Sérgio Laia

 

ANÁLISE E TRADUÇÃO DO TÍTULO DE UM SEMINÁRIO DE LACAN: L’INSU QUE SAIT DE L´UNE-BÉVUE S’AILE À MOURRE

 

“O objetivo de toda arte não é algo impossível? O poeta exprime (ou quer exprimir) o inexprimível, o pintor reproduz o irreproduzível, o estatuário fixa o infixável. Não é surpreendente, pois, que o tradutor se empenhe em traduzir o intraduzível”
(Paulo Rónai, Escola de tradutores)

 

No final do ano passado, quando a Diretoria da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), retomando uma provocação formulada por Éric Laurent no último Seminário Internacional dessa Escola em Buenos Aires, convocou-nos a propor traduções para o título do Seminário 24 de Lacan (1976-1977), fiquei tentado a me arriscar. Entretanto, compromissos já assumidos e a costumeira correria de fim-de-ano me impediram, não sem pesar, de apresentar minha contribuição.  Porém, no início de fevereiro deste ano – sem que eles soubessem desse meu pesar – um convite de Frederico Zeymer Feu de Carvalho e Paula Borsoi me permitiu assumir, agora e aqui, o risco que as atribulações do último dezembro me impediram de enfrentar. Sou grato, a esses colegas, pela renovação dessa chance.

 

Acaso e encontro

Após ler, em A Diretoria na Rede, as opções e os comentários que Teresinha Prado e Romildo do Rêgo Barros apresentaram à tradução do título L’insu que sait de l´une-bévue s’aile à mourre1 , fui primeiro consultar o verbete mourre no prolífico Le Grand Robert (1984-2001). Quanto ao significado, nada encontrei de diferente em relação ao que já havia sido destacado nesses comentários: mourre, segundo esse dicionário, é “um jogo de acaso no qual duas pessoas abrem rápida e simultaneamente certo número de dedos gritando uma cifra que pode exprimir esse número”, de forma que o ganhador é quem “apresenta a cifra certa” – trata-se de um jogo que evoca a brasileira “porrinha”. Sem ser por esse viés do significado, a surpresa apareceu graças a duas citações literárias que Le Grand Robert (1984-2001) apresenta em tal verbete.


A primeira, de Antoine Furetière, escritor francês do século XVII, conjuga o jogo da mourre com o amor e – eis o que me interessa ainda mais destacar – marca o quanto a afirmação certa sustentada concomitantemente por dois jogadores ou dois amantes é obra do acaso: “quando um dizia sim, o outro dizia não, isso durou tanto tempo que eles foram quase despachados, até que, como jogadores da mourre, que só concordam por acaso, disseram sim, os dois, ao mesmo tempo”. Com essa citação, podemos perceber que a proximidade entre mourre e amour (“amor”), da qual Lacan (1976-1977a e 1976-1977b) se vale no título do Seminário 24 e, como procurarei localizar, em outros momentos anteriores de seu ensino, tem tradição na língua francesa. Além disso, a passagem de Furetière ainda me permite articular tal proximidade com a surpreendente saída concomitante dos três prisioneiros na resolução do célebre sofisma apresentado por Lacan (1945) no seu escrito sobre o tempo lógico. Como essa saída não deixa de ter relações com o que se passa no momento de conclusão de uma análise, o título do Seminário 24 também me parece apontar para o que acontece em um fim de análise.


Ainda mais surpreendente é a segunda citação literária que podemos ler no verbete mourre em Le Grand Robert (1984-2001). Afinal, ela é proveniente de Apollinaire, caro a Lacan (1964, 1965, 1971-1972). Nesse dicionário, a citação não é da peça As mamas de Tirésias, evocada nos Seminários 11 e 19, nem do pungente poema Il me revient quelquefois” 2, de onde Lacan (1965) extrai a conjugação do verbo doer, douloir, no presente indicativo e na primeira pessoa do singular (je deux, “eu doo”) com o substantivo deux, “dois”, para se referir à dor que o par, o dois, impõe à Lol V. Stein no arrebatador romance de Duras. Trata-se de uma citação de um dos poemas de Álcoois, onde Apollinaire (1913) reitera o amálgama, quanto aos humanos, entre os jogos do amor e da mourre (que o Mário Laranjeira, tradutor brasileiro se dá a liberdade poética de transmutar em “mora” sem que, no entanto, esse termo, em português, inclua o jogo da mourre entre seus sinônimos):
 
