O analista como encarnação do objeto a
Aula Inaugural e Abertura das Atividades
Giselle Mattos Moreira
No dia 02 de março, aconteceu a Aula Inaugural do IPSM-MG e a Abertura das Atividades da EBP-MG, portanto, uma atividade conjunta entre Instituto e Escola. Mesmo com transmissão disponível online, a casa estava cheia. Presenciou-se os lançamentos das revistas Derivas Analíticas e Almanaque. Em seguida, a aula foi proferida por Jésus Santiago que, gentilmente, aceitou o convite para trabalhar o tema o analista como encarnação do objeto a.
Jésus percorreu um caminho de Freud a Lacan para trabalhar o conceito de transferência, destacando, de saída, que a suposição permanece central na leitura lacaniana desse conceito pilar da prática clínica. Se no começo está a transferência[1], trata-se de conectar a suposição de saber, não à pessoa do analista, mas ao sujeito inconsciente que está em jogo no trabalho analítico. Essa operação produz um amor ao inconsciente, o que cria condições para que o sintoma possa falar. Nessa vertente, o sujeito suposto saber é o pivô da transferência[2].
Entretanto, há ainda, encoberta, uma outra vertente da transferência. Nessa direção, Jésus dá um passo a mais, indicando o que fica esquecido e que governa secretamente a análise: o objeto a. Trata-se da vertente libidinal da transferência, ou, como precisa Miller, trata-se do seu núcleo real, que manifesta a “realidade sexual do inconsciente”[3]. Desta forma, a decifração de sentido não é apenas o que está em jogo. Laurent[4] adverte que o paciente tentará recuperar o objeto perdido ao se dirigir a seu interlocutor, a pulsão segue sua rota em direção ao objeto, sem jamais esgotá-lo. Esse circuito funda a transferência junto ao analista como suposto objeto a.
O analista empresta seu corpo, seu olhar, sua voz, aos sentimentos e esperanças que o paciente lhe endereça, para que, então, o sujeito possa discernir o gozo que lhe concerne. Nesse sentido, há uma tensão em jogo: se a transferência mobiliza o objeto, cabe ao analista sustentar a posição de nada, a abstinência é decisiva na condução do tratamento, não se trata de intersubjetividades. Ao finalizar sua fala, Jésus propõe, ainda, que a vertente libidinal da transferência pode levar o analista a ser parceiro-sintoma, ou seja, a fazer par com o sintoma do analisante.
A conferência deu lugar a um debate vivo, cada um trazendo um grão para o trabalho de Escola. Surgiram algumas questões, dentre elas, destaco: o sujeito que terminou a análise poderia, ao fim, interpretar que há um equívoco ao tentar recuperar o objeto a no corpo do analista? Qual o lugar em que o analisante coloca o analista ao final de sua análise?
Percurso que abre as atividades do semestre e aquece para a 28ª Jornada da Seção Minas que acontecerá em novembro: Psicanálise: modos de usar. Seguimos com o trabalho!
