Livro Bibliô 2015 / 2017

por Vários

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Editorial

Anos atrás pensávamos que as bibliotecas fossem um dos recintos cerimoniais mais significativos, onde os leitores marcavam encontro com o gozo da escrita e da leitura assim como um encontro com outros leitores numa espécie de epifânia silenciosa e aconchegante. As bibliotecas como oráculos da cidade onde acudir para decifrar os mistérios do Zeitgeist.

Nos tempos após web, e graças à tirania da transparência, podemos descobrir numa fotografia a lenta agonia de uma delas. A primeira vista parece o mar dos nomes próprios após uma turbulência ou será tal vez o oceano de falsa ciência de Perelman do qual falava Lacan?

Parece que a morte de uma biblioteca acontece quando seus leitores não mais dão as caras. Ou será que todos esses livros estão digitalizados e, como o objeto na psicose, habitam no bolso móbil de cada um? Cada nova liberdade conquistada custa um preço, sabemos. No caso da biblioteca da foto é evidente que os leitores não mais se encontram para respirar o mesmo ar povoado de ácaros e memórias.

Os suportes da letra já não permanecem os mesmos, se multiplicaram, as telas luminosas disputam com os papéis, telas em decadência. Nada temos que lamentar enquanto a este fenômeno, pelo

contrário devemos escudrinhá-lo e extrair o máximo de tutano possível. Em 2011-2013 tive a sorte de dirigir as bibliotecas da EBP e as circunstancias me trazem aqui de novo. Desculpem-me de me citar e também de reaparecer, mas não resisto de dizer o mesmo: “Para nós, a elucidação do ato de leitura, a formação crítica do leitor, o respeito à dignidade da letra e a abertura do tempo de degustar os livros é uma herança da transferência de Sigmund Freud com a palavra impressa, vivificada pela disciplina do comentário, chave do ensino de Lacan”

Algo novo me interessa hoje lhes transmitir que a fotografia anterior e o encontro com minhas colegas de diretoria me fizeram pensar: as bibliotecas que nos interessam são as que enchem de gente, as que ocupem um lugar na cidade sem esconder-se na tranquilidade dos especialistas.

Dar a conhecer nossos lançamentos, nossas projeções, nossos bancos de dados, e abrir nossos discursos, estantes, mesas e cadeiras aos parlêtres que circulam nas suas redondezas. Seja que toquem e cheirem nossos livros, que baixem nossos pdfs ou assinem nossos aplicativos. Sobretudo que se encontrem nelas.

O propósito declarado da Federação Internacional de Bibliotecas de Orientação Lacaniana (FIBOL) desde a sua fundação em 1990, é a transmissão da descoberta freudiana às comunidades nas quais elas se encontram. E a peste prolifera, como os ácaros e o desejo de leitura.

A equipe que integra sua gestão nela se orienta.

Marcela Antelo

 

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