“Os homens sabem tanto em jogo como o amor e a mora
O amor jogo de umbigos ou o jogo do gansão
Mora jogo do número os dedos ilusão”

 

Pistas em Lacan

Já na primeira aula do Seminário 24, Lacan (1976-1977a) procura elucidar o título que lhe deu. Mais precisamente, dedica-se à primeira frase que o compõe: L’insu que sait de l’une-bévue... De início, ressalta que, em l’insu que sait, temos um equívoco porque essas palavras designam uma espécie de “não-saber” ou de “insabido” (insu) “que sabe” (sait). Ora, como pode haver saber em uma ausência de saber? – é esse tipo de questionamento que nos leva a escutar, nessas palavras, um equívoco. Em seguida, Lacan (1976-1977a) destaca que “une-bévue é também uma boa tradução para “Unbewusst”, ou seja, “inconscientemente”, valendo-se aqui da proximidade fônica entre une-bévue (“mancada”, “deslize”, “tropeço”) e certo modo de os franceses pronunciarem Unbewusst. Cita, então, sonho, ato falho e dito espirituoso (trait d’esprit) como exemplos de une-bévue.


Porém, se a princípio essa primeira frase do título parece evocar Freud, uma distância de Lacan se esboça em seu questionamento sobre por que a análise dos sonhos teria que se valer de acontecimentos da vigília ou a análise de um ato falho implicaria o que transcorreu durante o dia. Essa distância se explicita quando Lacan (1976-1977a) afirma: “com esse insu-que-sait de l’une bévue, tento introduzir alguma coisa que vai mais longe que o inconsciente”. Em suma, o título do Seminário 24 não indica propriamente o que se manifesta inconscientemente, e isso se esclarece à medida que, já ao longo da primeira aula, Lacan vai falar de identificação e, sobretudo da identificação com que se depara em um fim de análise: um analisante acaba descobrindo que vai “se identificar, mesmo tomando suas garantias por uma espécie de distância, com seu sintoma” e corporifica um “savoir faire com”, um “saber se virar com ele, manipulá-lo”, um “savoir faire com isso que é seu sintoma” (savoir y faire avec son symptôme). Além dessa referência a saber manipular, ter um jeito com seu sintoma, me parece decisivo destacar, tendo em vista o modo como vou traduzir o título do Seminário 24 e as ressonâncias entre mourre e amour (“amor”), que Lacan (1976-1977a) também afirma nessa primeira aula que “o sintoma pode ser o parceiro sexual”. Nessa afirmação, leio que o equívoco não é apenas de o parceiro sexual poder ser tomado como um sintoma, mas, também, de que o próprio sintoma faz as vezes de um parceiro sexual.


A segunda frase do título, ... s’aile à mourre, será abordada mais claramente por Lacan (19761977b) na sétima aula do Seminário 24. De fato, ele não se dedica à palavra mourre e, quanto a isso, arrisco uma hipótese de que ela já era de algum modo conhecida por quem frequentava seu ensino. Assim, por exemplo, a lettre d’âmour (“carta de Almor”) do Seminário 20 – por sua inserção em uma aula em que é apresentada a “tábua da sexuação” e o modo como Lacan (1972-1973) procura abordar a diferença entre os sexos – não deixa de evocar o poema de Antoine Tudal, citado no escrito, digamos assim, “inaugural” de Lacan (1954): “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”.  Nesse poema, um terceiro termo se interpõe nos pares “homem e amor”, “homem e mulher”, “homem e mundo”, apresentando-se respectivamente como a “mulher”, “um mundo” e “um muro”. Por sua vez, a palavra mourre aparece explicitamente no quinto parágrafo de “Homenagem feita a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein” (1965), associada a um jogo infantil que lhe é similar (“pedra, papel e tesoura”), ao nome mesmo dessa personagem de Duras e no qual podemos ainda escutar um love (“amor”) indissociável do que se pode perder nesse jogo da mourre característico do próprio jogo amoroso.


