Fernanda Costa

Uma Rainha que não dá um pio,[1] um ministro que se cala,[2] um detetive blasé que “também não pia para ninguém.”[3]. Três personagens de “A carta roubada”, de Edgar Allan Poe, com características e personalidades diferentes, mas que, na leitura de Lacan, ao deterem a carta/letra, sofrem o mesmo efeito de feminização. Ou seja, “revestem-se dos atributos da mulher e da sombra… propícios ao ato de esconder”[4]. O que, no circuito da fala, se traduz como um calar.

Esse é meu ponto de partida para algumas notas sobre o feminino e o silêncio a convite do Conselho, ao qual agradeço, com a intenção de nos prepararmos para o XV Congresso de Membros da EBP: “Modalidades do silêncio: entre o dizer e o calar”.

Tal como comenta Laurent, em “A carta roubada e o voo sobre a letra”, o efeito de feminização na década de 1950 apresenta uma versão lacaniana do feminino ainda bem freudiana e baseada na busca ativa por fins passivos, cujo paradigma é a mascarada fálica.[5] Os atributos da mulher são estabelecidos a partir de sua posição em relação ao falo e sua castração. Não dar um pio, calar-se, trata-se de um menos de palavras, uma ausência da fala. Em psicanálise, isso poderia ser entendido como silêncio?

A meu ver, foi mais adiante, na década de 1970, ainda em torno de “A carta roubada”, que surgiram elementos cruciais para essa discussão. E, embora no Seminário 18, De um discurso que não fosse semblante, Lacan continuasse sustentando que em suas elaborações sobre a carta/letra ele referia-se ao falo, nesse momento de seu ensino, o falo não se define mais pela sua capacidade de significantizacão (pelo menos não prioritariamente), mas é antes um semblante que coordena algo do gozo.

Algo, mas não tudo! Algo é intangível ao falo. E aqui temos uma virada surpreendente. Neste contexto, o calar-se pela feminização da carta/letra ganha novos desdobramentos e conduz Lacan, como ele próprio anuncia, a “ler a estrutura em suas impossibilidades”[6]. Seu interesse situa-se por um “discurso que não fosse dos semblantes”. E, se por um lado o semblante fálico localiza um limite, não diz tudo sobre o gozo; por outro, a dimensão de escrito, de letra da carta, permitiria uma leitura.

Para transmitir esse ponto, Lacan coteja suas elaborações com o texto de Freud “Totem e tabu”. Vale a pena citar Lacan:

Esse mito escrito poderia muito bem passar pela inscrição do que acontece com a relação sexual… Se não é indiferente eu ter partido do texto A carta roubada, é porque, se essa carta pode, no caso, ter essa função feminizante, é porque o mito escrito, Totem e tabu, foi feito exatamente para nos apontar que é impensável dizer A mulher.[7]

Isso porque o pai totêmico possuir todas as mulheres é “o signo de uma impossibilidade”[8]. Assim, Lacan conclui que “A mulher, insisto, essa que não existe, é justamente a letra – letra como significante que não há Outro, S(Ⱥ)”[9].

Podemos pensar que estas são formalizações que ganharão toda sua força no Seminário 20, Mais, ainda, quando Lacan se ocupa de um gozo “mais além”[10], de um gozo não todo fálico, este sobre o qual nada se sabe e que se situa do lado feminino. Lacan ainda comenta que, sobre essa experiência, não se encontra “nem uma palavra! Nunca se pode tirar nada”[11]. E, mais uma vez, para enfrentar essa face do S(Ⱥ), ele irá recorrer à escrita, dentre outros, aos textos das místicas, buscando uma transmissão desse ponto de silêncio.

Entendo que é nesse sentido que Miller comenta sobre uma “afinidade mais profunda entre o silêncio e o gozo”[12], na qual percebemos “um desfalecimento da fala diante do gozo. A respeito da mulher, Lacan disse: silet. Ela guarda o silêncio sobre seu gozo, sobre o gozo mais-além.”[13]

Qual seria a especificidade, a modalidade desse silêncio? O percurso feito a partir do efeito de feminização evidencia que esse apagamento da fala difere de um silêncio como consequência de uma ausência de palavras, de um calar-se. Não seria aquele silet referido à mulher justamente um índice de uma presença em relação à palavra, a presença de um gozo, ainda que exista ali um limite quanto ao dizer e ao saber?

Enfim, nesse brevíssimo percurso, desde a Rainha que não dá um pio às jaculações místicas das quais não se extrai nenhuma palavra, vislumbramos infindáveis nuances e questões e, também, quão profícua será nossa discussão em torno do calar, do dizer e do silêncio, às quais vai valer continuar nos dedicando.


[1] LACAN, J. O seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. (1954-1955) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. p. 250.
No Seminário 2, a frase literal seria “ela não pia”, tradução publicada para a expressão francesa que aparece no texto original como “elle ne pipe pas”. Cf. LACAN, J. Le séminaire, livre II: Le moi dans la théorie de Freud et dans la technique psychanalytique. Texte établi par Jacques-Alain Miller. Paris: Édition du Seuil, 1978. p. 223.
[2] Ibidem, p. 252.
[3] Ibidem, p. 256.
[4] LACAN, J. O seminário sobre “A carta roubada”. (1956) In: LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 16.
[5] LAURENT, É. A carta roubada e o voo sobre a letra. Correio, Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, São Paulo, n. 65, p. 61-93, 2010.
[6] LACAN, J. O seminário, livro 18: De um discurso que não fosse semblante. (1970-1971) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009. p. 91.
[7] Ibidem, p. 99.
[8] Ibidem.
[9] Ibidem, p. 102.
[10] LACAN, J. O seminário, livro 20: Mais, ainda. (1972-1973) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
[11] Ibidem, p. 101.
No original, em francês, essa passagem foi estabelecida como: “...motus! On n’a jamais rien pu en tirer”. Cf. LACAN, J. Le séminaire, livre XX: Encore. Texte établi par Jacques-Alain Miller. Paris: Édition du Seuil, 1975. p. 96.
[12] MILLER, J.-A. Silet: os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. p. 12.
[13] Ibidem.