Estar à altura da época
Gresiela Nunes da Rosa (EBP/AMP)
Cultura, civilização, época: significantes que não são do campo psicanalítico, mas sem os quais a psicanálise não poderia se situar. São significantes que mantêm a prática e as teorias psicanalíticas em constante movimento. Se em Freud, cultura ou civilização, dependendo da tradução, é uma das fontes do mal-estar, em Lacan, a ideia de época nos faz pensar ainda mais no caráter volátil do que se passa neste campo que poderíamos localizar como social.
Quanto à prática da psicanálise, disse Lacan “que renuncie a isso, portanto, quem não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”[1]. É uma frase forte, imponente, impactante. Para exercer a função de psicanalista é preciso estar à altura de nossa época. Para estar à altura de nossa época é preciso saber ler a época. Onde e como podemos ler a época? Como não confundir nossa leitura com um sociologismo que reduziria nosso alcance a uma mera significação do que acontece no mundo, e de como isso repercute na clínica psicanalítica?
Em 28 de junho, a Seção Sul da EBP teve a grande alegria de receber Domenico Cosenza, AME da SLP/AMP. Ele fora convidado para uma conversação proposta para falar sobre seu livro “A clínica do excesso”. Qual o excesso hoje? foi a pergunta que nos orientou na conversa. Essa atividade se insere num conjunto de atividades propostas pela Diretoria de Biblioteca da Seção em que o tema do gozo está em debate a partir de textos e livros lançados por alguns autores de nossa comunidade. Essas atividades se inserem na vida da Seção como preparatórias para a VI Jornada que se intitula “Cadê gozo? O que diz a época e a clínica”, que acontecerá em Curitiba nos dias 24 e 25 de outubro.
Gozo e época são dois temas bastante complexos, podemos facilmente nos perder se o que estiver em jogo não seja, para nós, justamente a clínica. Foi assim que com sua enorme capacidade de transmissão, Domenico nos ajudou a nos localizarmos no “como” e “onde” ler a época. Ele nos transmitiu o que tem sido seu projeto de pesquisa ao longo dos últimos 30 anos. Começando pela anorexia no que aí se apresenta como uma radicalização da privação, seu último tema de pesquisa encontrou o que nomeou como a clínica do excesso. Nos faz saber que não se trata porém de pensar numa descontinuidade, mas sim de dois lados da mesma topologia, posto que o que anima o rechaço na anorexia é o gozo do nada, o comer o nada, numa operação de gozo sem limites, tanto quando o comer mais ainda é um transbordamento de gozo na obesidade.
O que se trata então em relação à época, no que a clínica nos permite ler, é perceber como se apresentam os sintomas, como se apresentam os modos de gozo e como se apresenta a possiblidade de intervenção do analista. Nessa clínica das patologias do excesso encontramos uma desconexão dos sintomas com o inconsciente. Eles se apresentam de modo que se pode ler uma condensação de gozo sem nenhuma possibilidade de atribuição de sentidos.
Saber ler como o sintoma e o gozo se apresentam na época, e saber ler como essas manifestações clínicas são refratárias às formas clássicas da teoria e da técnica psicanalítica, como por exemplo, a produção de uma cadeia significante a partir de uma pergunta sobre o sintoma ou mesmo como se estabelece ou não a transferência analítica como dispositivo a partir do qual se opera uma análise, é o que nos orienta para fazer da psicanálise um instrumento à altura da época.
Como operar na clínica quando já não se tem mais os mesmos instrumentos à disposição? Cosenza nos traz algumas considerações: primeiro, é preciso considerar que em muitos casos, o analista sozinho terá dificuldades de intervir, é preciso estabelecer com frequência um bom laço de trabalho com médicos, por exemplo. Também é preciso considerar que o analista não pode se fazer de morto, como seria possível nos casos em que o sujeito dividido se coloca a trabalho. Nesses casos da clínica do excesso faz-se necessário que o analista se apresente como uma presença fiável. É preciso que o desejo do analista não seja anônimo. Mais importa o amor como uma presença real do que o saber, posto que a suposição de saber não está em jogo aí, nos diz Cosenza.
Por fim, gostaria de sublinhar alguma coisa a respeito do estilo de transmissão de Domenico, que permite facilmente perceber que o que se diz e o como se diz parecem de fato enlaçados. Menos ênfase na apresentação do que se sabe pela vida do enunciado e muito mais pela presença de um querer saber, de uma curiosidade dócil que dá lugar ao outro na transferência, fez com que pudesse tratar com tanta clareza e leveza temas tão complexos como o gozo, a época e a clínica. Uma transmissão à altura da época.
