Coringa: música e loucura a dois
Daiane Ossuna Ribeiro Ruiz[i]
Sabemos que a linguagem não diz tudo e, por bem-dizer o não-todo, é a arte que nos dá notícias da criatividade como caminho possível para saber-fazer com a vida. Animada pelo evento preparatório para as VI Jornadas da EBP – Seção Leste-Oeste[ii], pude perceber que no filme “Coringa: delírio a dois” a arte utilizou de outra arte para expressar o que é o amor louco. Cinema e música se encontraram para encenar a loucura a dois.
A música é uma arte pouco explorada na psicanálise, Freud tinha aversão pela música, mas Lacan a apreciava, e tenho que concordar com Sérgio de Mattos (2025)[iii] quando ele afirma “a música nos afeta! Nos afeta para o melhor e para o pior, ela pode nos causar prazer, alegria, ânimo, mas também angústia, medo, horror”. “Coringa: delírio a dois” precisou da música para causar a afetação necessária, para fazer o espectador sentir a loucura, além do olhar. Esse filme é mais do que um musical, é uma experiência de corpo.
Nos quadrinhos, Coringa é um assassino perverso, que encontra sua alma-gêmea Harley Quinzel – uma psiquiatra que se apaixona por ele e passa a ser sua parceira nos crimes. É uma história marcada por violência, manipulação e todos os sinais de “relacionamento abusivo”. No entanto, no filme de Todd Phillips, que conta com a atuação e com a voz de ninguém menos que Lady Gaga como Lee Quinzel, encontramos um casal diferente dos quadrinhos.
Lee é uma paciente no hospital psiquiátrico, apaixonada pelo Coringa desde antes de conhecê-lo. Ela ama o assassino. Arthur Fleck está preso no sanatório e, por seu bom comportamento, ganha acesso às aulas de músicas com os “loucos menos perigosos”. Na primeira conversa, Arthur já confessa à Lee que também matou a própria mãe, mas que ninguém sabia disso. Já está entregue.
Lee é piromaníaca, rica e louca, e um incêndio na noite do cinema é onde o amor deles se estabelece. Arthur é solitário, estranho, desajustado e pobre. Ela promete estar com ele, ser sua companheira, mesmo já não estando internada. O julgamento se aproxima e apesar de sua namorada querer que o Coringa reivindique seu lugar no mundo, Arthur não consegue assumir que é o Coringa. Com o desenrolar do julgamento, ele percebe que o amor de Lee não era por ele e que a fantasia havia chegado ao final.
Longe de ser uma mulher devastada, Lee não aceita ficar com um homem que não assume sua horrorosa loucura. Sônia Vicente[iv] diz que:
o amor no imaginário se confunde com a identificação ao semelhante, é um afeto e proporciona a experiência mais próxima à completude a que se pode aspirar. Porém, só se sustenta, na medida em que a imagem do outro nos faz supor que ela abriga uma substância consistente. Dito de outra maneira: a imagem se sustenta do objeto a, que causa o desejo, ao tempo em que é a base da sua insatisfação.
Sérgio de Mattos[v] aponta que Lacan se serviu da música para fazer uma analogia forte da estrutura da relação do sujeito, do Outro e do objeto a – não sem a matemática – ao relacionar a música enquanto “arte suprema”, que não se representa. Arrisco dizer que o cinema, o roteiro, as atuações, os cenários e figurinos, talvez, não bastariam para traduzir esse delírio romântico. O amor louco de Coringa e Lee não seria representável sem a música.
