Comentário de uma referência em Lacan sobre o silêncio

Luiza Sarno

[…] É o que a experiência nos ensina a qualificar de agressividade, e que nos levou cada vez mais a levar em consideração o que podemos chamar de anseio de morte.
[…] o que motiva a anulação, o isolamento, todas as defesas – e, muito primordialmente nos obsessivos graves, aquele silêncio, frequentemente muito prolongado, que às vezes vocês têm a maior dificuldade do mundo para vencer no correr de uma análise.[1]

Do dizer a Um dizer

Importante convocação do Conselho: falar do silêncio. Esse tema perpassa o processo analítico, sendo o horror de quem começa uma análise: “Se o analista não disser nada?”. Entretanto, é em torno desse nada que muitas coisas podem ser elaboradas. Acolher o silêncio e buscar apreender o que dele pode ser tomado como um dizer, não vai sem o desejo do analista.

O silêncio da Escola, assim como o silêncio inerente ao gozo, vai mobilizar o discurso do analista, tendo no seu horizonte a perspectiva da assunção desse ponto de impossibilidade como desejo. Diferente do discurso universitário, que visa transmitir um saber, calando o que não se inscreve na lógica denominada científica, a Escola Una visa preservar o lugar do impossível de se dizer. Esse ponto de silêncio da Escola se refere ao eixo em torno do qual os analistas exercem sua práxis: um não-saber inerente ao discurso que visa ao modo de gozar, Um a Um, do falasser.

Entretanto, esse ponto de impossibilidade pode se apresentar como um silêncio sintomático na Escola, paralisando, impondo uma resistência que leva à acomodação, uma defesa do inesperado, enfim, um não saber lidar com as diferenças por buscar O dizer, no lugar de Um dizer. Frente aos impasses da Escola, Miller refere à importância de interpretá-la analiticamente, sendo a proposta do Conselho apreender esse silenciar a partir da especificidade da amarração borromeana em jogo na inibição, no sintoma ou na angústia.

Desses três modos de enodamento, destacaremos aquele em que se sustenta pelo redobramento do imaginário, causando, assim, efeitos de inibição, ou seja, o silêncio na neurose obsessiva. Lacan, no Seminário 5, As formações do inconsciente, se refere ao silêncio prolongado e difícil de ser superado na análise de obsessivos graves, articulando-o à agressividade e ao anseio de morte.[2] O neurótico sustenta seu desejo na consistência do Outro. A neurose obsessiva garantirá a consistência do Outro pela via da agressividade, fazendo-se continuamente expulso, ao invés de se fazer essencial como sujeito histérico. O silenciar, nessa vertente, tem a marca da agressividade inerente à relação do obsessivo com a demanda de morte do Outro de quem se sente dependente, submetido. O obsessivo, paradoxalmente, garante a consistência do Outro para invalidá-lo e desaprová-lo. Ao mortificar o Outro, se mortifica, pois precipita a própria destruição de seu desejo que se sustenta no Outro.

Penso que a fantasia de compacidade do Outro, inerente à neurose, pode se apresentar através do efeito cola nos cartéis ou do mutualismo na Escola, implicando um modo de estar junto que se traduz como resistência ao discurso do analista. A proposta da Escola pressupõe um grupo que permaneça “desagregado de boa maneira”. Miller refere que a Escola Una deve ser concebida como um gérmen posto dentro do Campo Freudiano visando a uma subversão organizada com o intuito de tensionar a AMP contra o mutualismo e a burocracia. Esse tensionamento é a condição para preservar a experiência autenticamente analítica. A conversação pode possibilitar, via transferência de trabalho, o tratamento pela palavra dos tensionamentos inerentes à Escola.


