Take on Me
Fernando Reis[1]
Em um auditório cheio com alunos de psicologia de um centro universitário de caráter confessional, um formidável encontro se deu. Foi o evento preparatório para as VI Jornadas da EBP-LO, cujo tema será Encontros & Desencontros – Parcerias Sintomáticas. Na ocasião, em uma mesa composta por Rafaella Cunha, psicanalista praticante participante da NPJ, e Cleyton Andrade, psicanalista praticante membro da EBP/AMP, e mediada por Leandro Borges, foi discutida a série Adolescência, da Netflix. Pode-se perceber como o aspecto contingencial dos encontros possibilita a abertura para o novo, o inesperado. A série em questão já havia sido amplamente discutida, por vários colegas analistas, inclusive. Haveria algo novo a ser dito? Ainda mais numa instituição confessional, haveria alguém disposto a ouvir?
Pois, sim! E levando a psicanálise de orientação lacaniana para fora da Escola, a ponte construída teve trilha sonora. O destaque do evento foi, por meio da escuta atenta de Cleyton, uma música que foi usada como provocação. Cleyton pediu para que a música que tocasse enquanto os ouvintes adentrassem o auditório fosse o clássico Take on Me, de 1985, da banda A-Ha. Antes de sua fala, ele também pediu para passar um clipe, em que uma personagem adolescente da série Last of Us canta um cover suave da canção Take on Me. Ora, teria ele errado de série? Claro que não! Essa música também estava na série Adolescência, num momento crucial recortado pelo palestrante, em que o pai de Jamie, o personagem principal, conta como conheceu a mãe ao som dessa música, e como se deu esse encontro amoroso, lá quando ele tinha 13 anos.
Em seu comentário, Cleyton elogia a série e destaca que sua estrutura com episódios em plano sequência não nos dá trégua ou tempo para respirar. Ficamos imersos na narrativa que não se apresenta por meio de uma estética de oposições. Não se trata de descobrir o que aconteceu ou quem foi o autor. Sabe-se tudo, desde o início. Aliás, sabe-se o não-todo e esse é o ponto, o ponto cego no olhar. O não saber no interior daquilo que se sabe, marca do sujeito moderno apresentado por Freud. Não há diagnósticos, a família é funcional, não há nada que justifique o absurdo além do sem sentido do ato ao qual gira a trama da série.
No desenrolar de enunciados sobre o acontecido, foi destacado o encontro de Jamie com a psicóloga forense, que, por meio da sua escuta, desempenha uma função análoga à clínica psicanalítica, por mais que não estivesse ali para isso. Despida das certezas, sustentando uma posição de não saber, a analista por ocasião dá voz à enunciação, que surge nos rompantes agressivos/amorosos do jovem. Há algo ali que denuncia uma falta. Algo não foi transmitido ao personagem principal, ficando fora de seu registro. Algo do pai que poderia tirá-lo da unicidade do gozo centrado no Eu, abrindo portas para uma pluralidade do não saber, dos encontros e desencontros. Algo que não pode ser reduzido a uma incompetência do pai, mas também à característica de uma época.
Cleyton nos lembra que Take on Me significa “me dê uma chance”, “me aceite”, “aposte em mim”. Uma demanda amorosa ao Outro, feita sem garantias. Jamie não suporta a rejeição da garota, e diante do desencontro amoroso, passa ao ato, diferente do que o pai foi capaz. A inquietação que a série produziu nos pais da vida real se manifestou também no auditório, que demandou por soluções, por garantias. Como fazer? Como criar bem os filhos?
A transmissão de Rafaella e Cleyton foi generosa com o público, e ressoou bem, por meio da conversação com perguntas interessadas e não-todo respondidas. A psicanálise se mostrou questionadora, aproveitando as brechas encontradas para apresentar um outro discurso, subversivo à certeza e às garantias. Que as discussões continuem nas jornadas.