Na sétima aula do Seminário 24, Lacan (1976-1977b) então não fala explicitamente da mourre, mas confia-nos uma passagem de sua história e que lhe evoca a segunda frase do título (... s’aile à mourre): a irmã, Madeleine, que lhe era dois anos mais nova e ainda não tinha como fazer uso do pronome pessoal “eu”, nem pronunciar corretamente o próprio nome, disse-lhe – “’Manène sabe’”. Tal passagem permite agora Lacan aproximar o inconsciente e a perspectiva do “savoir y faire” referida, na primeira aula desse Seminário, ao sintoma:

“o inconsciente é uma entidade que tentei definir pelo Simbólico, mas que, em suma, não deixa de ser uma entidade a mais, uma entidade com a qual se trata de savoir y faire”.

 

A frase de sua irmã lhe evoca o inconsciente e faz Lacan (1976-1977b) retomar a segunda parte do título do Seminário 24 porque, ao se colocar “na terceira pessoa nomeando-se Manène”, sua irmã se apresenta “sob uma forma que fazia parte do inconsciente”, pois é “uma ‘ela’ que, como no... título deste ano, s’aile à mourre, tomando-se como portadora de saber”. Nesse mesmo contexto, Lacan diz: “ele ou ela, é a terceira pessoa, é o Outro, tal como o defino, é o inconsciente”. Em outros termos, a frase de Madeleine reverbera o que ela, tal qual muitas crianças, escuta como proveniente do Outro e referente a um “si” que ainda não tem como dizer “eu” porque não se alienou propriamente à imagem que o Outro também lhe sustenta.
Porém, interpolada a essa passagem de sua vida pessoal e um pouco antes de abordar o passe, Lacan (1976-1977b) também vai dizer o seguinte: “o inconsciente é o que faz mudar justamente alguma coisa, o que reduz o que chamo de sinthoma”. Assim, se na primeira aula do Seminário 24, Lacan afirmava que, com o título proposto, visava “a introduzir alguma coisa que fosse mais longe que o inconsciente”, me parece possível sustentar que uma análise, ao savoir faire com o inconsciente, deve reverter a redução que este imprimiu ao sinthoma expandindo-o e permitindo que o falasser – tomado, como sujeito, pelas identificações que lhe foram conferidas pelo Outro – viva a pulsão identificando-se ao que ele “conhece melhor” que o Outro que o inconsciente é, ou seja, identificando-se ao que pode até lhe fazer as vezes de “parceiro sexual”, ao “sinthoma”.

 

Solução

Valendo-me do que apresentei até aqui, proponho como tradução do título do Seminário 24 o seguinte: O malsabido de um fora se joga no amor.


Prefiro verter l’insu que sait em “o malsabido”, porque essa frase em francês se refere ao que se passa em uma bévue, ou seja, inconscientemente: não se trata de um “não saber”, nem de um “insabido”, mas de um “saber” que se expressa como “mancada”, “tropeço”, “falha”, “deslize”. Aliás, o prefixo Un-, em alemão – presente no Unbewusst evocado por Lacan (1976-1977a) já na primeira lição do Seminário 24 – não designa propriamente uma “privação” como o latino “in-” (que também tem o demérito de nos evocar algo da ordem de uma “interioridade” bastante criticada tanto por Lacan quanto por Freud). Por exemplo, a palavra alemã Kraut pode ser traduzida por “erva” e Unkraut não é ausência de erva, mas, sim, “erva daninha”. Nesse contexto, “o malsabido” me parece pertinente para traduzir l’insu que sait, pois se trata de um saber que se apresenta sem se tomar – exceto quando nos lançamos na experiência analítica – como um saber. Em outros termos, apenas em uma análise, que é um jogo, como a mourre, onde o amor ressoa, é que esse “malsabido” se efetiva, não sem satisfação (ou seja, gozo), como “saber”.
Por sua vez, preferi traduzir une bévue por “um fora”, demarcando – em uma mesma palavra, bastante coloquial em português – o equívoco de tomar por exterior o que se apresenta inconscientemente, os sinônimos dessa palavra (“mancada”, “deslize”, “gafe”, “lapso”, “tropeço”), e ainda o que se apresenta quando algo na vida amorosa fracassa.


