O médico e o monstro: não sem a fórmula, não sem a substância
Wilker França
Na atividade da biblioteca da Seção Bahia, intitulada “A dualidade do ser humano em O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, com apresentação de Plínio Smith, comentários de Waldomiro Silva Filho e presidência de Iordan Gurgel, discutiram-se múltiplas chaves de leitura para a novela de Stevenson (2015), que narra a história do respeitável Dr. Jekyll, que cria uma poção capaz de separá-lo de seus impulsos mais sombrios, dando origem à figura de Mr. Hyde.
Um ponto me capturou de imediato: a homofonia dos nomes. Jekyll evoca kill; Hyde ressoa com hide. Os nomes antecipam o drama: um marcado pela morte, o outro pela ocultação. O jogo sonoro dos significantes já anuncia o conflito antes mesmo da trama começar.
O estilo da narrativa, que privilegia a ambiguidade e a elipse, permite a Stevenson manter o mistério ao evitar descrever diretamente os atos de Hyde; deixa que o horror se insinue nas bordas do dito. Jekyll ostenta uma fachada respeitável, mas abriga em segredo o prazer sádico e transgressor. Hyde encarna a crueldade sem remorso, e sua aparição revela não um equilíbrio entre opostos, mas uma guerra insolúvel.
A noção freudiana de O infamiliar se faz importante para compreender a figura do duplo. Freud (2019) destaca que o infamiliar não é simplesmente o estranho, mas aquilo que, sendo íntimo e familiar, retorna de forma perturbadora. O duplo, nesse sentido, encarna essa ambiguidade.
Nesse ponto, a leitura de Nabokov (2021), crítico literário, é especialmente instigante e que apareceu apenas de relance na discussão. Para ele, Jekyll não é essencialmente bom: é ambíguo. Hyde não surge como uma nova entidade, mas como um precipitado químico do mal latente em Jekyll. Parasita, se alimenta do corpo e da moral do outro. Nabokov (2021) propõe uma divisão tríplice: Jekyll, Hyde e um resíduo de Jekyll que permanece quando Hyde toma o controle, uma consciência impotente e horrorizada.
Saindo do duplo e avançando para uma tríade, poderíamos dizer que Nabokov (2021) faz ressoar algo da lógica lacaniana, segundo a qual a operação de separação produz um resto. Algo que não se inscreve nem de um lado nem de outro, mas insiste. Esse resto, convém dizer, não é um produto da vontade de Jekyll mas um efeito estrutural da sua divisão. Podemos aproximar essa figura do objeto a lacaniano: aquilo que ex-siste, isto é, que não pertence ao sujeito, mas que, em sua exterioridade estrutural, o causa e o sustenta. Esse resíduo, que Nabokov (2021) descreve como um anel de fumaça, não é moralizante, mas um ponto de horror. O espectro de Jekyll persiste em Hyde. E Jekyll, ao tentar extirpar o mal, torna-se prisioneiro do que não se deixa apagar.
No texto de Stevenson (2015), a fórmula que transforma Jekyll em Hyde depende de uma impureza química desconhecida. Quando essa impureza se esgota, a fórmula falha e o horror se instala: Hyde passa a emergir sozinho, sem ser chamado. Não é o puro que opera a metamorfose, mas o acaso da falha. É a contingência, e não o cálculo, que inaugura o acontecimento.
Esse jogo de três elementos — Jekyll, Hyde e o resto — encontra um desdobramento contemporâneo no filme A Substância. Aqui, a oposição bem/mal é substituída pela tensão entre o corpo e a alteridade. A substância viscosa que invade o corpo revela a impotência do ideal de juventude frente ao que é informe e insistente. Não se trata mais de erradicar o mal, mas de encarar o que escapa aos ideais, uma alteridade que não vem de fora, mas brota no próprio corpo. O que se queria expulsar retorna como ameaça. E o filme radicaliza o ponto já presente em Stevenson: o que ameaça não é o outro, mas o que em nós insiste.