Comentário de uma referência em Lacan sobre o silêncio

Guilherme Cunha Ribeiro[3]

Esta teoria está presente em Freud. Ele nos diz em algum lugar que o modelo ideal que poderia ser dado de auto-erotismo, é o de uma só boca que se beijaria a si mesma. […] Será que, na pulsão, essa boca não é o que se poderia chamar de uma boca flechada? – uma boca cosida, em que vemos, na análise, apontar ao máximo em certos silêncios, a instância pura da pulsão oral, fechando-se sobre sua satisfação.[4]

No parágrafo destacado para o comentário revela-se uma modalidade do calar que ajuda a responder a posição de silêncio nas análises. Mas essa modalidade pode também ser considerada a respeito do silêncio dos analistas na EBP?

No capítulo em questão,[5] Lacan continua seu trabalho sobre a pulsão, debruçando-se sobre a segunda parte do texto freudiano “As pulsões e suas vicissitudes”, consagrada ao amor.[6] O silêncio da boca flechada expressaria um gozo que seria o “modelo ideal” da satisfação da pulsão. Pois o alvo da pulsão é o seu próprio retorno em circuito,[7] sendo ela uma deriva que parte e chega a algum lugar que não se espera. A satisfação se dá pelos elementos da pulsão: impulso, fonte, objeto e alvo, que estão lá para fazer esse trajeto acontecer. A boca é uma borda de onde parte o trajeto pulsional, contorna o objeto de satisfação, o objeto a, que é um vazio no lugar do seio perdido. A boca flechada, o beijo a si mesmo, é a realização da satisfação que não abre o caminho que não o do calar-se.

Eis um fragmento da clínica: aos três anos, a menina é levada pelos pais à analista. Ela tem um mutismo eletivo: ora fala, ora se cala. Por isso, o pai demanda que ela fale e, quando ela se cala, ele a repreende e pune. Numa primeira sessão, diante do silêncio da filha, o pai demanda insistentemente que ela fale. A analista oferece à criança a possibilidade de ficar sozinha. Ela aceita e a analista leva o pai para a sala de espera. Sozinhas, a analista pergunta à criança qual brinquedo ela deseja. A criança, falante, responde: “todos”![8]

O que vemos aqui, no sintoma da menina, entre o dizer e o calar-se, é que o sujeito é sempre feliz no campo pulsional. A pulsão se satisfaz dessa repetição, tanto com o mal-estar do desprazer como com o prazer. Com a palavra solta, a criança quer todos os brinquedos, o que nos mostra que ela não quer ceder de seu gozo, em silêncio ou falando. Esse ponto me leva ao falasser, onde se tem um campo de gozo. Em “Televisão”, Lacan assinala que existem arranjos ou modos de gozo e que a linguagem pode testemunhar um real do gozo.[9] A cura é uma demanda que parte da voz do sofredor;[10] o calar-se não permite que o real do gozo se presentifique na análise. E esse real está na fala, na escrita, nos significantes que ressoam o que está inserido no discurso do analista, o objeto a como causa do desejo. Falar é atar e desatar os nós do bem-dizer.[11]

Henri Kaufmanner lembra que o silêncio é algo em comum entre o analista e a pulsão.[12] Como pensar o silêncio de cada analista da comunidade da EBP? É bem certo que cada um tem seus silêncios. A mim parece que o convite a falar para a EBP abre caminho para o atar e desatar os nós da satisfação pulsional do silêncio, pois para Lacan, “no desatino de nosso gozo, só há o Outro para situá-lo, mas na medida em que estamos separados dele”[13].


Comentário de uma referência em Miller sobre o silêncio

Alessandra S. Pecego

[…] É o analista que permanece silencioso, mas também a pulsão. A pulsão silenciosa. E Freud evoca, ao final de “O eu e o Isso”, “a meia luz”, diz Lacan, o silêncio que as pulsões de morte fariam reinar no Isso. O silêncio é a relação iminente do sujeito com o significante e encontra-se na encruzilhada entre o analista e a pulsão […] O que há em comum entre analista e pulsão? Resposta: o silêncio.[14]

Ler esse trecho me fez retomar em Freud algo muito elementar: o Eu se liga às percepções internas e externas, ao sistema percepção-consciência e apoia-se em traços mnêmicos. Em oposição, nós nos deparamos com o Isso, que se relaciona a todos os elementos psíquicos nos quais o eu se prolonga, comportando-se de maneira inconsciente, sendo a raiz inconsciente, e sua matriz inorganizada é o lugar desconhecido, onde se instauram as paixões, as pulsões e as repetições.

