Agente 19

AUTOR

Vários

NÚMERO / EDIÇÃO

19

ANO

2020

ISSN

2318-6054

SUMÁRIO:

EDITORIAL
Marcela Antelo

FUGAS
Édipo, ponto de fuga
Lilia Mahjoub

Empuxo-à-mulher, impulso-em-direção-à-mulher, fuga-diante-da-mulher
Agnès Aflalo

A obscenidade do corpo e a fuga do sentido
Yves Vanderveken

A fuga no espelho
Alma Pérez Abella

SEMBLANTES
De um discurso que não seria semblante: Introdução à leitura do seminário 18 Dominique Laurent

O analista e os semblantes
Fátima Sarmento

A verdade, o verdadeiro e o real
Carla Fernandes

DISCURSOS
A recepção surrealista da boneca de Hans Bellmer
Antônio Teixeira

Campo lacaniano, o campo psicanalítico no mundo
Nora Pessoa Gonçalves

O mestre castrado: do pai ao significante mestre
Rogério Barros

INFAMILIAR
Coordenadas lacanianas sobre o infamiliar
Luiza Sarno

Dizer o indizível: um fazer
Flávia Cêra

Transfamiliar
Niraldo de Oliveira Santos

O ‘feminino’ infamiliar na literatura
Teresinha N. Meirelles do Prado

AMOR
De um berro, o Outro silêncio
Deborah Gutermann-Jacquet

Lol V. Stein – Um vestido que faz o corpo
Abe Geldhof

“Estou sofrendo de uma falta”
Sarah Birgani

PASSE
Telefone
Débora Rabinovich

Acender a sombra
Florencia F.C. Shanahan

PSICANÁLISE E UNIVERSIDADE
Uma clínica cínica… à contrapelo
Milena Rocha Nadier Barbosa

Plotino e a doutrina do Um no último Lacan
Mathieu Siriot

BIBLIOTECA
A leitura na experiência analítica: construções na análise
Aléssia Silva Fontenelle

APRESENTAÇÃO DE AUTORES
NORMAS DE PUBLICAÇÃO


ÉDITORIAL

MARCELA ANTELO

Fugas

O sentido fuga não cessa de fugir. O sentido é essencialmente uma satisfação, é gozo[i]. Fuga de, fuga à. Movimentos passivos e ativos. A primeira fuga que experimentamos é a do número 19 da revista agente. A gente conseguiu suspender a distância com o número 18 e aqui está. Entrando na série de cara nova.

Em 1995-1996, Miller dedicou seu curso a acompanhar a sempre citada Introdução à edição alemã dos Escritos de Jacques Lacan. Decidiu dar por título A fuga do sentido. Ele demonstrou com isso que “todos os discursos, no sentido formalizado, têm fugas, e que todos têm um tampão”[ii]. Recordemos que em Extimidade, Miller mencionou o artificio

perverso de transformar um buraco em um tampão. Leu uma dialética entre a fuga e o tampão para estabelecer que “a fuga do sentido é um real da linguagem”[i].

Há furo essencial sem tampão que o elimine e há buracos fúteis, dóceis a tampinhas, feitas de significante e de sintaxes. O tonel que ilustra a nossa capa revela o trabalho insensato das belas Danaides. Elas foram, todas me- nos uma, condenadas a encher o tonel furado que figura a fuga do sentido ao ser alimentado.

Como todo mito, elas dão forma épica à estrutura. São produto de uma guerra fratricida entre os irmãos gêmeos Egipto e Dânao, o primeiro com 50 filhos e o segundo, 50 filhas. Um governava a Arábia e o outro, a Líbia. Eles disputam entre si. Egipto, ciumento e ambicioso, propõe uma paz selada pelo casamento entre seus filhos e as sobrinhas. Dânao fabrica a primeira nave de que se tem registro e foge com suas 50 filhas de diferentes mulheres para Argos, onde introduz a escrita e o arado, ganhando altíssimo reconhecimento. Na iminência do acordo, Dânao fornece um punhal para cada filha, que, sob o mando do pai gozador, deverá assassinar seu marido na noite de núpcias. Hipermnestra é a Uma da exceção. Seu primo Linceo não a possui nessa noite e, assim, eles se enamoram. Em decorrência disso, ela desobedece à ordem paterna. Porém, o casal é salvo por Afro- dite e reina. As 49 obedientes são perseguidas pelas Fúrias e arrojadas ao Hades, o inferno, para incessantemente encher de água o tonel impossível.

