O narcisismo das grandes diferenças[1]
Gustavo Dessal (AME, ELP/AMP)
Alguém por quem sinto um grande apreço me pergunta o que a psicanálise pode dizer sobre o supremacismo, o fenômeno atual cujo crescimento nos inquieta. Hoje em dia, o pensamento tende a obscurecer a importância da luta de classes, que segue tão vigente quanto na época em que Marx a destacou como motor da história, apesar de suas expressões terem variado. O supremacismo é a forma contemporânea da luta de classes, com a ressalva de que não se trata apenas de um combate que se dê no campo da economia. É necessária uma ideologia. E as ideologias se estabelecem em um discurso capaz de comover a confluência entre o inconsciente e o gozo do corpo.
O supremacismo, como ideologia que instiga não só o ódio, mas também a mortificação, a coisificação e a humilhação do semelhante, é um fenômeno em que o sadismo se destaca como pulsão dominante. Para o supremacista, não basta obter uma vantagem econômica. É necessário satisfazer o desejo perverso de perseguir tudo aquilo que podemos situar no conjunto das “comunidades castradas”. Permito-me inventar essa classificação para incluir nela as mulheres, os coletivos LGBTQIA+, os emigrantes, os sem documentos, os doentes, os pobres, os aposentados. Em síntese, todos os seres que estão marcados por uma carência. Essa carência é comum à condição humana, mas a prática do supremacismo consiste em assinalá-las como um traço de inferioridade.
As “comunidades castradas” não são uma minoria. Não o são nem as mulheres, nem os pobres, para tomar apenas dois elementos do conjunto. O supremacista despreza essas minorias, ao passo que respeita aqueles que considera seus iguais. Para entender a fraternidade perversa dos supremacistas, é preciso lembrar que em seu livro sobre O mal-estar na cultura, Freud falou do “narcisismo das pequenas diferenças”, a hostilidade que coloca dois coletivos em enfrentamento, não por suas dissimetrias culturais, religiosas ou econômicas, senão justamente pelo contrário. É a excessiva semelhança que converte cada um em espelho do outro, no qual se reflete o gozo irrepresentável, incognoscível, rechaçado que cada um carrega em si mesmo e que projeta no seu oponente.
Recordemos, com Freud, que um semelhante (frequentemente a mãe ou quem cumpre essa função) foi o primeiro objeto de satisfação, seu primeiro objeto hostil e sua única força auxiliar nas origens do sujeito humano, o qual depende da resposta do outro às suas demandas para subsistir. É em relação a esse semelhante carregado de uma intensa ambivalência que o ser falante aprende pela primeira vez a se reconhecer. Esse semelhante será reconhecido enquanto objeto de um investimento amoroso e sexual, mas também conservará essa porção de estranheza, esse caráter alheio e rechaçável gravado nos tempos mais primordiais da constituição do sujeito. A relação com os outros está condicionada pelo princípio do prazer, que, por sua vez, dá forma aos juízos que elaboramos em relação ao mundo exterior.
O objeto de nossos desejos é bom e mau, amigo e inimigo, familiar e estranho. Nossas escolhas estão condicionadas por isso, mas, ao mesmo tempo, devem ser realizadas no campo do princípio de realidade, que Freud qualifica como “crença”. Causa impacto que a realidade, o mundo psíquico do qual a psicanálise se ocupa seja uma crença. No entanto, o complexo mecanismo da crença é o que, em última instância, modula toda nossa captação do real.
O ataque ao Capitólio de Washington se deu no campo da realidade, mas seu motor foi acionado por um discurso que soube interpretar os desejos sádicos dos supremacistas. Donald Trump é o intermediário entre as massas e uma minoria que não só acumula o poder econômico, mas que também instalou no mundo atual uma diferença sem precedentes. É o narcisismo das grandes diferenças exercido por um punhado de sujeitos cuja avidez por sangue não pode ser entendida como um simples desejo de acumular mais capital. É sobre esse ponto crucial, essa incógnita que subsiste – apesar de todas as tentativas sociológicas de dar-lhe sentido – que a psicanálise pode lançar alguma nova luz.
O descobrimento de Freud no tocante à ética – e que o distingue de tudo aquilo que se disse sobre isso desde Aristóteles – é que o fundamento da lei que institui a civilização é a proibição do incesto. Toda ordem legal de qualquer cultura deriva dessa interdição originária. É o que distingue os seres humanos dos animais. A proibição do incesto significa algo que evidentemente inclui a interdição de gozar da mãe, mas que, ao mesmo tempo, vai mais além disso. A mãe é o que representa a coisa que, no caminho do homem em busca da realização de seu desejo, funciona como limite, como desvio, complicação, tensão e transgressão. E funda as bases para sua posição ética como sujeito. Desse modo, há um limite que, para cada sujeito, está proibido franquear, ainda que no fundo de seu inconsciente, ele deseje isso. Esse limite é o que ao longo da história da humanidade, com toda sua carga de grandeza e de horror, serviu para nos orientar na desesperada busca de sentido.
Contudo, algo mudou nas últimas décadas. Algo que o supremacismo representa como figura exemplar. Esse limite, essa Coisa da qual não podemos nos aproximar sem deslizarmos pelo caminho da extinção de toda realidade humana, começa a dissolver-se. O político é agora a expressão do cumprimento do incesto como máximo desafio à lei do homem, a lei que até agora regia nossa condição. A ilegalidade se naturaliza, se converte na norma. O incesto é, por assim dizer, o assassinato da palavra. Morta a palavra, o mundo está entregue ao canibalismo.