Proponho que essas coordenadas conceituais sejam indicadores clínicos e conduzam a direção do tratamento em um processo analítico.

A pulsão de morte, enquanto compulsão à repetição, marca passo no sofrimento do sujeito. Pulsão de morte como força autônoma frente à exigência de prazer solicitada pelo aparelho psíquico e ligada à dimensão de gozo, portanto, à Das Ding[15], que é o objeto perdido desde sempre, inacessível, e que implica em insatisfação da força pulsional. Força pulsional silenciosa.

Fale tudo o que lhe vier à cabeça! Esse é o convite para a entrada no dispositivo analítico. Porém, qual é a fala que desacomoda e muda o modo de satisfação pulsional do sujeito? Esse fale “tudo” já é um engodo, a interpretação não fará par com o gozo narcísico, com a relação especular, com a alienação do sujeito, com o imaginário e com as resistências. A fala precisa sofrer escanções, cortes e poder chegar àquela que tem caráter de um dizer, que se orienta pela construção de um sintoma analítico – “um modo inconsciente de dizer”. Esse sintoma indica um real nessa encruzilhada do sujeito com o significante, com aquilo que não se inscreve e resta. A fala ressoando seus efeitos sem sentido, evidenciando um furo e um para além da comunicação. A fala que aluda ao gozo (algo que invariavelmente se satisfaz do qual não se sabe) de cada falasser, e se articule ao silêncio pulsional e ao objeto a.

Como triscar nesse silêncio pulsional no manejo analítico?

Sabemos que o analista encarna o semblante de objeto a, portanto sua fala (do analista) e sua presença guardam um silêncio, um vazio retumbante – este é o segredo da interpretação. Uma interpretação que evoca aquilo que não se pode dizer, que aponta para o impossível, que convoque o dizer do analisante e o objeto a, através de suas bordas. O silêncio do analista como receptáculo, servindo ao analisante como uma caixa de ressonância da fala enquanto experiência da falta-a-ser, de uma divisão ao se entregar aos desfiladeiros do significante e da castração.

Em seu passe, Bernard Seynhaeve[16] relata que, após repassar e fazer consistir suas construções sobre seu fantasma, o olhar e o corte incidiram sobre o silêncio pulsional e cortaram o gozo do sentido e da falação: “Você gosta demais de seus fantasmas”, diz o analista. Toca-se na raiz do gozo ignorado pelo analisante, nada mais de elaborações em uma cadeia produtora de sentidos e gozo. Silêncio. Corpo presente em silêncio. Por longo período, os sons que provinham do analista perturbavam e presentificavam angústia. Cito: “Não restava nada além da presença de dois corpos. A presença depurada do objeto a.” O analista o esperava. O analisante sabia que podia contar com seu analista. Ele pode se dar conta de que se tratava da travessia de seu fantasma, e isso deu abertura para a conclusão do percurso pulsional e conclusão de sua análise.

Eis quando silenciar difere de calar.


Comentário da referência de Miller sobre o silêncio

Leonardo Miranda

Em quinto lugar, um analista deve ser, por sua fase mais profunda, um mestre não apofântico, mas apofático – há apenas uma letra de diferença –, que segue uma via negativa. Se ele mantém o silêncio, é porque nenhum predicado convém ao real. A via que conduz ao real é uma via apofática, i. e., negativa. O gozo do qual falamos não tem outro signo na análise senão o silêncio do analisante, e só rompe o silêncio para torná-lo manifesto, a cada vez.[17]

