{"id":3894,"date":"2023-08-16T16:49:05","date_gmt":"2023-08-16T19:49:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/?p=3894"},"modified":"2023-08-17T14:46:07","modified_gmt":"2023-08-17T17:46:07","slug":"o-analista-deve-devolver-o-sujeito-a-sua-loucura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2023\/08\/16\/o-analista-deve-devolver-o-sujeito-a-sua-loucura\/","title":{"rendered":"O analista deve devolver o sujeito \u00e0 sua loucura."},"content":{"rendered":"<h6>Bernardino Horne (AME da EBP\/AMP)<\/h6>\n<div id=\"attachment_3887\" style=\"width: 482px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3887\" class=\"wp-image-3887 size-full\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/correio_Express_26_003.jpg\" alt=\"Ricardo Becker \u2013 Eu \u2013 ano 2015\" width=\"472\" height=\"465\" srcset=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/correio_Express_26_003.jpg 472w, https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/correio_Express_26_003-300x296.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 472px) 100vw, 472px\" \/><p id=\"caption-attachment-3887\" class=\"wp-caption-text\">Ricardo Becker \u2013 Eu \u2013 ano 2015<\/p><\/div>\n<p>Extra\u00edda dos <em>Outros escritos<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, a ideia expressa no t\u00edtulo deste texto antecipa as palavras proferidas por Lacan no <em>Semin\u00e1rio 19<\/em>, quando ele diz: \u201cH\u00e1 Um!!!\u201d.<\/p>\n<p>Por causa desse giro de 180 graus do Outro ao Um, tudo muda, e Lacan nos d\u00e1 um conselho sobre o que deve fazer um analista se quiser s\u00ea-lo de verdade. A frase \u00e9: \u201c(&#8230;) o primeiro passo da experi\u00eancia anal\u00edtica \u00e9 introduzir nela o Um, como o analista que se \u00e9\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Isso significa que, no pr\u00f3prio matema da transfer\u00eancia, o S1 inaugural da primeira entrevista, o significante da transfer\u00eancia, j\u00e1 traz consigo as marcas do gozo Um. \u00c9 que em todo S1 h\u00e1 algo do Um Uniano.<\/p>\n<p>Ao fundar-se o campo Uniano, cria-se uma nova presen\u00e7a do significante e do corpo. O significante Uniano \u00e9 um puro existir como gozo sem significante, ainda que produto de uma opera\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que permite existir sem ser. Conclui Lacan: \u201cO que s\u00f3 existe ao n\u00e3o ser, \u00e9 exatamente disso que se trata, e foi o que eu quis inaugurar hoje no cap\u00edtulo geral do Uniano\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Ele explicita a mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o do <em>Semin\u00e1rio 17<\/em>, partindo do significante Un\u00e1rio para diferenci\u00e1-lo do Uniano, dizendo que Un\u00e1rio \u00e9 do Outro, \u00e9 de Freud, e que Uniano \u00e9 do Um, \u00e9 de Lacan. Esclarece-nos que, em franc\u00eas, Uniano \u00e9 o anagrama de t\u00e9dio, entediante. O real \u00e9 sempre o mesmo. O t\u00e9dio do Um \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o do gozo masoquista original. Repete-se no corpo, que n\u00e3o \u00e9 corpo, \u00e9 puro gozo. Em \u201cTiqu\u00ea e Aut\u00f4maton\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><em><strong>[4]<\/strong><\/em><\/a>, Lacan afirma que a an\u00e1lise \u00e9 uma pr\u00e1xis orientada ao cora\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia, que \u00e9 o n\u00facleo do real.<\/p>\n<p>Lacan funda o campo do Um como resposta da psican\u00e1lise pura \u00e0s quest\u00f5es contempor\u00e2neas. Trata-se de um longo, novo e poderoso passo na psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Frente \u00e0s crises, na nossa hist\u00f3ria, houve sempre um retorno aos fundamentos da psican\u00e1lise, mas, sempre tamb\u00e9m, acrescentando um passo que vem do novo.