Uma conversa sobre a adolescência na Biblioteca da Seção NE
Wilson Lima[1]
A Noite de Biblioteca, da Seção Nordeste, abriu as atividades do ano de 2025 tendo como convidado Marcelo Veras e propondo uma conversa sobre a adolescência e a série homônima que tem gerado diversos debates tanto entre psicanalistas quanto na sociedade em geral.
A série Adolescência tem provocado efeitos e afetos nos seus espectadores que os fizeram voltar-se para a adolescência como se estivessem diante de uma grande descoberta do mundo contemporâneo sobre os adolescentes e seu teen way of life. Chocados e incrédulos, todos parecem se perguntar o que leva um adolescente de 13 anos a assassinar uma colega. Quem responsabilizar? O adolescente, os colegas, os pais, a sociedade, a Internet? Ao abordar a violência retratada na série, Marcelo levanta a questão: onde localizar o mal?
Partindo dos paradoxos do conceito de adolescência, Marcelo nos leva a refletir sobre a adolescência na nossa época, destacando que não há um discurso da adolescência, ou seja, embora atualmente falemos de adolescência com mais frequência, há pouca ênfase no que os adolescentes falam de si mesmos. Essa pontuação nos leva às seguintes questões: o que os adolescentes podem nos dizer de si? O que eles podem nos ensinar sobre o mundo contemporâneo?
Uma vez que a passagem da infância à adolescência implica também uma passagem do Outro parental ao Outro social – um movimento que Freud indica como sendo uma separação da família com a qual todo jovem se defronta, sendo auxiliado pela sociedade[2] –, como podemos pensar essa passagem e separação na época do Outro mídia social? O discurso que circula nas redes sociais, inclusive sobre a adolescência, estaria criando um Outro excessivamente consistente?
As pontuações de Marcelo também nos levaram a refletir sobre os excessos da contemporaneidade, entre eles, o uso excessivo do celular e da Internet pelos jovens. Em A terceira, Lacan já nos indicava que “não chegaremos a fazer com que o gadget não seja um sintoma, pois ele o é, por enquanto, muito evidentemente”[3]. Como esses excessos têm se apresentado na clínica com adolescentes e na sociedade? Que leituras podemos fazer dos atos de violência – sejam eles passagens ao ato sejam acting outs – que parecem ter se tornado mais frequentes nos últimos anos?
Se cada época tem seu mal-estar e seus eventuais efeitos para a subjetividade, o que a psicanálise pode oferecer diante da agitação do real e do empuxo ao gozo dos adolescentes contemporâneos? Quais soluções eles têm conseguido inventar para se virar com esse mal-estar?
A conversa com Marcelo nos deu algumas pistas para discutirmos essas questões, a teoria e a prática clínica com adolescentes hoje, bem como levantou outras questões que ressoarão em futuras conversas sobre a adolescência.
[1] Participante da Comissão de Biblioteca da Seção Nordeste.
[2] FREUD, S. O mal-estar na civilização (1929). Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XXI).
[3] LACAN, J. (2011). La Troisième. La Cause freudienne, 79 (3), 11-33. https://doi.org/10.3917/lcdd.079.0011