Na época atual, em que o dizer tudo se impõe como uma ordem de ferro, o tema proposto pelo Conselho da EBP, “Modalidades do silêncio: entre o dizer e o calar”, nos leva a refletir sobre o imperativo de gozo do sentido (le jouis-sens). A proliferação de sentido, efeito de um enfraquecimento simbólico, tem suscitado o que podemos chamar de uma guerra das palavras. Calar-se não é mais permitido. O dizer tudo envolve a transparência de uma suposta verdade ofensiva e destrutiva. Freud, como diz Lacan, coloca a verdade em questão. A verdade se separa da exatidão, contrapondo a objetividade à psicanálise. Em seu ensino, ao apontar a impossibilidade de dizer a verdade toda, Lacan nos mostra que há um silêncio que é estrutural. Para além do calar-se, há um silêncio que compõe a própria fala, o indizível. No que diz respeito ao discurso da psicanálise, implicar o inconsciente seria extrair o contexto no qual o sentido se amarra. Com o silêncio, o analista convoca o dizer do analisante, isto é, o objeto a.

Miller propõe que o analista tem que ser apofático, o que nos mostra o quanto o silêncio não se reduz ao calar-se. A teologia apofática, também chamada de teologia negativa, afirma que a inteligência, a racionalidade humana é incapaz de definir o que é Deus. Deus só pode ser definido pelo que não é. Assim como o real, Deus seria indizível, inefável, um vazio que nos constitui. Na psicanálise, a interpretação remete a esse silêncio do real. A interpretação visa produzir um S1, um significante que toque o real, mas que não tenha sentido, disjunto de S2. O analista, paradoxalmente, fala através do silêncio, o que pode ter efeitos de interpretação, ao mesmo tempo em que a via em direção ao real pode ser orientada pelo que ele, o real, não é, ou seja, sua forma negativa. No que diz respeito à transmissão da psicanálise, a impossibilidade no que se transmite resta como causa. Isso nos faz refletir que em nossa época, de empuxo a um dizer totalizador, vivenciamos enxurradas de transmissões, virtuais e presenciais, que tomaram conta do que se ensina inclusive na psicanálise. Não há espaço para o silêncio do real. Remeto a Lacan que, em 1972, nos alertou sobre a rejeição da castração nos discursos que se aparentam com o capitalismo, que deixam de lado “as coisas do amor”[18]. Se não há amor, haveria espaço para a transferência de trabalho? Refletir sobre a Escola hoje inclui questionar sua transmissão frente à proliferação de discursos que aparentam o discurso capitalista. Como remeter a transmissão da Escola ao silêncio do real?


Comentário de uma referência em Lacan sobre o silêncio

Cinthia Busato

Se os ecos do discurso se aproximam muito depressa do ponto O’ – quer dizer, se a transferência se faz muito intensa –, produz-se um fenômeno crítico que evoca a resistência, a resistência sob a forma mais aguda em que possamos vê-la manifestar-se – o silêncio […].

É preciso dizer também que, se esse momento chega em tempo oportuno, o silêncio toma todo o seu valor de silêncio – não é simplesmente negativo, mas vale como mais além da palavra.[19]

Disso não se fala

No esquema da análise proposto por Lacan,[20] ao qual esse fragmento se refere no Seminário 1, Os escritos técnicos de Freud, está a noção inconsciente do eu do sujeito, “feito do que o sujeito desconhece essencialmente da sua imagem estruturante, da imagem do seu eu”[21]. Nesse ponto traumático do eu estão “as fixações imaginárias que foram inassimiláveis ao desenvolvimento simbólico da sua história”[22]. Lacan está discorrendo sobre a palavra na transferência. Anteriormente, ele havia colocado que há três formas de pensar a transferência na análise:[23] uma, para educar e doutrinar, superficial e inadequada; a segunda seria pela via do imaginário, do eu-ideal, que está dividido entre o júbilo do reconhecimento especular, devido à prematuração humana, e o déficit original, essa hiância que estará sempre ali na base de sua estrutura. Se o analista preenche essa imagem, há um apaixonamento que cativa e aliena o sujeito totalmente. Se aparece frustrando o sujeito de seu ideal e de sua imagem, convoca o ódio. Esse investimento imaginário desempenha na transferência um papel pivô, pois a transferência traz a revelação dessa relação imaginária, como diz Lacan: “O fenômeno da transferência encontra a cristalização imaginária. Gira em torno dela e deve juntar-se a ela”[24].