<\/p>\n<p>Quando Lacan enfrenta a degrada\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise pelos herdeiros de Freud e prop\u00f5e um retorno aos fundamentos freudianos, ele d\u00e1, ao mesmo tempo, um grande passo, ao propor essa leitura desde os tr\u00eas registros fundamentais da experi\u00eancia humana: Simb\u00f3lico, que nesse per\u00edodo ter\u00e1 primazia, Imagin\u00e1rio e Real (SIR).<\/p>\n<p>Em <em>Piezas sueltas<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><strong>[5]<\/strong><\/a><\/em>, Miller escreve um matema: J # JS. H\u00e1 gozo sem significante e h\u00e1 gozo com significante. Acompanho sua leitura: h\u00e1 duas escrituras<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, sendo que uma delas ocorre como a chuva que cai de uma nuvem, deixando marcas que facilitam, diz Freud, ou que fixam, diz Lacan. Mas h\u00e1 uma primeira escrita, que \u00e9 constituinte, que ocorre no real, no campo do Um, que produz e expulsa as marcas desde dentro. Trata-se do campo Uniano, anterior a lal\u00edngua, na qual tamb\u00e9m reina o gozo, embora, nela, seja gozo com significante. O Um e lal\u00edngua se enla\u00e7am n\u00e3o pelo significante, mas pelo alinhamento dos gozos.<\/p>\n<p>Eric Laurent<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> deixou muito claro que as marcas n\u00e3o s\u00e3o permanentes, como a trilha da lava ou da chuva. S\u00e3o fugazes, mais como um orgasmo que marca pelo fato de criar a causa e o desejo de voltar, de repetir a causa. Repete sem descanso, mas n\u00e3o quer dizer nada a ningu\u00e9m. Quando chega a n\u00f3s, \u00e9 disfar\u00e7ado com os mais variados semblantes, o que nos obriga j\u00e1 n\u00e3o a interpretar a escrita do tamanho da selva amaz\u00f4nica, mas a ler a raiz, a escrita borromeana. A posi\u00e7\u00e3o de gozo do sujeito se escreve sem significante, borromeanamente, e \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o no real.<\/p>\n<p>Bem, mas o que tem isso a ver com querer fazer parte, hoje, de uma Escola de psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>Para podermos enfrentar os problemas que o mundo nos prop\u00f5e atualmente, temos que radicalizar e atualizar nossos fundamentos, acrescentar um novo passo.<\/p>\n<p><strong>Passos e Problemas<\/strong><\/p>\n<p>Os trabalhos sistem\u00e1ticos, com Miller, na Fran\u00e7a, dos institutos que propuseram as psicoses ordin\u00e1rias, os sintomas contempor\u00e2neos, as compuls\u00f5es, a anorexia, o \u201canalista sem analisante\u201d, a suspens\u00e3o da neutralidade, dentre outras, foram uma resposta consistente aos primeiros sinais de mudan\u00e7as no mundo.<\/p>\n<p>Tomo um fen\u00f4meno que tem muitas conex\u00f5es: a acelera\u00e7\u00e3o temporal que hoje predomina em nosso mundo<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Dizemos que o virtual e o discurso do capitalismo nos empurram ao bidimensional. N\u00e3o s\u00e3o eles os culpados; a puls\u00e3o esc\u00f3pica governa. Inventa cada vez mais coisas para se satisfazer. Vasculhamos os mist\u00e9rios do Universo e os detalhes micro de nosso corpo. Tempos atr\u00e1s, isso nos levou \u00e0 b\u00edpede esta\u00e7\u00e3o, em luta contra a satisfa\u00e7\u00e3o do olfato, e, no medievo, aos \u00f3culos. Hoje aparecem, a cada dia, formas mais velozes. \u00c9 que o esc\u00f3pico se movimenta \u00e0 velocidade da luz. Satisfaz-se no ato de olhar.<\/p>\n<p>H\u00e1 outras puls\u00f5es em jogo, e esses foram os novos passos que permitiram uma primeira resposta: a pol\u00edtica da juventude.<\/p>\n<p>Um perigo da urg\u00eancia \u00e9 sair do singular, ou seja, ir pela via de muitos despreparados, por uma extens\u00e3o superficial, sendo que a extens\u00e3o da psican\u00e1lise \u00e9 a extens\u00e3o da intens\u00e3o.