{"id":3101,"date":"2020-03-28T07:42:11","date_gmt":"2020-03-28T10:42:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/?p=3101"},"modified":"2020-08-17T16:38:20","modified_gmt":"2020-08-17T19:38:20","slug":"o-avesso-da-biopolitica-e-o-virus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2020\/03\/28\/o-avesso-da-biopolitica-e-o-virus\/","title":{"rendered":"O avesso da biopol\u00edtica e o v\u00edrus"},"content":{"rendered":"<h6><em><strong>Por J\u00e9sus Santiago<\/strong><\/em><\/h6>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>A civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 mortal<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>\u00c9 preciso dar-se conta da concep\u00e7\u00e3o l\u00facida e realista a partir da qual \u00c9ric Laurent aplica a tese lacaniana da <em>inexist\u00eancia do Outro<\/em> a este momento grave que a civiliza\u00e7\u00e3o experimenta em virtude da pandemia do novo coronav\u00edrus.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> O uso desse aforisma percuciente torna poss\u00edvel interpretar o quanto a a\u00e7\u00e3o corrosiva da puls\u00e3o de morte na \u00e9poca da ci\u00eancia se apresenta sob o modo de impasses quase insol\u00faveis. Antes mesmo de Freud ter fornecido as grandes coordenadas do problema da necessidade \u201cda ren\u00fancia da satisfa\u00e7\u00e3o das fortes puls\u00f5es sexuais e destrutivas\u201d para a sobreviv\u00eancia do la\u00e7o social, em seu <em>Mal-estar na cultura<\/em>,<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Paul Val\u00e9ry j\u00e1 havia prenunciado que a civiliza\u00e7\u00e3o tem a mesma fragilidade de uma vida: \u201cN\u00f3s, civiliza\u00e7\u00f5es, agora sabemos que somos mortais\u201d,<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> proclamava ele, no dia seguinte \u00e0 Primeira Grande Guerra. Como se sabe, os imp\u00e9rios europeus se lan\u00e7aram em uma disputa b\u00e9lica uns contra os outros, a ponto de quase se destru\u00edrem. Essa hist\u00f3ria apenas confirma a constata\u00e7\u00e3o esclarecedora de que o Ocidente iria conhecer o mesmo destino tr\u00e1gico das grandes civiliza\u00e7\u00f5es que lhe haviam precedido, ou seja, as civiliza\u00e7\u00f5es romana, babil\u00f4nica, eg\u00edpcia, grega, persa, maia, asteca e muitas outras que acreditavam ser invenc\u00edveis e imortais.<\/p>\n<p>Segundo Val\u00e9ry, se as \u201csociedades se elevam da brutalidade em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem\u201d, elas, no entanto, \u201crepousam sobre Coisas Vagas\u201d.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Acrescenta, ainda, que, \u201ccomo a barb\u00e1rie \u00e9 a <em>era do fato,<\/em> \u00e9 necess\u00e1rio, portanto, que a <em>era da ordem <\/em>seja o <em>imp\u00e9rio das fic\u00e7\u00f5es<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, pois n\u00e3o h\u00e1 pot\u00eancia capaz de fundar a ordem pela simples press\u00e3o dos corpos pelos corpos. Fazem-se necess\u00e1rias ao processo civilizat\u00f3rio, diz Val\u00e9ry, as for\u00e7as fict\u00edcias.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Jacques-Alain Miller retoma essas passagens para extrair o princ\u00edpio de que \u201cou tudo n\u00e3o passa de um teatro de sombras, \u00f3pera-bufa, cenografia de semblantes, ou h\u00e1 o real. Talvez, o real goste do semblante, assim como o Absoluto quer estar junto a n\u00f3s (Hegel)\u201d.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Com efeito, esse momento de crise e impasse da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 mais uma prova de que o real ama o semblante. De fato, quando os semblantes de uma \u00e9poca come\u00e7am a ruir, tudo pode desaguar nesses impasses insol\u00faveis quanto ao real, que se apresentam, nos dias de hoje, para al\u00e9m do que anunciava o termo freudiano de <em>mal-estar.<\/em> N\u00e3o \u00e9 incomum ver, nas hist\u00f3rias pol\u00edticas das na\u00e7\u00f5es, o recrudescimento da c\u00f3lera, do \u00f3dio, das queixas arrasadoras, pat\u00e9ticas, daqueles que veem os semblantes baterem em retirada, fato que, no fundo, demonstra que se goza com eles.