Com a palavra dirigida ao analista, sob transferência e via interpretação, vai sendo tecido o enredo na “ordem das relações simbólicas fundamentais […] resolvendo as fixações e as inibições que constituem o supereu”[25]. Interessa-me pensar sobre essas fixações imaginárias inassimiláveis fora da análise: quais seus efeitos no campo político? A assunção da necessidade do mito que vemos, seja religioso ou pagão, está de que maneira vinculada a isso? Quais são seus desdobramentos no percurso analítico? Todas essas marcas imaginárias são assimiladas com o trabalho analítico ou há sempre um resto nessa operação? Um resto imaginário?

Lacan, nesse momento, aborda simbolicamente tanto o imaginário quanto o real. Com os recursos do avanço do seu ensino, ele “esbarra em um limite da interpretação onde o real se verifica e a questão se desloca do plano da verdade para a do gozo”[26], que insiste, fora da dialética que imprime o sentido, em sua extimidade. Resiste “por si”, não se vincula ao S2, fazendo do discurso sua morada. Resiste no Um, S1, na letra de gozo que se apresenta. Esses avanços questionam o sentido e também o tempo, que desde Freud não era linear, mas erótico.

No Seminário 23, O sinthoma, Lacan coloca o “verdadeiro furo”, onde se revela que não há Outro do Outro, exatamente no encontro entre Imaginário e Real.[27] Nesse ponto, as “fixações imaginárias inassimiláveis” mostrariam uma face real? A angústia já é um tratamento para esse buraco negro localizado entre I e R? Qual a relação entre esse imaginário inassimilável e o gozo?

Lacan vincula ao trabalho em torno da transferência e ao tempo a possibilidade de o silêncio aparecer como negativo ou oportuno. Podemos pensar no silêncio como resistência que se opõe (I/S) e resistência que resiste (R)? Acho que será um bom tema para nosso encontro.


Comentário de uma referência em Lacan sobre o silêncio

Tânia Martins

[…] a interpretação lacaniana é discreta, rara. Deve ser um silêncio falante, não o silêncio da impotência, aquele que rende homenagem à cadeia significante. Um silêncio que consiga transmitir ao analisante que não há outra língua da interpretação, a não ser a interpretação que opera o inconsciente, e que a verdadeira língua da interpretação é lalíngua, em uma só palavra. Invenção de Lacan […]. Em cada elemento da língua, por menor que seja, há um traço de gozo.[28]

Lacan, no Seminário 23, O sinthoma, toma o equívoco como a possibilidade de tocar o real. Servir-se da equivocação significante para que possa surgir o encontro com algo de lalíngua. Ele nos indica o equívoco como arma contra o sinthoma. “É preciso que haja alguma coisa no significante que ressoe.”[29]

Segundo Miller, a partir do Seminário 23 e do escrito que se segue a ele, Lacan “tenta desembaraçar a psicanálise da crença, precisamente da crença no verdadeiro operada pelo efeito de verdade.”[30]. O ato é o de empurrar a psicanálise para “fora de si mesma, de obrigá-la a considerar sua operação a partir de outra perspectiva que a do verdadeiro. Essa perspectiva é […] a do real”[31].

Entre a “fala verdadeira”, que tem o valor de sujeito suposto saber, e a orientação, que visa à opacidade do sinthoma, não podemos evitar o impossível de dizer, tal como destacado por Lacan desde o início de seu ensino.

Segundo Miller, Lacan localiza na alucinação um funcionamento que se diferencia radicalmente do efeito de verdade ou da interpretação. Ele se serve do episódio alucinatório relatado por Freud, no caso do Homem dos Lobos, para demonstrar que “o real não espera nada da fala”[32].

