso analítico não admite a pergunta sobre o que se pode saber, já que parte de supor o saber como sujeito do inconsciente. Portanto, “Você pode saber!” tanto pode ser um aguilhão contra a defesa estrutural do sujeito em relação ao saber do inconsciente, mas também concerne à proposição de Lacan para o produto de sua Escola: “Você pode saber o que pensa a Escola”. Inspirada nessa proposição, os textos reunidos no volume Não há relação sexual são apresentados, da seguinte maneira: “Eis o que a Escola pensa”.
Todos os textos que compõem o volume são produtos de trabalho em cartel. Vinte e dois cartéis foram formados, cada um encarregado de promover uma reflexão sobre o aforismo Não há relação sexual, a partir de outros 22 aforismos. Estes outros 22 aforismos foram pinçados por Philippe Hellebois (ECF), responsável pela bibliografia do XV Congresso da AMP. Ele os extrai da obra de Freud, do ensino de Lacan e da orientação lacaniana de Jacques-Alain Miller. Cada aforismo foi designado para um cartel. Nenhum Mais-Um ou cartelisante teve acesso à lista dos aforismos em sua íntegra, para fazer jus à própria definição de aforismo, a saber, “o que se separa do resto e determina”. O volume é apresentado por Ricardo Seldes, diretor do XV Congresso da AMP, a abertura é de Christiane Alberti e o texto de orientação, de Jacques-Alain Miller.
No volume encontram-se 10 elaborações de colegas da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) das quais se pode notar que os aforismos constituíram, de fato, não apenas o suporte de uma reflexão crítica sobre o alcance da proposição em questão, como uma escrita capaz de ressoar na subjetividade do autor como vocês poderão constatar no curso da conversação de hoje.
Destaco que a ideia central dessa proposição Não há relação sexual é a de um furo no saber para o falasser, acerca de sua posição sexuada. Nada se inscreve no inconsciente sobre o que é ser homem e o que é ser mulher. “O significante não é apropriado para dar corpo a uma fórmula que seja da relação sexual”, como Lacan afirma em “Radiofonia”[4]. Ele afirma também, em “Nota italiana”, que “Não existe relação sexual que possa pôr-se em escrita”[5]. Ou “Não há nenhuma estesia do sexo oposto que explique a pretensa relação sexual”[6]. Com essas e outras afirmações, Lacan marca um vazio, uma falha estrutural, um real que é a condição mesma para se dizer alguma coisa com a ajuda da linguagem.
Entretanto, a escrita impossível da relação sexual “não implica que não haja relação com o sexo”, aforismo sobre o qual se debruçou Susane Zanotti por meio de um fragmento clínico. Sob o fundo de uma escrita impossível, estabelecem-se ligações, tal como a transferência, mas também o amor, o ato sexual e, mesmo, o casamento. Mirmila Musse escolheu falar do laço transferencial. E nessas ligações, nesses laços, o parceiro se funda sobre a relação no nível do gozo, já que não se pode fundá-lo sobre a proporção significante no nível sexual. Como afirma Jacques-Alain Miller: “Não há relação sexual, quer dizer, que o falasser, como ser sexuado, faz parceria, não no nível do significante, mas no nível do gozo, e essa ligação é sempre sintomática”[7]. O que se escreve a partir do impossível de escrever, foi abordado por Antônio Teixeira, Valéria Ferranti, Laura Rubião e Maria Inês Lamy com a histeria.
Na relação entre os sexos, o amor humaniza o gozo, como se pode ler no texto de orientação de Jacques-Alain Miller, que escolhi para integrar esse Scilicet. Mas ao dar a ilusão da relação sexual, o amor alimenta a ilusão de um gozo pleno. Resultado: desilusões, devastações, e rejeições. No final de seu ensino, Lacan apreende da lógica uma modalidade de par: “o outro sexo é suportado pelo sinthoma”[8]. Júlia Solano nos fala sobre o sinthoma cada um com sua cada uma. “Uma mulher é um sinthoma para todo homem”[9] e “O homem é para uma mulher uma devastação”[10]. Para Andrea Reis, trata-se de duas formas de suplência ao não há. Mas é preciso considerar que há uma diferença entre sinthoma e devastação. Há uma dissimetria entre o gozo do lado homem e o gozo do lado mulher, que impõe levar em conta, mesmo na parceria amorosa, dois inconscientes distintos, dois sinthomas: o sinthoma ele e o sintoma ela, “há um sinthoma ele e um sinthoma ela. A relação sexual é uma relação intersinthomática”[11]. Finalizando, Flavia aborda o vazio.
O prefácio do Scilicet Não há relação sexual, de Christiane Alberti, é de uma atualidade e de um frescor incríveis. No último item, ela lança três perguntas que creio serem luminosas para escolhermos casos de nossa prática para enriquecer as simultâneas clínicas do XV Congresso da AMP. São elas:
- “No tempo dos Uns-sozinhos, quais as novas modalidades do desejo de fazer casal?
- Quando ninguém acredita mais no programa para cada um, sua cada uma, o amor continua sendo uma suplência privilegiada para a não-relação?
- Quais as outras formas de suplência reveladas pela clínica e pela prática analítica?”[12]
A data limite para o envio das contribuições clínicas é o dia 15 de dezembro próximo, e vocês encontram as orientações no site do congresso. Espero que o Scilicet Não há relação sexual possa se constituir em um grão de saber para a elaboração das contribuições de todos nós.