<\/p>\n<p>O discurso do capitalismo nos ataca no cora\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica. Por causa da sobreviv\u00eancia, muitos analistas nunca tiveram a experi\u00eancia de tr\u00eas sess\u00f5es por semana. Esse discurso vai contra poder dizer besteiras, contra o instante de ver.<\/p>\n<p>O discurso universit\u00e1rio \u00e9, hoje, muito poderoso, e somente os que est\u00e3o em an\u00e1lise de verdade se salvam de serem absorvidos totalmente. Seria interessante que alguns colegas, que possuem t\u00edtulos valiosos da universidade, pudessem ser Mestres sem ter que ser psicanalistas cl\u00ednicos. Tamb\u00e9m penso que, na quest\u00e3o do passe, devemos fazer como estamos fazendo: voltar \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o de Lacan e fechar o passe a uma possibilidade. Por\u00e9m, daria uma segunda chance de passe, e n\u00e3o apenas uma. \u00c0s vezes, a primeira cumpre a fun\u00e7\u00e3o de instante de ver.<\/p>\n<p>Voltando ao in\u00edcio: \u201cPretendemos mostrar como a impot\u00eancia em sustentar autenticamente uma pr\u00e1xis reduz-se, como \u00e9 comum na hist\u00f3ria dos homens, ao exerc\u00edcio de um poder\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Lacan coloca em jogo a quest\u00e3o do poder na experi\u00eancia anal\u00edtica. Desde sempre, se alinha com Freud<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>, pela <em>via di levare<\/em>, que cabe \u00e0 psican\u00e1lise, e n\u00e3o pela <em>via di porre<\/em>.<\/p>\n<p>O desejo do analista \u00e9 o contr\u00e1rio de toda vontade\u00a0de\u00a0poder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. \u201cA psican\u00e1lise. Raz\u00e3o de um fracasso\u201d. In: <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 347.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lacan, J. (1971-1972). <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: &#8230;ou pior<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 123.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Idem, p. 131.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan, J. (1964). <em>O Semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 55.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Miller, J.-A. (2004-2005). <em>Piezas sueltas.<\/em> Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013, p. 113.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Miller, J.-A. \u201cO real \u00e9 sem lei\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Revista brasileira internacional de psican\u00e1lise.<\/em> S\u00e3o Paulo, n. 34, out. 2002, pp. 7-16.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Laurent, E. \u201cPor que o Um?\u201d. In: Gorski, G. G.; Fuentes, M. J. (org.). <em>Leituras do Semin\u00e1rio &#8230;ou pior de Jacques Lacan<\/em>. Salvador: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2015.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Garcia, C. \u201cAcelera\u00e7\u00e3o temporal\u201d. In: <em>Scilicet: A ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI. Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise.<\/em> Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Lacan, J. \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 592.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Freud, S. (1905) \u201cPsicoterapia\u201d. In: <em>Obras completas, volume 6: tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade, an\u00e1lise fragment\u00e1ria de uma histeria (\u201cO caso Dora\u201d) e outros textos (1901-1905)<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2016.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bernardino Horne (AME da EBP\/AMP) Extra\u00edda dos Outros escritos[1], a ideia expressa no t\u00edtulo deste texto antecipa as palavras proferidas por Lacan no Semin\u00e1rio 19, quando ele diz: \u201cH\u00e1 Um!!!\u201d. 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