{"id":3620,"date":"2021-07-29T14:29:56","date_gmt":"2021-07-29T17:29:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/?p=3620"},"modified":"2021-07-29T14:36:32","modified_gmt":"2021-07-29T17:36:32","slug":"y-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2021\/07\/29\/y-que\/","title":{"rendered":"\u00bfY qu\u00e9?"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-3625 size-medium\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/002-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/002-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/002-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/002.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>L\u00edngua materna e hi\u00e2ncia<\/strong><\/p>\n<p>Esta express\u00e3o do espanhol sempre me pareceu dura, uma esp\u00e9cie de ultimato a calar-se. Depois de \u201c\u00bfY qu\u00e9?\u201d n\u00e3o cabia nenhuma palavra. Era consentir ao sil\u00eancio e \u00e0 submiss\u00e3o. O acento agudo seguido da \u201cinterroga\u00e7\u00e3o afirmativa\u201d evocava o sil\u00eancio da resposta, autoritariamente. Embora no portugu\u00eas possamos ter uma tradu\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com o: \u201cE da\u00ed?\u201d, essa express\u00e3o porta uma despreocupa\u00e7\u00e3o, mesmo um humor, diferente do desafio e corte que cont\u00eam a express\u00e3o em espanhol. Desnecess\u00e1rio dizer que tais afirma\u00e7\u00f5es a respeito dessas express\u00f5es n\u00e3o portam nenhum rigor lingu\u00edstico, mas marcas de gozo via letra, ou seja, minha leitura delas.<\/p>\n<p>Por outro lado, uma flexibiliza\u00e7\u00e3o subjetiva poss\u00edvel permite ouvir na pergunta, \u201c\u00bfY qu\u00e9?\u201d, a presen\u00e7a de certa curiosidade ou verdadeira indaga\u00e7\u00e3o: \u201cfrente a isso o qu\u00ea? o que voc\u00ea pensa? o que te ocorre? o que voc\u00ea acha?\u201d. Ainda que o tom de desafio se mantenha, abre-se uma hi\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Recentemente em uma discuss\u00e3o na Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, apontava que a psican\u00e1lise produz hi\u00e2ncias&#8230; al\u00e9m do fato dela pr\u00f3pria ter surgido de uma hi\u00e2ncia no saber cient\u00edfico da \u00e9poca, bem como da raz\u00e3o.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Afirmava ent\u00e3o, que a psican\u00e1lise produz hi\u00e2ncias por operar a partir da falha estrutural do saber, o que inclui o incur\u00e1vel e poder recolher os efeitos da conting\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Desejo de resposta e saber<\/strong><\/p>\n<p>Desse modo, a falha no saber e a presen\u00e7a do incur\u00e1vel delimitam uma orienta\u00e7\u00e3o, destacando o fato de uma an\u00e1lise n\u00e3o se resolver em termos de saber, mas em termos de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ouvi de uma colega<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, uma express\u00e3o precisa que me marcou: \u201couvir algu\u00e9m sem ter imediatamente um <em>desejo de resposta<\/em>\u201d, o que \u00e9 bem diferente de silenciar uma resposta, ou submeter-se ao imperativo de calar-se. \u00c9 que, ao inv\u00e9s de um desejo de resposta imediato, poder experimentar um querer ouvir mais um pouco&#8230; \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o de abertura coerente com a \u00e9tica anal\u00edtica, na contram\u00e3o do discurso do mestre. Justamente, prezar pela hi\u00e2ncia, ou produzi-la, onde ela est\u00e1 saturada pelo imperativo.<\/p>\n<p><strong>Hi\u00e2ncia e abismo<\/strong><\/p>\n<p>Afirmar que a psican\u00e1lise sustenta ou produz uma hi\u00e2ncia, significa n\u00e3o a preencher imediatamente com seu saber, evitando a repeti\u00e7\u00e3o de uma resposta protocolar ou visando n\u00e3o estimular a resposta do saber advindo do sentido enquanto repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, penso ser interessante a observa\u00e7\u00e3o de que um fen\u00f4meno tido como novo ou in\u00e9dito, seja no \u00e2mbito da experiencia anal\u00edtica, ou no \u00e2mbito social, discursivo, pode nos dar a sensa\u00e7\u00e3o de estar frente a um abismo. \u2018Abismados\u2019.<\/p>\n<p>Como se fosse uma outra esp\u00e9cie de intervalo que provoca perplexidade, diferente da delicadeza em produzir uma hi\u00e2ncia ou suport\u00e1-la ao ouvir e conter o <em>desejo de resposta<\/em>. Frente a um abismo, esse desejo de resposta pode ser o primeiro \u201cimpulso ao dizer\u201d, colocando o saber em um lugar que fecha a escuta.