{"id":3361,"date":"2020-06-30T08:55:48","date_gmt":"2020-06-30T11:55:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/?p=3361"},"modified":"2020-08-17T16:37:00","modified_gmt":"2020-08-17T19:37:00","slug":"o-sentido-e-os-seus-dejetos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2020\/06\/30\/o-sentido-e-os-seus-dejetos\/","title":{"rendered":"O sentido e os seus dejetos*"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_3364\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3364\" class=\"wp-image-3364\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/0006739606-819x1024.jpg\" alt=\"Oleg Gabisov (Karman Verdi), &quot;There are so many ghosts at my spot&quot;\" width=\"200\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/0006739606-819x1024.jpg 819w, https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/0006739606-240x300.jpg 240w, https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/0006739606-768x960.jpg 768w, https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/0006739606.jpg 912w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><p id=\"caption-attachment-3364\" class=\"wp-caption-text\">Oleg Gabisov (Karman Verdi), &#8220;There are so many ghosts at my spot&#8221;<\/p><\/div>\n<h6><em><strong>Por Romildo do R\u00eago Barros<\/strong><\/em><\/h6>\n<blockquote><p><em>\u201c\u2026el fantasma de Amazon es estar seguro que la falta ser\u00e1 saturada por un objeto del mercado global, que tambi\u00e9n ser\u00e1 accesible a cualquier hora como el saber en internet.\u201d<\/em><\/p>\n<h6><em>(\u00c9ric Laurent, Gozar de la internet)<\/em><\/h6>\n<\/blockquote>\n<p>Talvez a express\u00e3o mais usual para definir a fun\u00e7\u00e3o do analista, entre os que seguem o ensino de Lacan, seja a de objeto, ou de \u201csemblante de objeto\u201d. O analista faz semblante de objeto. Cada um de n\u00f3s costuma dizer que o analista n\u00e3o opera como sujeito.<\/p>\n<p>Ou seja, o analista \u00e9 aquele cuja presen\u00e7a \u2013 sua presen\u00e7a, n\u00e3o seu lugar na sociedade \u2013 torna poss\u00edvel que surja em cena, ou na cultura, o objeto-dejeto, de certa forma transformado pela vestimenta do semblante. Penso que essa fun\u00e7\u00e3o de semblante atinge, ali\u00e1s, n\u00e3o somente o objeto, mas tamb\u00e9m outras fun\u00e7\u00f5es que se manifestam em uma an\u00e1lise, como de Outro, ou mesmo de sujeito.<\/p>\n<p>Existe, como se pode ver, certa tens\u00e3o na express\u00e3o, entre o objeto \u2013 o objeto desnudo, digamos assim, mesmo que isto seja hipot\u00e9tico \u2013, e seu car\u00e1ter de semblante. Esta tens\u00e3o pode, naturalmente, se manifestar com uma colora\u00e7\u00e3o afetiva, como nos mostrou nossa colega de Buenos Aires, Silvia Salman, h\u00e1 alguns anos, no seu testemunho de Analista da Escola:<\/p>\n<p>Silvia defrontou-se, j\u00e1 para o final da sua an\u00e1lise, com um objeto, representado pelo seu analista, que parece corresponder a esse s\u00fabito desnudamento: ela lhe deu o nome de \u201cobjeto estranho\u201d, denomina\u00e7\u00e3o oportuna, meio <em>\u00e0 la<\/em> Hofmann, que insere esse objeto na categoria freudiana do <em>Unheimliche<\/em>, traduzido em portugu\u00eas por <em>infamiliar<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 um objeto que surge, n\u00e3o de uma acumula\u00e7\u00e3o progressiva de experi\u00eancias \u2013 por exemplo, no transcurso da an\u00e1lise \u2013, mas de repente, como na situa\u00e7\u00e3o contada no texto freudiano, do senhor que irrita Freud ao aparecer na cabine do trem onde Freud se encontrava, e que, ap\u00f3s alguns segundos, \u00e9 reconhecido como sendo ele pr\u00f3prio, Freud, cuja imagem lhe fora devolvida por um espelho<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Lacan comenta, no Semin\u00e1rio <em>O Desejo e sua Interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>, que o fen\u00f4meno do <em>Unheimliche<\/em> n\u00e3o consiste na simples irrup\u00e7\u00e3o do inconsciente, mas prov\u00e9m de um \u201cdesequil\u00edbrio\u201d, ou uma \u201cdecomposi\u00e7\u00e3o\u201d da fantasia. Esta quest\u00e3o mereceria uma ampla discuss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p>A l\u00edngua, assim como as experi\u00eancias cient\u00edficas, as rela\u00e7\u00f5es sociais, ou mesmo uma escolha qualquer feita por algu\u00e9m, t\u00eam algo em comum: todas produzem dejetos, entendidos aqui como seus res\u00edduos finais, depois de cumpridos seus processos de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando perguntamos, portanto, de onde vem tal voc\u00e1bulo, e citamos tal termo grego ou latino, talvez tenhamos a impress\u00e3o de que se trata de um processo direto, como uma sucess\u00e3o.