Uma Noite da Biblioteca EBP-MG: “A experiência da psicanálise”
Marina Ladeira[1]
Com a casa da Seção Minas cheia[2], inauguramos a sequência de três encontros[3] que acontecerão ao longo de 2025, cujo tema é “Experiência da psicanálise”. Para nos conduzir nesse percurso, escolhemos um recorte do Seminário 1[4] que nos fez indagar: o que depreendemos da especificidade da experiência da psicanálise nas elaborações de Lacan em torno do caso Dick? Por que Lacan usou um experimento da ciência, mais especificamente da física, para apoiar suas formalizações do caso clínico?
Patrícia Kauak apoiou sua apresentação na leitura minuciosa dos textos propostos, acrescentando a estes detalhes do contexto científico da época, o que destacou, ainda mais, a posição original da proposta da psicanálise em relação aquele. É nessa vertente que ela sublinha, no texto de Lacan, o comentário de que Freud, na Interpretação dos Sonhos, propôs um novo saber em relação à ciência que reintegra o sonho e o sentido, inaugurando uma abordagem original daquele fenômeno enquanto experiência psíquica. Partindo da divisão subjetiva, que é experimentada através do inconsciente, a psicanálise radicaliza sua diferença em relação à corrente científica positivista que visa uma unidade metodológica.
Para abordar o esquema óptico, Kauak realizou um experimento com o espelho côncavo, do qual extraiu uma imagem invertida e “real”[5], diferente daquela virtual produzida pelo espelho plano, transmitindo, assim, a formalização de Lacan sobre as diferentes formas de conceber a imagem e o imaginário.
Na intervenção de Antônio Teixeira, por sua vez, experiência, imaginário e formalização foram temas centrais. Ele nos lembrou que nos anos 1950, Lacan enfatizava o registro simbólico frente ao imaginário desregulado da psicanálise kleiniana. Para tanto, a partir do esquema óptico, Lacan incluiu o lugar do observador, pois a posição do sujeito determina o que ele vê. Como comentou Teixeira: “o que pela imaginação se busca não é ver melhor o que já se enxerga, mas, sim, tomar distância do lugar que normalmente parte nossa observação e que, na verdade, nos impedia de ver”. Ao incluir a posição do sujeito e a regulação simbólica, Lacan se opõe às interpretações selvagens de Melaine Klein, que compreende rápido demais seu paciente, sem se dar conta de seu ponto cego: ao fazê-lo, ela está produzindo sentido a partir de suas próprias fantasias. Teixeira ainda comenta que a partir dos anos 1970, Lacan usa cada vez mais de esquemas visuais para formalizar seu ensino, o que demostraria a importância do imaginário para fazer uma ideia do real diante da insuficiência do simbólico.
Com isso, extraímos do debate a importância de que um analista saiba localizar e se separar de sua subjetividade, de seu modo de gozo, ao conduzir uma análise. Por fim, ouso dizer que esta é uma das funções da formação do analista na experiência de Escola: fazer esse deslocamento, a cada pergunta e a cada discussão, a cada supervisão e com a própria análise.