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>A esse prop\u00f3sito, \u00e9 fundamental a distin\u00e7\u00e3o que estabelece Laurent entre o uso dos semblantes da ci\u00eancia, particularmente da biopol\u00edtica dirigida \u00e0 gest\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es que fazem os governos populistas, autocr\u00e1ticos e ditaduras, e aquele das democracias liberais europeias. Ao contr\u00e1rio destas \u00faltimas, o emprego da express\u00e3o francesa \u201c<em>bras d\u2019honneur<\/em>\u201d \u2013 dar uma banana para o p\u00fablico, gesto considerado obsceno e ofensivo \u2013 \u00e9 preciso para caracterizar a atitude de desd\u00e9m do governo Bolsonaro para com os semblantes ofertados pela ci\u00eancia. Trata-se de uma postura negacionista e de menosprezo pela ci\u00eancia, postura semelhante \u00e0 que manifestou, anteriormente, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Com uma \u00fanica diferen\u00e7a: a temporalidade dos efeitos devastadores e catastr\u00f3ficos da pandemia n\u00e3o \u00e9 equivalente \u00e0quela da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. No fundo, esse desd\u00e9m pela ci\u00eancia \u00e9 um menosprezo pelo <em>pior<\/em>, ou pelo car\u00e1ter mortal da civiliza\u00e7\u00e3o, na medida em que se desconhece que a fatia da popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel no Brasil \u00e9 muito maior que nos pa\u00edses nos quais prevalecem as democracias liberais, com a tend\u00eancia ao agravamento dos efeitos econ\u00f4micos adversos e calamitosos dessa crise.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>O c\u00e1lculo do semblante<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel evocar a atualidade cheia de riscos e mort\u00edfera, provocada pela pandemia do coronav\u00edrus, sem considerar a crise e os impasses atuais da vida civilizada, ocasionados pela presen\u00e7a impactante e maci\u00e7a da ci\u00eancia. \u00c9 o discurso da ci\u00eancia que, desde a idade cl\u00e1ssica, fixa o sentido do real para nossa civiliza\u00e7\u00e3o. No entanto \u2013 eis, ent\u00e3o, o paradoxo com o qual nos defrontamos \u2013, \u00e9 por meio da pr\u00f3pria ci\u00eancia, com sua racionalidade aplicada \u00e0 administra\u00e7\u00e3o dos seres e das coisas, e, portanto, de suas pr\u00e1ticas e instrumentos t\u00e9cnicos dos mais sofisticados, que se busca implementar solu\u00e7\u00f5es para a crise atual. Como tratar esse momento de crise aguda da vida civilizada que o v\u00edrus nos imp\u00f5e? Para isso, n\u00e3o se trata apenas de conceber o nascimento e a sua natureza causal interna.<\/p>\n<p>Se esses impasses n\u00e3o se restringem ao acontecimento da virul\u00eancia mort\u00edfera do v\u00edrus, \u00e9 porque se associa a ele um conjunto de outros acontecimentos que configuram um mundo \u2013 nosso mundo presente \u2013, e, por sua vez, h\u00e1 algo, nesse mundo, que se mostra extempor\u00e2neo ao funcionamento do que \u00e9 o real. Como declara Lacan, a diferen\u00e7a entre o mundo e o real \u00e9 a \u201cdiferen\u00e7a entre o que funciona e o que n\u00e3o funciona\u201d.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Se o que funciona, caminha e gira em c\u00edrculos \u00e9 o mundo, o real constitui-se, em seu eterno retorno, como um obst\u00e1culo a esse funcionamento. Ambas, ci\u00eancia e psican\u00e1lise, acedem ao real pelo imposs\u00edvel pr\u00f3prio ao que n\u00e3o funciona no mundo. Por\u00e9m, diz Lacan, o real da ci\u00eancia \u00e9 o do n\u00famero enraizado na linguagem. Na psican\u00e1lise, acede-se ao real por um imposs\u00edvel muito singular, na medida em que este se incrusta na conting\u00eancia, e n\u00e3o na necessidade pr\u00f3pria do saber que se aloja no real.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Por outro lado, isso n\u00e3o \u00e9 tudo, pois esse acesso ao imposs\u00edvel na psican\u00e1lise exige o concurso do semblante, ou seja, esse misto de simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio que se op\u00f5e ao real. Em consequ\u00eancia, como prop\u00f5e Laurent, os discursos s\u00e3o aparelhamentos de semblantes tentando cercar esse imposs\u00edvel, aquele de um gozo que se escreve por interm\u00e9dio de cada um de n\u00f3s. Sugere, assim, que, diferente do cientista, o psicanalista n\u00e3o se engana pela miragem da refer\u00eancia, especialmente quando se trata de calibr\u00e1-la e calcul\u00e1-la na perspectiva das exig\u00eancias do trabalho da civiliza\u00e7\u00e3o. \u201cAo contr\u00e1rio, ele ataca a necessidade da refer\u00eancia e esclarece a conting\u00eancia da causa de desejo e das formas da subst\u00e2ncia gozante\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>. \u00c9, exatamente, por essa falta da refer\u00eancia que o uso da inexist\u00eancia do Outro para tratar a crise dos fen\u00f4menos civilizat\u00f3rios n\u00e3o se faz sem fazer intervir o c\u00e1lculo concernente aos semblantes.