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Como surgiu “Doces&Bárbaros” para nomear o movimento Zadig no Brasil?
Em meio às discussões iniciais sobre a constituição da rede Zadig no Brasil, e ainda sob o impacto da Conferência de Jacques-Alain Miller em Madri, em 13 de maio passado, conversávamos (o chamado grupo impulsor) sobre o que poderia ser um nome ou expressão que pudesse captar e inscrever nossa singularidade nesta “movida”. Duas redes precursoras já haviam se constituído: a rede Zadig – “O real da vida”, na França, e a rede Zadig – “Rel i Llamp”, mobilizada por membros da Comunidade Catalã da ELP.
Vale lembrar que a Conferência foi precedida por uma alusão de Miller à figura mítico-popular do Coco, versão espanhola, podemos dizer, do nosso “bicho papão”. Com uma correção. Diferentemente do bicho-papão, evocado para meter medo nas crianças que não querem dormir, seu objetivo, ao contrário, seria o de despertar, diante das forças que nos embalam e nos amortecem.
Ao mesmo tempo, uma outra palavra surge na Conferência, “bárbaro”, a partir de uma referência ao livro de Henri Michaux, Um bárbaro na Ásia, no qual o autor confessa, após uma viagem de juventude pela Índia, China e Japão, a sua impossibilidade de penetrar nos mistérios da Ásia. Num novo prefácio ao livro, escrito anos depois, Michaux reconhece a impossibilidade de dissolver esta sensação experimentada tanto na viagem quanto na releitura do livro. E conclui: “Ali, fomos bárbaros, portanto bárbaros devemos permanecer.”
Na Conferência, Miller se compara ao escritor em sua relação com a Argentina. Imaginando ter um conhecimento íntimo deste país e de sua gente, se surpreende, a partir de um episódio que circulou no Facebook, que permanece sendo, ali, um bárbaro.
Diante desta constatação, Graciela Brodsky, nossa colega da EOL, evoca o poema de Konstantinos Kaváfis, “À espera dos bárbaros”, através do qual o poeta nos apresenta uma cidade romana na qual todas as suas nobres atividades parecem girar em torno da espera pelos bárbaros. O poema conclui com o espanto final diante da constatação de que os bárbaros não vêm mais. E as pessoas se perguntam: “Sem bárbaros o que será de nós? /Ah eles eram uma solução”.
Como vimos, o termo bárbaro refere-se ao Outro na sua radical diferença, visto em alguns momentos como uma ameaça, como algo que está prestes a invadir o campo do Mesmo. Em termos freudianos ele está ali, vizinho, próximo, Nebenmensch, com sua força perturbadora a agitar a estranheza, o Unheimlich que nos habita.
A menção aos bárbaros – no contexto de uma presença radical do Outro tanto no campo da cultura quanto da política – fez irromper, entre nós, a referência aos Doces Bárbaros. Como suponho que a maioria saiba, mas não custa lembrar, os Doces Bárbaros foi um grupo formado em 1976 pelos quatro baianos, Caetano, Gil, Gal e Bethânia, para uma série de shows e para a gravação de um disco. A decisão por se juntarem surgiu, como Caetano Veloso irá esclarecer anos mais tarde, como uma resposta ao modo algo pejorativo como o jornal Pasquim se referia a eles, aos “baiunos”, mistura de baianos com hunos, e que haviam invadido a cena musical brasileira, antes concentrada no eixo Rio-São Paulo. Caetano assume o caráter “bárbaro” dessa invasão baiana, uma invasão, podemos dizer que não apenas marcou e continua marcando, de modo irreversível, a música brasileira, mas que também deu impulso a uma nova maneira de interpretar nossa cultura, retomando, de certo modo, a tradição antropofágica que recoloca em termos absolutamente originais a relação entre o Mesmo e o Outro, entre o assimilável e o inassimilável, sem desconsiderar a dimensão do gozo que aí circula.
Bárbaros, porém, doces, precisará Caetano Veloso, evocando uma fala de Jorge Mautner na qual ele destaca o modo como o cristianismo subverteu docemente o Império Romano, diferentemente daqueles bárbaros que pretendiam combatê-lo de fora. Os Doces Bárbaros foi, e num certo sentido, continua sendo isso: um modo ágil de mobilização e intervenção de quatro figuras da cultura brasileira, cada uma delas com luz própria, com trajetórias muito singulares, para além do próprio grupo, mas que, no entanto, prontificam-se a se colocar em contato e a agirem, a seu modo, cada vez que percebem que há a necessidade de se afirmar uma leitura generosa, inovadora e não segregativa do Brasil, “impávidos que nem Muhammad Ali, apaixonadamente como Peri, tranquilos e infalíveis como Bruce Lee.”
Mas a história não acaba aí. Ao nome “Doces Bárbaros”, foi acrescentado um terceiro termo, a ligatura. Este & (ampersand), este logograma, este desenho formado a partir da palavra latina ET, no sentido da conjunção aditiva E, como uma ligatura entre as letras E e T, indica o enlace de elementos que, à primeira vista soam disjuntos, como a doçura e a barbárie, mas que, a meu ver, traduzem com precisão o que uma ação política no Brasil deve levar em consideração: numa terra que um dia foi considerada “um triste trópico” ou como “uma terra radiosa na qual vivia um povo triste”, foi modificada pela força interpretativa de uma outra geração, que não escondia o seu desejo de fazer da alegria a prova dos nove. Lacan em algum momento evocou o gay savoir, o saber alegre, como um dos efeitos produzidos por uma experiência analítica. Cabe a nós, quem sabe, encontrar as melhores formas de traduzir esse saber alegre em força política.
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