BIBLIÔ 13 – 2da Série

por

A- / A+

Editorial

Seções e delegações da EBP continuam aquecendo as turbinas através de seminários, apresentações de trabalhos e conversações clínicas, para as Jornadas locais e o XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano “Trauma nos corpos, violência nas cidades”, que acontecerá em Belo Horizonte, de 21 a 23 de novembro, com a presença de Miquel Bassols. Será também o momento em que a EBP comemora os 50 anos do “Ato de Fundação” com o Evento-Cartéis, imprescindível dispositivo para a formação do analista: “Os destinos do amor” terá lugar em Belô (22 de novembro).

O pontapé inicial das jornadas preparatórias deu-se com o evento na delegação MT/MS: “O corpo e a Urbe – fronteiras e desordens” (25 e 26 de julho), com a presença de colegas da ECF e Rômulo Ferreira da Silva. Nos dias 22 e 23 de agosto é a vez da IX Jornada da Seção SC “Psicanálise, crenças, leis”, com o convidado internacional Mario Goldenberg (EOL/AMP). Esta será uma jornada muito especial, pois também abrigará o “I Colóquio do Observatório da Psicanálise Lacaniana da EBP”, que inicia uma série em Florianópolis, mas terá sequência em outras seções e delegações, sempre acolhendo um tema candente à comunidade analítica. Até o mês de novembro as demais localidades realizarão suas Jornadas, em torno do tema do XX Encontro.

O DR discute neste número a questão da guerra. Bibliô priorizou trazer algumas refl exões sobre a guerra na Faixa de Gaza, a partir da pergunta: trata-se de uma guerra religiosa? Ante o inevitável debate, foi oportuno encontrar as palavras pronunciadas por Miquel Bassols, em entrevista publicada no Boletim EsseOEsse n.1 do XX Encontro Brasileiro, “O sujeito de nosso tempo vive, de fato, sob a ameaça de um real que pode explodir a qualquer momento”. Ao pronunciá-las, Bassols sequer supunha que poucos meses após conceder a entrevista, estouraria mais um episódio da sangrenta guerra, que acompanhamos com dor e inquietação. Nessa entrevista, o Delegado Geral da AMP disse que o analista deveria funcionar como “artífi cie do real”, propondo a palavra como forma de desativar (ou ao menos mitigar) os efeitos da bomba do real que cada sujeito porta, decifrando seu mecanismo simbólico. Ele critica as políticas higienistas que, com seu modo reducionista de tratar o sintoma, esperam fazê-lo “sumir do mapa”, sem perguntar sobre o sentido que encerra para cada sujeito. No contexto atual, trata-se de fazer sumirem os palestinos do mapa, na chamada “guerra religiosa”. Seria assim tão simples ler o que acontece há anos no Oriente Médio?

“Cobra de sete cabeças” foi a expressão de Bassols para denominar o sintoma, “que as reproduz de modo diretamente proporcional à operação de cortá-las”. E esta me parece boa metáfora para ler o obsceno genocídio que está em marcha, sem falar que proporção é também um signifi cante oportuno, dada a insensata resposta do Ministro das Relações Exteriores de Israel às críticas veiculadas pela diplomacia brasileira. É no mínimo cruel, comparar a derrota no futebol, ao extermínio de mulheres e crianças palestinas. Miller no texto “Crença e psicanálise”1 chama a atenção para a diferença entre religião e religioso, e no vergonhoso episódio vê-se as duas dimensões se misturarem, sem desconsiderar que a lei imposta pelo governo israelita, longe de defender uma verdade, utiliza o avanço da ciência e do poderio econômico para dizimar vidas, numa correlação de forças absolutamente desproporcional, mesmo porque, nenhuma proporcionalidade poderia justifi car uma guerra.

No empuxo desse lamentável episódio, e apostando na possibilidade de invenção de outros recursos para fazer frente ao real sem lei do século XXI, propomos a leitura da entrevista concedida por Samyra Assad, Coordenadora do Observatório Lacaniano da EBP, levando em conta que religião é o tema que motiva a realização do I Colóquio “Desafi os contemporâneos à psicanálise”.

Para relembrar uma dessas boas invenções, temos em Urbanas, o delicado tributo à Ariano Suassuna, escrito por nosso colega pernambucano José Carlos Lapenda Figueroa.

Imperdível o trabalho realizado pela equipe do Bibliô Referências coordenado por Mirtha Zbrun, que neste número dá seguimento à pesquisa das referências de Lacan no seminário 6, com o trabalho sobre os dois sonhos, o do pai morto e da paciente de Ella Sharpe.

Em Aconteceu, continuamos acompanhando as atividades desenvolvidas pelas bibliotecas da EBP e desta vez, o destaque é para a atividade ocorrida em 28 de julho na EBP-RJ, quando a diretoria de biblioteca incluiu na atividade preparatória às Jornadas Anuais da Seção, uma homenagem a Eduardo Coutinho, cineasta e também um “artífi cie do real”, cujo lamentável desaparecimento provocou impacto, não só pela prematuridade, mas, sobretudo, pela forma trágica como ocorreu.

Boa leitura!

Laureci Nunes
(Diretora de Biblioteca da EBP-SC)

__________
1 CHORNE, D. Y GOLDENBERG, M. organizadores – LA CREENCIA Y EL PSICOANÁLISIS, Religión, psicoanálisis, Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica, 2006, p. 38.

 

BIBLIÔ 13 – 2da SERIE