<\/p>\n<p>A meu ver, o esclarecimento mais decisivo quanto \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da inexist\u00eancia do Outro \u00e0 crise atual do coronav\u00edrus \u00e9 o fato de que o semblante, em sua acep\u00e7\u00e3o mais ampla, \u201cinclui c\u00e1lculo\u201d.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> Esse c\u00e1lculo seria profundamente ineficaz e inoperante se omit\u00edssemos a intromiss\u00e3o do real em jogo nessa crise. Em fun\u00e7\u00e3o disso, Laurent retoma a discuss\u00e3o que data da \u00e9poca do Curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, \u201cO Outro que n\u00e3o existe e seus comit\u00eas de \u00e9tica\u201d, em que se apreende a ru\u00edna do Outro em rela\u00e7\u00e3o de continuidade com o real \u2013 ou seja, ela lhe \u00e9 correlativa.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> Isso quer dizer que, quando o sujeito \u00e9 confrontado com o Outro em ru\u00edna, quando o discurso da ci\u00eancia se mostra incapaz de acalmar as ang\u00fastias do sujeito contempor\u00e2neo, \u00e9 o real que irrompe sob o modo do que a experi\u00eancia do inconsciente testemunha como o imposs\u00edvel de suportar.<\/p>\n<p>Se o c\u00e1lculo do semblante se faz sempre com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201c<em>mot\u00e9rialit\u00e9<\/em>\u201d da puls\u00e3o de morte para o la\u00e7o social, n\u00e3o se pode, por consequ\u00eancia, tomar a inexist\u00eancia do Outro segundo um certo relativismo hist\u00f3rico, sabendo que ela encontra o seu lugar no discurso do mestre e incorpora a a\u00e7\u00e3o inexor\u00e1vel dos acontecimentos hist\u00f3ricos. Giovanni Bocaccio, no <em>Decamer\u00e3o<\/em>, ao abordar a \u201cpestil\u00eancia mort\u00edfera\u201d<em> negra <\/em>que se deflagrou no ano de 1348, em Floren\u00e7a, relata que \u201centre tanta afli\u00e7\u00e3o e tanta mis\u00e9ria [&#8230;], a referenda autoridade das leis, quer divinas, quer humanas, desmoronara e dissolvera-se\u201d.<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> Assim, se a inexist\u00eancia do Outro assume um valor transhist\u00f3rico, se ela se faz presente ao longo das \u00e9pocas, a tend\u00eancia do saber anal\u00edtico \u00e9 tomar o acontecimento irruptivo da peste como superficial aos olhos desse invari\u00e1vel da estrutura. Interessar-se pela novidade do acontecimento parece sempre, a despeito de todas justificativas, como mais aqu\u00e9m do que se trata na interpreta\u00e7\u00e3o propriamente psicanal\u00edtica sobre a ru\u00edna do Outro.<\/p>\n<p>Ledo engano, pois o pr\u00f3prio Lacan nos mostra que esse invari\u00e1vel pr\u00f3prio \u00e0 vida civilizada n\u00e3o \u00e9 antin\u00f4mico com o movimento hist\u00f3rico que lhe estrutura e, finalmente, lhe d\u00e1 corpo. Demonstra, ent\u00e3o, que o princ\u00edpio do <em>Outro que n\u00e3o existe<\/em> \u00e9 compat\u00edvel com efeitos de discursos que, em \u00faltima an\u00e1lise, lhe condicionam, efeitos que, no caso do novo coronav\u00edrus, dizem respeito ao lugar preponderante das pr\u00e1ticas biopol\u00edticas sobre os corpos. \u00c9 sabido que, desde o s\u00e9culo XVIII, surgem novas formas de governamentalidade liberal que visam racionalizar, por meio da ci\u00eancia, os problemas postos pelos fen\u00f4menos pr\u00f3prios de um conjunto de viventes constitu\u00eddos em popula\u00e7\u00e3o: sa\u00fade, higiene, natalidade, longevidade, ra\u00e7as e etc. Diante da pandemia mort\u00edfera do coronav\u00edrus, postula-se que a biopol\u00edtica imp\u00f5e-se n\u00e3o apenas como op\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica dos Estados liberais e mesmo iliberais, n\u00e3o apenas como raz\u00e3o governamental dominante com a preocupa\u00e7\u00e3o de efic\u00e1cia m\u00e1xima nas quest\u00f5es da vida e da popula\u00e7\u00e3o, tornando-se, portanto, uma condi\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel para lidar com o car\u00e1ter mortal da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O v\u00edrus, a biopol\u00edtica e seu avesso <\/strong><\/p>\n<p>O outro ponto culminante da an\u00e1lise sobre a a\u00e7\u00e3o mort\u00edfera do v\u00edrus e as respostas que governos e sociedade civil procuram dar \u00e9 quando Laurent desloca a inser\u00e7\u00e3o do comit\u00ea da esfera da \u00e9tica para a da ci\u00eancia. Na verdade, o