<\/p>\n<p>Conter tal desejo, como dizia minha colega, possibilita o surgimento de uma hi\u00e2ncia, apostando em instaurar um litoral entre dois discursos, por exemplo.<\/p>\n<p>Em ZADIG<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, ouviu-se o ressoar do <em>novo<\/em>, de diferentes formas. O trabalho que segue visa n\u00e3o \u201cse abismar\u201d e suportar o lugar litoral, que se orienta pela escuta e n\u00e3o pela resposta. Eric Laurent<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> em seu texto intitulado \u201cObservaciones sobre tr\u00eas encuentros entre el feminismo y la no relaci\u00f3n sexual\u201d traz o termo <em>unarismo lacaniano<\/em>, n\u00e3o como um significante-resposta \u00e0s cr\u00edticas \u00e0 psican\u00e1lise, a respeito de um pretenso binarismo. Mas, reafirma sua radicalidade ao se ocupar da estranheza que cada um experimenta em rela\u00e7\u00e3o ao seu corpo, e promover um encontro no qual, a partir do esfor\u00e7o de dizer, \u00e9 poss\u00edvel contornar algo do indiz\u00edvel.<\/p>\n<p>Claro est\u00e1 que a \u00e9poca n\u00e3o se restringe \u00e0 diferen\u00e7a relativa entre dois significantes, l\u00f3gica bin\u00e1ria da linguagem que sustenta o registro simb\u00f3lico. As defini\u00e7\u00f5es do que \u00e9 masculino e feminino s\u00e3o revistas e, junto disso, uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no contexto atual se afirma<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica da psican\u00e1lise se sustenta pela possibilidade de um dizer a cada vez, que porte o singular de cada parl\u00eatre, para al\u00e9m das identifica\u00e7\u00f5es. Se \u00e9 poss\u00edvel um ponto de ancoragem, ele tem rela\u00e7\u00e3o com o sinthome, e a respeito disso cada parl\u00eatre nos ensina.<\/p>\n<p>Relembro da viagem \u00e0 Translacania<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>&#8230; um turbilh\u00e3o de palavras, cenas, uma viagem irreplic\u00e1vel&#8230; assim \u00e9 a cada vez, quando cada um se confronta com esse real do sexo que invade o corpo, quando tenta tomar o corpo para si e fazer uso dele. Um analista aposta que a cada um cabe um destino, e deste, s\u00f3 se sabe ao final.<\/p>\n<p>Estamos no mar da inventividade de singularidades, da inventividade singular de cada corpo. Para retomar o t\u00edtulo deste texto, ao ouvir \u201c\u00bfY qu\u00e9?\u201d, cai bem um \u201cDime t\u00fa.\u201d<\/p>\n<h6><em>Por Paola Salinas EBP\/AMP<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Debate do Lan\u00e7amento das XC jornadas da EBP-SP. Psican\u00e1lise em ato. Atividade ocorrida em 30\/06\/21 pela plataforma Zoom.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cunha, C. L. F. Argumento das X Jornadas da EBP-SP 2021. Psican\u00e1lise em Ato. Dispon\u00edvel em: https:\/\/ebp.org.br\/sp\/jornadas\/x-jornadas-psicanalise-em-ato\/argumento-x-jornadas\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Agrade\u00e7o a interlocu\u00e7\u00e3o de Emelice Prado Bagnola.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> F\u00f3rum ZADIG. Trans: Leituras. Evento da La movida Zadig Doces &amp; B\u00e1rbaros, em 1 de julho de 2021, via Zoom.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Laurent, \u00c8. Observaciones sobre tr\u00eas encuentros entre el feminismo y la no relaci\u00f3n sexual. In: El psicoan\u00e1lisis. Revista de la Escuela Lacaniana de Psicoan\u00e1lisis. n\u00b0 35, pg. 1.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ver a produ\u00e7\u00e3o de Judith Butler, Gayle Rubin, Monique Witting, Eve Ksosfsku Sedwick, Paul B. Preciado, Fabrice Boulez, Tim Deam, dentre outros.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Perrier, Fran\u00e7ois. Viagens extraordin\u00e1rias pela Translacania. Papirus, Campinas, 1987.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00edngua materna e hi\u00e2ncia Esta express\u00e3o do espanhol sempre me pareceu dura, uma esp\u00e9cie de ultimato a calar-se. Depois de \u201c\u00bfY qu\u00e9?\u201d n\u00e3o cabia nenhuma palavra. Era consentir ao sil\u00eancio e \u00e0 submiss\u00e3o. O acento agudo seguido da \u201cinterroga\u00e7\u00e3o afirmativa\u201d evocava o sil\u00eancio da resposta, autoritariamente. 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