O impossível de ensinar
Analícea Calmon (EBP/AMP)
O enunciado de J.-A. Miller: “o efeito de formação deve ser abordado pelo avesso, isto é, pelo viés do que não pode ser ensinado”[1], me fez recordar uma experiência que aconteceu há muitos anos, quando uma mulher foi ao meu consultório, buscando atendimento para o filho de 9 anos. Contou-me que ele não estava querendo ir para a escola e depois disse que ele era sonâmbulo, mas não se deteve muito neste assunto. Em seguida, disse ter vindo me procurar por desencargo de consciência, pois, o que ela estava buscando era um atendimento por plano de saúde. Já tinha ido a algumas clínicas, mas ainda não tinha conseguido fechar com nenhuma. Finalmente, disse que levou o filho a um lugar onde era feito um trabalho com hipnotismo, mas o menino não quis ficar lá de forma nenhuma. Ficou apavorado quando viu, num salão, um grupo de pessoas em transe hipnótico.
“Parecem sonâmbulos” – falei. Expressando surpresa com o que acabara de ouvir, concordou e passou a falar mais sobre o sonambulismo da criança. Em seguida pediu que eu marcasse um horário para ela trazê-lo.
“Como marcar horário, se você veio aqui por desencargo de consciência?” – perguntei.
“Já decidi. É aqui que ele vai ficar” – respondeu. Com esta resposta, ela me mostrou algo que não pode ser ensinado, ou seja, o enganche transferencial nas primeiras entrevistas.