Diz Lacan: “E é por isso que a castração, aqui suprimida pelo sujeito dos próprios limites do possível, mas igualmente subtraída, por isso, das possibilidades da fala, vai aparecer no real, erraticamente, isto é, em relações de resistência sem transferência […]”[33].

O paciente de Freud relata que observou com um “terror inexprimível” que havia cortado seu dedo mínimo e não teve coragem de dizer nada à sua babá, que estava a alguns passos dele. Lacan ressalta a diferença entre um caso de esquecimento, em que a dificuldade se deve ao fato de o sujeito ter deixado de dispor do significante, e esta impossibilidade de falar que afetou o sujeito a ponto de “não poder comunicar o sentimento que experimenta, nem mesmo sob a forma de um apelo, embora tenha a seu alcance a pessoa mais apropriada para ouvi-lo: sua amada Nania.”[34]

Consideremos duas possibilidades de dizer e de calar: o dizer e o calar sintomáticos e o dizer e o calar que decorrem do consentimento ao equívoco de lalíngua e do impossível de dizer.

Podemos tomar o calar na Escola, o silêncio, também sob essa perspectiva da presença do impossível de dizer, esse limite entre o verdadeiro e o real?


O grito, a Escola, o silêncio

Bibiana Poggi

Miller, na conferência de Turim, afirma que cada um dos membros sabe, na medida em que se analisa, e por ser analisado, que a Escola é uma formação coletiva.[35] Ele destaca que os membros formadores da Escola sabem que são “solidões estruturadas”, ou seja, cada um é um sujeito barrado, fixado a significantes-mestres e marcado pelo mais-de-gozar.

Entretanto, a Escola igualmente é definida como sujeito, constituindo-se efeito dos significantes que a determinam. Nesse sentido, necessita ser analisada e interpretada pelos Analistas da Escola. Enquanto sujeito, a Escola é composta pelo gozo do um, mais um, mais um etc.

Pensando a Escola Brasileira de Psicanálise a partir desta referência, recebemos com entusiasmo a proposta do Conselho para tecer um breve comentário lastreado nesta citação:

[…] É essencial que, da boca retorcida do ser feminino em primeiro plano que representa esse grito, não saia nada senão o silêncio absoluto. É no próprio silêncio que se centra esse grito, que surge a presença do ser mais próximo, do ser esperado, ainda mais que ele já está sempre presente, o próximo, que não tem nenhuma Erscheinung [aparição, manifestação] senão nos atos dos santos.[36]

A citação do Seminário em que Lacan apresenta uma elaboração do objeto a em termos de lógica refere-se à tela de Edvard Munch, O grito. Há um grito silencioso, um grito que, por ser silencioso, revela-se como aquilo que é mais próximo e ao mesmo tempo externo ao sujeito. Está relacionado ao êxtimo.

Prosseguindo na leitura de Lacan, na mesma página citada acima, destacamos: aquilo que é mais próximo consiste “na iminência intolerável do gozo”.

Pensando sobre a dimensão do gozo, gostaríamos de articular o silêncio com uma de suas modalidades, aquela destacada no argumento do Encontro – a extimidade.

Nesse sentido, encontramos no Seminário 20, Mais, ainda, a afirmação sobre o gozo da mulher: “há um gozo dela, desse ela que não existe e não significa nada”[37]. Desse gozo ela nada sabe, a não ser que o experimenta. Quando acontece, ela sabe, mas isso não significa que aconteça para todas. Sobre esse gozo, nada é falado.

Trata-se do gozo do Um, gozo primeiro e anterior à linguagem, aquele que tem valor traumático, constituindo-se como modo de gozar de cada um. Importa revelar ainda que um dos elementos que aparece relacionado ao gozo é o objeto a, afirma Miller no seu seminário O ser e o Um.[38]

Por sua vez, ao falar do objeto a no Seminário 16, De um Outro ao outro, Lacan emprega o termo êxtimo para qualificar a posição deste objeto como o que conjuga o mais íntimo do Outro com uma exterioridade radical.[39]

Do exposto, destacamos a importância de se prosseguir pensando o “Há um silêncio na EBP”, articulando-o com o modo de gozo de cada um.