comit\u00ea \u00e9 concebido como uma esp\u00e9cie de suplemento da inexist\u00eancia do Outro, capaz de suportar a falta de refer\u00eancia e de apoio que se introduz na civiliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia por meio da profus\u00e3o de semblantes, gerando o sentimento de que, se tudo \u00e9 semblante, logo, n\u00e3o h\u00e1 o real. Evidentemente que se vivemos na \u00e9poca dos comit\u00eas \u00e9 porque as grandes quest\u00f5es da contemporaneidade s\u00e3o palco de controv\u00e9rsia, conflito e ceticismo sobre as palavras e as coisas, enfim, sobre o real. Diante da dissemina\u00e7\u00e3o letal do v\u00edrus, \u00e9 not\u00f3rio que a quest\u00e3o \u00e9tica aparece como subordinada \u00e0s decis\u00f5es cujos protagonistas s\u00e3o os cientistas. Ao longo do texto, isso se verifica de v\u00e1rias maneiras. Apesar de introduzir uma vari\u00e1vel de import\u00e2ncia capital para o c\u00e1lculo geral, o modo como cada um interpreta as instru\u00e7\u00f5es restritivas relativas ao confinamento e ao isolamento est\u00e1 submetido ao ato decis\u00f3rio dos comit\u00eas cient\u00edficos. Outro exemplo que se destaca a prop\u00f3sito dessa supremacia do cient\u00edfico \u00e9 a quest\u00e3o de se deixar infectar muitos ou de conter muitos, ou seja, trata-se de um problema mais aqu\u00e9m da dimens\u00e3o \u00e9tica, tendo em vista que prevalece uma decis\u00e3o de cunho pragm\u00e1tico concernente \u00e0 vulnerabilidade da vida. O terceiro exemplo envolve o que se designa como o conceito de \u201cleito\u201d, pois esses dispositivos de reanima\u00e7\u00e3o possibilitam, como refere Laurent, a base fundamental para o c\u00e1lculo, visando o objetivo da <em>immunity herb <\/em>da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, quando o desvario e o desespero sobrepujam em meio ao aprofundamento da a\u00e7\u00e3o mort\u00edfera do v\u00edrus, quando os semblantes de uma \u00e9poca est\u00e3o prestes a cair por terra, um certo real das forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas se desnuda. Vivemos um momento em que \u00e9 preciso saber respeitar os semblantes da ci\u00eancia. Ali\u00e1s, j\u00e1 se constata, nesse momento hist\u00f3rico, o surgimento de dissen\u00e7\u00f5es por parte dos governos populistas e conservadores \u2013 Trump e Bolsonaro \u2013, que incitam uma desobedi\u00eancia civil a esses semblantes. Quando se come\u00e7a a zombar dos semblantes que conferem algum litoral a esses excessos do gozo mort\u00edfero, \u00e9 a pr\u00f3pria ordem social que se revela confundida com o puro semblante. Portanto, n\u00e3o s\u00e3o tempos que se prestam a abalar o fundamento de semblante do la\u00e7o social e, tampouco, p\u00f4r em cheque os significantes mestres da tradi\u00e7\u00e3o, pois a sua desestabiliza\u00e7\u00e3o favorece o retorno da face feroz e tir\u00e2nica da ordem social e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Nestes tempos atuais, o avesso da biopol\u00edtica \u00e9 admitir que o recurso inevit\u00e1vel \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es dos comit\u00eas m\u00e9dico-epidemiol\u00f3gicos para lidar com cont\u00e1gio do v\u00edrus se faz tomando a biopol\u00edtica como um sintoma. \u00c9 um sintoma na medida em que o referente, no \u00e2mbito da civiliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, torna-se ainda mais fugidio e real e, por isso, imposs\u00edvel de ser designado.<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a> Diante disto, diz Laurent, resta-nos constru\u00ed-lo. E n\u00e3o se constr\u00f3i sem levar em conta que h\u00e1 um vazio no cerne do imp\u00e9rio dos semblantes, \u201cum vazio de um significante-mestre, de um princ\u00edpio \u00fanico ordenando o discurso, e que o lugar deste <em>Um\u201d<\/em> se mant\u00e9m precariamente pelas pr\u00e1ticas atuais da ci\u00eancia.<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a> Como se afirmou antes, se o semblante impera, ent\u00e3o, para o sujeito contempor\u00e2neo, \u00e9 como se o real n\u00e3o existisse.