A pedra no caminho: a irredutibilidade do objeto a
Célia Ferreira Carta Winter (EBP/AMP)
O Seminário de Orientação Lacaniana, sob a responsabilidade do Conselho da Seção Sul, tem como foco o curso Causa e Consentimento,[1] de Jacques-Alain Miller. Ao ser convidada a apresentar o Capítulo XVII, fui capturada pela maneira como este curso ecoa o aforismo de Lacan, tema do próximo Congresso da AMP: Não há relação sexual.
O efeito-surpresa da apresentação, o “vivo”, reside na forma como Miller aborda o objeto a. Ao tratá-lo como a prova viva da falha estrutural da não relação sexual (o resto opaco do gozo), ele generaliza a barra (o vazio estrutural), apontando para a atualização central do real no último ensino de Lacan. Miller demonstra que a Metáfora Primordial A/J, consiste em uma operação lógica que generaliza a barra. O Édipo freudiano (a Metáfora Paterna) é, assim, evidenciado como um caso particular de uma estrutura mais universal: a substituição do gozo primário (J) pela linguagem (A). A relação parental atua como uma suplência simbólica para a falha estrutural da não-relação sexual.
O que escapa dessa substituição é “a pedra no meio do caminho”[2], o objeto a resto irredutível do gozo que persiste como a “prova viva da falha estrutural”. Frente a esse incurável, o fantasma e o amor são arranjos complexos que buscam velar o axioma da “não-relação sexual”. O amor surge como a manobra essencial para negar a impossibilidade do “fazer Um”, servindo de véu para o desencontro estrutural entre os sexos. Contudo, essa tentativa de completude é frágil, pois a paixão não se dirige ao ser do outro, mas ao que lhe falta. O desejo insiste: “eu te amo, mas, porque inexplicavelmente amo em ti algo que é mais do que tu — o objeto a minúsculo — eu te mutilo.”[3]
Essa falha estrutural ressoa poderosamente no cenário contemporâneo, nos adverte Christiane Alberti[4] ao articular o que observa na clínica com o “paradoxo contemporâneo da sexualidade, marcado por uma maior diversidade sexual, mas, paradoxalmente, por uma menor frequência de relações”. Ela propõe uma leitura lacaniana desse cinismo e desencanto, onde o objeto da realidade se sobrepõe ao real pulsional.
Alberti lembra o valor do aforismo, o Não há relação sexual não é um furo: é um puro não há. Ela conclui que a inacessibilidade da relação sexual como algo inscritível é, ironicamente, o que condiciona que haja relações – que haja algo da ordem do sexo, relações que são sempre sintomáticas.
O que realmente ressoa nesta transmissão de Miller é a consequência clínica direta: a falha estrutural do Não há relação sexual não se manifesta como uma mera ausência de palavras para o desejo. Ela se manifesta, antes, como uma opacificação vívida no campo do imaginário, uma mancha que insiste em se impor onde a transparência seria esperada. O desejo do analista, em sua dimensão ética e política, sustenta o furo – o vazio de real delimitado pelo discurso. É a introdução dessa barra que permite ao sujeito consentir com a falta de sentido e inventar uma forma singular de lidar com seu sinthoma.
