Há violência na linguagem
Cleyton Andrade (EBP/AMP)
Qual modelo devemos adotar para pensarmos o tema da violência? O da intimidade subjetiva da agressividade? Ou mesmo a sua condição constitutiva da subjetividade? Quem sabe o modelo da passagem ao ato como imagem de um ato disruptivo que se desvincula da linguagem?
Sem dúvida, são gramáticas possíveis. Assim como também o são a desigualdade, a fome, a desesperança, a miséria, e o impedimento a acessos a quaisquer coisas que tornem a vida, ao menos, vivível.
A seca e a miséria no sertão nordestino não decorrem de condições climáticas e falta de chuva. É o sintoma de um processo histórico de extrativismo altamente predatório. Ou seja, a pobreza de muitos é o acúmulo de poucos. Portanto, não tem nada a ver com clima e geografia, mas sim com uma forma de violência.
O avanço das tecnologias não melhorou as condições de vida; ao contrário, deu mais celeridade à destruição, morte e fome. A miséria não sofreu retração. A falta de saneamento básico ainda é uma realidade responsável pela morte de crianças comparável ou até maior do que em muitos conflitos armados. Todas elas são formas de violência como sintoma do fim do Estado de bem-estar social. Não se trata só de ódio, mas do ódio aliado à insensatez. E a discursos. O progresso econômico de alguns não se alia ao progresso social do coletivo.
A desigualdade mistura suas raízes com a violência, não havendo como uma não implicar a outra. “As guerras não poderiam cessar enquanto os povos vivessem sob condições tão diversas de existência”[1]. Seja em termos econômicos e de classe herdados de uma violência colonial, seja pelo racismo. Guerras e violência “entre povos primitivos e os civilizados, entre raças humanas separadas umas das outras pela cor da pele, e mesmo guerras contra e entre indivíduos de povos menos desenvolvidos da Europa ou de povos que se tornaram selvagens”[2].
O racismo e o colonialismo pedem passagem para serem pensados clinicamente, no interior mesmo da racionalidade psicanalítica, e para se pensar a violência, são variáveis que se mostram cada vez mais imprescindíveis. “Das grandes nações de raça branca que dominam o mundo, às quais coube a condução do gênero humano”[3], segue Freud em sua crítica politicamente ácida e cirurgicamente clínica. Assim como o colonialismo também é uma forma de violência que nega o direito à autodeterminação com uma mão, e com a outra confere a liberdade para morrer de fome. A lógica colonial é extrativista e agenciadora de privações.
“O Estado impediu ao indivíduo o uso da injustiça, não porque quer aboli-la, mas porque quer monopolizá-la”[4]. E mais, o “Estado em guerra permite-se qualquer injustiça, qualquer ato de violência que desonraria o indivíduo”[5]. Mas esse semblante da guerra vale como operador discursivo, para fazer dela não uma contingência de um conflito com um país estrangeiro. Ela se tornou a verdade de muitos Estados. A guerra e a violência são a verdade velada do Estado violento que tenta propagandear que o inimigo o ameaça de dentro ou de fora. Uma contingência permanente, necessária. Algo que não cessa de se inscrever tentando fazer crer que é pontual em nome de uma defesa de seus significantes mestres. “Ele se serve não apenas da artimanha permitida, mas também da mentira consciente e da fraude deliberada contra o inimigo, e o faz precisamente em uma medida que parece exceder a utilizada em guerras anteriores”[6]. A violência como prerrogativa do Estado se desloca para a cristalização de um Estado violento. Portanto, é mais que o monopólio da violência, e sim a performance de um Estado forte se valendo, sobretudo, da estética de um Estado violento.
O Estado violento se nutre do gozo, extraído da destruição, de cada um. Ao mesmo tempo que toma suas providências para que um certo uso da linguagem, dos discursos, possa continuar formando fileiras de militares ou religiosos. O Exército e a Igreja, menos como instituições e mais como modelos prescritivos de posicionamentos, tal como Freud nos mostrou em Psicologia das massas.
O exemplo do casal que, ao se unir ainda assim não garante uma proteção de sua própria destruição, tal como a democracia, parece oferecer os meios para que se pense que tenta neutralizar a própria destrutividade. Ou seja, não é seguro afirmar que os laços sociais, o discurso, a linguagem, sejam antagônicos da violência e da destruição. Paradoxalmente, se os laços são uma defesa contra o livre curso dos movimentos destrutivos, não conseguem evitar que deles surjam capacidades destrutivas colocadas em curso.
Há violência na linguagem, há violência sistêmica, há uma rede de tecnologias que trabalham a favor da destruição e do ódio, monetizados.
“Não matarás”, a primeira e mais importante proibição da consciência moral[7], foi erguida contra a satisfação obtida através do ódio. O inconsciente “não executa o homicídio, ele apenas o pensa e o deseja”[8]. Mas pode não ser mais espessa que um fio de cabelo a distância entre a realidade psíquica e a realidade factual. Também por isso é tão fácil que os discursos e propagandas de ódio ao inimigo a ser eliminado ganhem as redes sociais, ruas, votos impressos, bandeiras estrangeiras, antes que socos sejam desferidos, atentados executados, tiros e mortes sem vacina. O tiro, o soco, a bomba (ou “tiro, porrada e bomba”) não são meras passagens ao ato. Não são meras expressões diante a ausência da linguagem. Podem ser reféns dela.