<\/p>\n<p>O avesso da biopol\u00edtica, que a psican\u00e1lise encarna como discurso, sup\u00f5e considerar o c\u00e1lculo de que, nos tempos de crise, a imers\u00e3o do sujeito nos semblantes torna-o presa f\u00e1cil de um desprezo pela for\u00e7a devoradora do real que emerge sob o fundo da ang\u00fastia. Ainda que seja uma miragem, o referente existe para a biopol\u00edtica, por isso, em seu c\u00e1lculo, ela conta com o que funciona, a saber, com os signos do mundo. O c\u00e1lculo, para o avesso da biopol\u00edtica, conta com o que n\u00e3o funciona e, portanto, se exerce com apoio nos semblantes, pela raz\u00e3o de que s\u00e3o compat\u00edveis com o vazio escavado, em cada <em>falasser<\/em>, por meio de uma escritura para o gozo. Lacan corrige Roland Barthes<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>: o imp\u00e9rio de signos \u00e9, de fato, um imp\u00e9rio de semblantes.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Laurent, E. <em>O Outro que n\u00e3o existe e seus comit\u00eas cient\u00edficos<\/em>. Publicado originalmente em Lacan Quotidien N.874, com vers\u00e3o para o portugu\u00eas publicada neste n\u00famero, Correio Express Extra N.06.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Freud, S. <em>O mal-estar na cultura.<\/em> Belo Horizonte: Aut\u00eantica. (No prelo).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Val\u00e9ry, P. La crise de l\u2019esprit. In: <em>Europes de l\u2019antiquit\u00e9 au XXe si\u00e8cle,<\/em> Paris: Robert Lafont, 2000, p. 406.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Val\u00e9ry, P. <em>Oeuvres I<\/em>. Paris: Gallimard, 1997, p. 8. (Collection\u00a0Biblioth\u00e8que de la Pl\u00e9iade).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Ibid.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Ibid.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Miller, J.-A. O ditador dos cegos. In: <em>O sobrinho de Lacan<\/em>. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2005, p. 240.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Miller, J.-A. La psychanalyse, la cit\u00e9, les communaut\u00e9s. <em>La Cause freudienne<\/em>, n. 68, 2008, p.116.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Lacan, J. <em>O triunfo da religi\u00e3o<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2005 p. 63.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Miller, J.-A. Um real para a psican\u00e1lise. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana,<\/em> n., 32, 2001, p. 16.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Laurent, E. \u201cAbertura\u201d. In: <em>Scilicet<\/em>: semblantes e sinthoma-Scilicet \u2013 Textos preparat\u00f3rios para o VII Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP), Paris, 2010. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2009, p. 13.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> Laurent, E. <em>O Outro que n\u00e3o existe e seus comit\u00eas cient\u00edficos<\/em>, op. cit.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> Miller, J.-A.; Laurent, E. <em>El Outro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2005, p. 13.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> Bocaccio, G. <em>Decamer\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Abril, 1979, p. 13.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Laurent, E. <em>O avesso da biopol\u00edtica<\/em>: uma escrita para o gozo. Contracapa: Rio de Janeiro, 2018, p. 222.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Ibid., p. 222.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Barthes, R. <em>O imp\u00e9rio dos signos. <\/em>Martins Fontes: S\u00e3o Paulo, 2007.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por J\u00e9sus Santiago \u00a0A civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 mortal \u00a0\u00c9 preciso dar-se conta da concep\u00e7\u00e3o l\u00facida e realista a partir da qual \u00c9ric Laurent aplica a tese lacaniana da inexist\u00eancia do Outro a este momento grave que a civiliza\u00e7\u00e3o experimenta em virtude da pandemia do novo coronav\u00edrus.[1] O uso desse aforisma percuciente torna poss\u00edvel interpretar o quanto&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[85],"tags":[],"class_list":["post-3101","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-correio-express-extra-no006","category-85","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3101","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3101"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3101\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3102,"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3101\/revisions\/3102"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3101"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3101"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3101"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}