Mônica Hage[1]

Silêncio: inibição e sintoma. Esse foi o recorte proposto pelo Conselho da EBP para irmos aquecendo as discussões do próximo Congresso de membros, cujo tema é “Modalidades do silêncio: entre o dizer e o calar”.

A fala, a partir de Lacan, é a experiência da falta-a-ser. Embora Lacan afirme que só existe ser pelo fato de falar, a fala permite pôr em cena que o ser é apenas semblante. Experiência forte de divisão, equivoca, embaraça. De maneira poética, Miller a denominou de “máquina de se perder”[2]; ela perturba, mostra sempre um erro de cálculo em algum lugar. Diz-se mais do que se quer, diz-se menos do que se quer, diz-se outra coisa, diz-se algo parecido, diz-se o contrário. Então, diante de toda essa perturbação, silet! Terceira pessoa do verbo silere, do latim, significa “atividade de permanecer silencioso”[3].

O silêncio, portanto, é o medo de se perder. Esse medo é o que faz a fala não alçar seu voo e o silêncio sobrevir. Como esse medo opera? Produzindo uma inibição? Um sintoma? Vejamos.

Na sua última volta ao tema da angústia – assim entendo o que chamei de “medo de se perder” –, Freud a articula à inibição e ao sintoma.[4] Toma ali a inibição como a defesa mais eficaz contra a angústia. Seria uma forma encontrada pelo eu para evitar um conflito com o supereu e com o isso. A expressão de uma restrição de uma função. O sintoma, por sua vez, já seria um tipo de resposta à angústia. O eu opera um recalque que tem como resultado a formação do sintoma. Enquanto a inibição impede o surgimento da angústia, o sintoma seria uma resposta a isso que surge.

Será que podemos considerar algumas inibições como sintomas? Desde Freud – e vemos isso em algumas de suas análises sobre as inibições intelectuais –, já era possível constatar a presença do modo de satisfação pulsional tão característico da estrutura de um sintoma. Assim, incluindo o aspecto pulsional, conseguimos nos afastar um pouco da ideia da inibição apenas como uma defesa.

Mas é Lacan quem nos ajuda a pensar melhor como isso se dá na prática clínica.[5] Se, por um lado, a inibição seria o estado zero de movimento, por outro, a inibição também pode se sintomatizar. É quando o sujeito, não imune à angústia, não isento de angústia, digamos assim, encontra-se “impedido” ou “embaraçado”, enfrentando dificuldades para realizar algo, mas realizando assim mesmo ao preço de silenciar sobre seu objeto. Aqui, quando a inibição se sintomatiza, a diferença é que o sujeito sofre com isso que o impede. Ele quer e não pode.

O sujeito encontra-se impedido de tomar seu lugar de fala, uma vez que ainda não pôde destituir o Outro de um tal lugar. A boca cala, e o silêncio advém.

Embora saibamos, com Lacan, que a fala é também gozo, que ela pode adquirir valor de gozo, aqui nos interessa, especificamente, quando a fala aparentemente adquire seu grau zero. Como o valor de gozo se infiltra na fala, o melhor modo de balizá-lo é o silêncio, diz Miller.[6] Existem silêncios que marcam a inibição da satisfação experimentada pelo sujeito no ato de produzir o fluxo da fala.

Contudo, um sujeito poderá retificar o estado constante de satisfação onde tudo parece se acomodar. Esse estado de satisfação, no nível da pulsão, pode ser retificado uma vez que o analista aí se intrometa e, com a sua fala, possa fazer falar o que estava silenciado.


[1] AMP/EBP.
[2] MILLER, J.-A. Silet: os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. p. 12.
[3] Ibidem, p. 11.
[4] FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade. (1926 [1925]) In: FREUD, S. Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XX. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
[5] LACAN, J. O seminário, livro 10: A angústia. (1962-1963) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
[6] MILLER, 2005, op. cit.