Concluindo, ressaltamos que a proposta do Conselho da EBP ao convocar seus membros para se pronunciar sobre o silêncio constitui-se como uma forma de tratamento para o silêncio, uma aposta para que dele se saia.


[1] LACAN, J. O seminário, livro 5: As formações do inconsciente. (1957-1958) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999. p. 507.
[2] Ibidem.
[3] EBP-MG.
[4] LACAN, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. (1964) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. p. 170.
[5] Ibidem, capítulo 14.
[6] Ibidem, p. 166.
[7] Ibidem, p. 170.
[8] Fragmento de caso a partir da contribuição da analista Cláudia Messias.
[9] LACAN, J. Televisão. (1973) In: LACAN, J. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 535.
[10] Ibidem, p. 511.
[11] Ibidem, p. 515.
[12] KAUFMANNER, H. As modalidades do silêncio: entre o dizer e o calar. Boletim Um por Um, Conselho Deliberativo da EBP, n. 458, 2023. Disponível em: https://ebp.org.br/wp-content/uploads/umporum/um_por_um_458.html
[13] LACAN, 1973/2003, op. cit., p. 533.
[14] MILLER, J.-A. Silet: os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. p. 11.
[15] LACAN, J. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. (1959-1960) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. p. 18.
[16] SEYNHAEVE, B. Escrita de uma borda. Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 52, p. 109, set. 2008.
[17] MILLER, J.-A. A palavra que fere. Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 56-57, p. 67-70, jul. 2010.
[18] LACAN, J. Estou falando com as paredes. (1972) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2011. p. 88.
[19] LACAN, J. O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. (1953-1954) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986. p. 323.
[20] Ibidem, p. 322.
[21] Ibidem, p. 323.
[22] Ibidem.
[23] Ibidem, p. 320.
[24] Ibidem, p. 323.
[25] Ibidem.
[26] Cortes e interpretaciones en la práctica analítica. Argumento da XIII Jornadas de la NELcf. s/d. Disponível em: https://nel-amp.org/sv/actividades.jornadas-nel.13-jornadas.cortes-e-interpretaciones
[27] LACAN, J. O seminário, livro 23: O sinthoma. (1975-1976) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 130.
[28] LAURENT, É. Objetos da paixão. In: As paixões do ser. Salvador: Escola Brasileira de Psicanálise – Bahia / Instituto de Psicanálise da Bahia, 2000. p. 45.
[29] LACAN, J. Do uso lógico do sinthoma ou Freud com Joyce. In: LACAN, J. O seminário, livro 23: O sinthoma. (1975-1976) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 18.
[30] MILLER, J.-A. Segunda lição. In: MILLER, J.-A. Perspectivas do Seminário 23 de Lacan. O Sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009. p. 27.
[31] Ibidem, p. 28.
[32] Ibidem, p. 35.
[33] LACAN, J. Resposta ao comentário de Jean Hyppolite sobre a “Verneinung” de Freud. (1954) In: LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 390.
[34] Ibidem, p. 392.
[35] MILLER, J.-A. Teoria de Turim: sobre o sujeito da Escola. Opção Lacaniana online, nova série, São Paulo, ano 7, n. 21, nov. 2016, passim.
[36] LACAN, J. O seminário, livro 16: De um Outro ao outro. (1968-1969) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. p. 219.
[37] LACAN, J. O seminário, livro 20: Mais, ainda. (1972-1973) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. p. 100.
[38] MILLER, J.-A. O ser e o Um. Curso de Orientação Lacaniana III, 13. III Lição do Curso. Fev. 2011.
[39] LACAN, 1968-1969/2008, op. cit., p. 219.