Na aula III do seminário A fuga do sentido[ii], Miller diz, maravilhado, ter sabido que Benveniste dedicou um ensaio às Danaides. Benveniste aporta o nó da lenda antes despercebido, “a condição do drama inteiro”[iii]. Pergunta-se sobre o porquê̂ de as Danaides e seu pai fugirem de Egipto e seus machos caçadores de um hímen interdito. Apoiado em As suplicantes, de Ésquilo, Benveniste situa a fuga frente ao incesto abominável, impronunciável. É a lei fundamental da exogamia violada que nesse mito se transmite.

A fuga, como real do sentido, “é um ponto de vista que supera o da determinação do significado pelo significante”[iv]. Miller diz não tê-lo percebido claramente no seu curso de 14 anos antes.

Nossos autores da orientação lacaniana abrirão os sulcos por onde convidamos o leitor a caminhar.

Quatro colegas convidados escrevem sobre o significante Fugas: o Édipo como ponto da fuga, a fuga diante da mulher, a fuga do sentido quando o corpo é obsceno em um caso clínico de inesgotável leitura e a fuga no espelho.

A rubrica Semblantes recolhe uma apresentação memorável do seminário 18, assim como as duas primeiras intervenções no seminário do Conselho da Seção Bahia sobre o curso de Miller, A natureza do semblante. A seguinte rubrica, Discursos, antecipa duas intervenções no Seminário de Formação permanente da Seção Bahia, que girou ao redor do seminário 17 de Lacan, O avesso da psicanálise. Já́ está em conceito o próximo número, dedicado aos Discursos, recolhendo os produtos de 2021.

No mesmo movimento de garimpo de pérolas, contamos na rubrica Infamiliar com três intervenções memoráveis nas plenárias do XXIII Encontro Brasileiro O feminino infamiliar e uma intervenção preparatória do encontro.

Na rubrica Amor, como Eros manda, poderão ser lidos dois ensaios sobre a escrita de Marguerite Duras. O primeiro faz parte do tesouro recentemente publicado em Paris, Duras avec Lacan, e o segundo apresentado no recente Congresso da New Lacanian School (NLS) em Bruxelas. Integra o conjunto uma instigante apresentação, clínica, no mesmo congresso.

Na rubrica Passe poderemos ler uma das intervenções de AE marcantes, durante o XXIII Encontro, e um primeiro testemunho de AE, muito citado entre nós, mas nunca publicado em português.

As duas rubricas seguintes, assim como a anterior, já́ são clássicas na agente e pretendemos que perseverem. Psicanálise e Universidade reúne textos de relevância epistêmica para o nosso campo produzidos a partir do laço com a universidade. A rubrica Biblioteca recolhe a intervenção da 1a Conversação da Biblioteca da Seção Bahia sobre a “Leitura na experiência analítica”.

Desejamos que ninguém fuja da leitura deste esperado número de agente


[i] Miller, J.-A. Silet. Os paradoxos da pulsão, de Freud à Lacan. (1994-1995) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. p. 172.
[ii] Miller, J.-A. Sobre la fuga de sentido. (1994) In: ___. Introducción a la clínica lacaniana. Conferencias en España. Barcelona: ELP, 2006. p. 375.
[i] Miller. SiletOp. cit., p. 330.
[ii]Miller. Sobre la fuga de sentido. Op. cit., p. 55.
[iii] Benveniste, E. La légende des Danaïdes. Revue de l’Histoire des Religions, tome 136, n. 2-3, p. 129-138, 1949. Disponível em: <https://www.persee.fr/doc/rhr_0035-1423_1949_ num_136_2_5682>. Acesso em: 5 set. 2021.
[iv] Miller, J.-A. Todo el mundo es loco. (2008) Buenos Aires: Paidós, 2015. p. 205-206.
[v] Benveniste, E. La légende des Danaïdes. Revue de l’Histoire des Religions, tome 136, n. 2-3, p. 129-138, 1949. Disponível em: <https://www.persee.fr/doc/rhr_0035-1423_1949_ num_136_2_5682>. Acesso em: 5 set. 2021.
[vi] Miller, J.-A. Todo el mundo es loco. (2008) Buenos Aires: Paidós, 2015. p. 205-206.
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