<\/p>\n<p>Na verdade, as palavras se formam ao longo de uma hist\u00f3ria tortuosa, cheia de encontros surpreendentes e de mudan\u00e7as nos seus significados, o que faz com que nunca possamos ter, na pr\u00e1tica, a certeza absoluta de que tal palavra da nossa l\u00edngua se origina realmente ou completamente de tal voc\u00e1bulo, por mais que se pare\u00e7am formalmente. Ou ent\u00e3o, uma palavra antiga, primitiva, pode ter dado origem a um grande n\u00famero de outras palavras que, aparentemente, n\u00e3o t\u00eam nenhuma rela\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica entre elas.<\/p>\n<p>As palavras, assim como a pr\u00f3pria l\u00edngua no seu conjunto, est\u00e3o sempre em movimento ao longo do tempo, e v\u00e3o deixando restos que n\u00e3o s\u00e3o aproveitados explicitamente na produ\u00e7\u00e3o do sentido. Ou at\u00e9 mesmo conduzem para um sentido oposto ao original.<\/p>\n<p>Na minha experi\u00eancia pessoal, lembro que na primeira leitura que fiz do <em>Unheimliche<\/em> freudiano, o que mais me impressionou foi o fato de duas palavras opostas, <em>heimliche<\/em> e <em>unheimliche<\/em>, que em princ\u00edpio deveriam excluir-se, pudessem em alguns casos significar a mesma coisa.<\/p>\n<p>O sentido, portanto, n\u00e3o recobre inteiramente a palavra. A rigor, ele \u00e9 apenas um dos seus aspectos. Se recobrisse, n\u00e3o existiriam, para citar s\u00f3 dois exemplos, estas importantes produ\u00e7\u00f5es da l\u00edngua: a <em>poesia<\/em> e a <em>ironia<\/em>, que s\u00e3o maneiras de fazer vacilar a estreiteza do sentido. Tampouco haveria o di\u00e1logo psicanal\u00edtico, que se d\u00e1 em um espa\u00e7o no qual se confrontam em perman\u00eancia o sentido e os seus dejetos.<\/p>\n<p>Em seu texto que chamou justamente de <em>A salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos<\/em>, Jacques-Alain Miller nos explica:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00a0 \u201c&#8230;<\/em><em>a descoberta freudiana (&#8230;) foi, como se sabe, primeiramente, a desses dejetos da vida ps\u00edquica, os dejetos do mental que s\u00e3o o sonho, o lapso, o ato falho e mais al\u00e9m, o sintoma.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>E, mais para o final do artigo, Miller define o analista de uma forma que me parece definitiva:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cO que os salva <\/em>(da debilidade, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 paranoia)<em> \u00e9 ter tido \u00eaxito em fazer de sua posi\u00e7\u00e3o de dejeto o princ\u00edpio de um novo discurso.\u201d <\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Esse novo discurso, o discurso do analista, \u00e9 a maneira de tornar poss\u00edvel um la\u00e7o social que inclua o dejeto. Se Miller diz que o analista teve \u00eaxito nessa opera\u00e7\u00e3o de \u201c<em>fazer de sua posi\u00e7\u00e3o de dejeto o princ\u00edpio de um novo discurso.\u201d<\/em>, \u00e9 porque outros, sabendo ou n\u00e3o, fracassaram. Quer dizer, em outros momentos da Hist\u00f3ria, ou mesmo no momento atual, houve e h\u00e1 irrup\u00e7\u00f5es do objeto como dejeto da fala. O que h\u00e1 de particular \u2013 e sem d\u00favida in\u00e9dito \u2013 no trabalho do analista, \u00e9 ter inclu\u00eddo essa irrup\u00e7\u00e3o em um la\u00e7o social. Esta \u00e9 a grande novidade trazida pela psican\u00e1lise, acima do <em>s<\/em>eu car\u00e1ter terap\u00eautico.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o dejeto, se por um lado resiste ao sentido, passa a ser, por outro, um componente necess\u00e1rio ao discurso.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">*<\/a> Trabalho para a reuni\u00e3o preparat\u00f3ria do Encontro Brasileiro em 13\/05\/2020, em mesa (<em>online<\/em>) com Marcus Andr\u00e9 Vieira.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[1]<\/a> Freud, S.: \u201cO estranho\u201d, <em>Obras Completas<\/em>, Vol. XVII, p. 309, Nota 1.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Romildo do R\u00eago Barros \u201c\u2026el fantasma de Amazon es estar seguro que la falta ser\u00e1 saturada por un objeto del mercado global, que tambi\u00e9n ser\u00e1 accesible a cualquier hora como el saber en internet.\u201d (\u00c9ric Laurent, Gozar de la internet) Talvez a express\u00e3o mais usual para definir a fun\u00e7\u00e3o do analista, entre os que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[93],"tags":[],"class_list":["post-3361","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-correio-express-no017","category-93","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3361","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3361"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3361\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3403,"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3361\/revisions\/3403"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}