Para a segunda frase do título, ...s’aile à moure, não me ative ao pronome pessoal elle (“ela”) escutado na conjugação francesa do verbo aller (ir) que lhe é correspondente porque o próprio Lacan, como vimos acima, ressalta que se trata, “ele ou ela”, da “terceira pessoa”, e é essa referência ao que vem do Outro que importa. Ainda destaco que em s´aile se pode escutar também, em francês, aile, ou seja, “asa”. Este último termo aparece no plural, no parágrafo de “Homenagem feita à Marguerite Duras...” evocado acima e, na priapéias grega e latina 3 das quais Lacan (1962) me parece fazer uso pelo menos desde “Kant com Sade”, “asa” é também uma referência ao falo.


Ora, o jogo da mourre e seu equivalente brasileiro, a “porrinha”, não deixam aludir ao falo que, a meu ver, também está presente no ato mesmo de acertar, ou não, o número de dedos (ou palitos) mostrados pelos jogadores. No caso da “porrinha”, além de ser uma brincadeira tradicionalmente realizada entre homens, a referência ao falo também se escuta pela ressonância entre o nome desse jogo e o fluido que sai do órgão sexual masculino. Valendo-me de como a experiência analítica implica a transferência, ou seja o amor, para lidar com o que se impõe como “fora”, mas também do modo como o falo perpassa a mourre, a “porrinha”, o próprio jogo amoroso e me servindo ainda da ressonância de mourre em amour (“amor”) e em mur (“muro”), optei por traduzir s’aile à mourre como “se joga no amor”.


Cheguei, assim, à tradução do título do Seminário 24:

 

O malsabido de um fora se joga no amor.

Sérgio Laia*

REFERÊNCIAS:

A DIRETORIA NA REDE. Boletim da Escola Brasileira de Psicanálise, dezembro de 2013. Disponível em: http://www.ebp.org.br/dr/ebp_deb/debates007.asp (Acesso em: 19 de fevereiro de 2014).

APOLINAIRE, G. Álcoois (1913). Tradução de Mário Laranjeira. São Paulo: Hedra, 2013, p. 195 (edição bilíngue).

APOLLINAIRE, G. Se douloir. Disponível em: http://doudou.gheerbrant.com/?p=6193 (Acesso em: 20 de fevereiro de 2014).

LACAN, J. O tempo lógico e a asserção antecipada: um novo sofisma (1945). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 197-213.

LACAN, J. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1954). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 289.

LACAN, J. Kant com Sade (1954). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 784.

LACAN, J. O seminário. Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 1988, p. 255.

LACAN, J. Homenagem à Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein (1965). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 198-199.

LACAN, J. O seminário. Livro 19: ...ou pior (1971-1972). Rio de Janeiro: Zahar, 1988, p. 17-18.

LACAN, J. O seminário. Livro 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p. 105-120.

LACAN, J. Le séminaire 76-77: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre (1976-1977a). Ornicar? Bulletin périodique du Champ freudien, n. 12/13 (spécial), leçon du 16 novembre 1976.

 LACAN, J. Le séminaire 76-77: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre (1976-1977b). Leçon du 15 février 1977 (inédit).

LE GRAND ROBERT DE LA LANGUE FRANÇAISE (1984-2001) [version electronique]. Dictionnaire apphabétique et analogique de la langue française de Paul Robert. Bureau Van Dijk, 2ème édition (dirigée par Alain Rey).

OLIVA NETO, J. A. Falo no jardim. Priapéia grega, priapéia latina. Campinas: Ateliê Editorial e Editora UNICAMP, 2006.

 

 

Esses comentários podem ser lidos em:
http://www.ebp.org.br/dr/ebp_deb/debates007.asp (Acesso no dia 19 de fevereiro de 2014).

Esse poema, intitulado Se douloir (“Doer-se”), pode ser acessado, em francês, na internet: http://doudou.gheerbrant.com/?p=6193

Recomendo, para as Priapéias Grega e Latina, as traduções presentes no excelente estudo de Oliva Neto (2006).

* Analista Membro da Escola (AME), pela Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), Membro da Associação Mundial de Psicanálise (AMP); Professor do Curso de Psicologia da Universidade FUMEC (Fundação Mineira de Educação e Cultura); Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, nível 2) e do ProPIC-FUMEC (Programa de Pesquisa e Iniciação Científica da Universidade FUMEC); Doutor em Letras pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE-UFMG) e Mestre em Filosofia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH) da UFMG.