Orientação Lacaniana

Março 2015

 

 

A seis meses do ENAPOL VII e a um ano do X Congresso da AMP, que ambos terão lugar no Brasil, respectivamente em São Paulo e no Rio de Janeiro, pareceu-nos um bom momento para cotejar o que Jacques-Alain Miller nos propôs como argumentos em duas ocasiões:

 

Na Conferência de encerramento do Encontro Pipol V, "Falar com o corpo", Miller introduz o acontecimento de corpo como um acontecimento de gozo que não volta jamais a zero. Para saber fazer com esse gozo é preciso tempo, já que ele não se decifra. Esse corpo não fala, goza em silêncio, diz Miller, mas é com esse corpo que o homem fala: esse corpo serve para falar. Na Conferência de apresentação do tema do X Congresso da AMP, Miller introduz o inconsciente como corpo falante, a partir da proposição de Lacan, em "Joyce o sintoma", de que o falasser (parlêtre) virá substituir o inconsciente de Freud. Interessou-nos portanto rastrear o caminho que vai de "falar com o corpo" ao "corpo falante". Para isso entrevistamos Ricardo Seldes, Presidente do ENAPOL VI, que nos ajuda a pensar o que é, com Lacan, ir além do inconsciente freudiano.

 

O tema deste Encontro, "Falar com o corpo – a crise das normas e a agitação do real", aponta uma nova ordem simbólica e um novo real, sobre os quais se apoia a prática analítica no século XXI. Somando-lhe o tema do ENAPOL VII, "O império das imagens", que aponta para um novo imaginário, temos a Configuração RSI sobre a qual se apoia o tema do X Congresso da AMP, "O corpo falante – sobre o inconsciente no século XXI". Essa entrevista com Ricardo Seldes é também um convite para visitarmos o site do Congresso, que está entrando no ar – www.congressoamp2016.com e para ficarmos atentos ao surgimento dos primeiros boletins Skabo, com notícias e textos rumo ao Congresso, que acontecerá no Rio de Janeiro, de 25 a 28 de abril de 2016.

 

Quem fala com o corpo? O que o corpo falante deve ao sujeito do inconsciente dos primeiros Seminários de Lacan? Que relação existe entre a histeria no último ensino de Lacan, que provocou uma animada Conversação no ENAPOL VI, e a histeria evocada por Miller no argumento do Congresso? Ainda podemos falar em histerizar o discurso?

 

Venham conferir!

 

Elisa Alvarenga

 

 

Entrevista a Ricardo Seldes por Elisa Alvarenga

 

1. Ricardo, sabemos que você presidiu o VI ENAPOL, em novembro de 2013, sobre o tema: "Falar com o corpo – a crise das normas e a agitação do real".  O que esse Encontro lhe ensinou sobre "falar com o corpo"? Quem fala? Podemos afirmar que o corpo fala? O que foi trabalhado nas plenárias e nas conversações que nos ajudaria a entender essa expressão de Lacan?

 

Ricardo Seldes: Minha experiência, ao presidir este invento espetacular da AMP e do Campo Freudiano que são os Encontros que chamamos ENAPOL, é que se trata de uma ocasião privilegiada para escutar falar os colegas, geralmente silenciosos, que têm sua prática nos lugares mais variados, consultórios ou instituições "psi", educacionais, jurídicas, em lugares urbanos ou periféricos. E eles falaram, ou melhor dizendo, conversaram em uma língua que não é dialeto, nem fechada, mas se mostraram subsidiários do ensino de Freud, de Lacan, da Orientação Lacaniana. Nesse coro polifônico, em alguns momentos atonal, aprendemos o bom uso que se pode fazer nestas épocas, de um analista ou do discurso analítico, e isso tanto nas plenárias como nas conversações, como nas propostas individuais das simultâneas que nos ensinam sempre como é possível aproveitar a psicanálise para haver-se com os mal-estares atuais. Em relação ao tema específico daquele Encontro, eu gostaria de destacar a tentativa de pensar a questão, essa questão misteriosa dos corpos falantes ou parlêtres, desde una perspectiva eminentemente clínica. Nos incluimos no debate sobre a época com nossa experiência e nos enriquece manter diálogos permanentes com outras disciplinas, sem transformar-nos em sociólogos, nem filósofos, nem físicos. Trata-se de pesquisar como a prática foi se modificando em muitos casos, antes de dar-nos totalmente conta dessas mudanças. Estes Encontros nos servem para ir em ambas as direções, tanto transmitir a prática de um modo condensado, evitando o blábláblá, como tratar de apreender as coordenadas teóricas que sustentam as mudanças produzidas pelos impasses na mesma prática, impasses que aumentam cada dia.


As grandes transformações que vivemos diariamente devido ao que não cessa de inventar-se, permita-me dizê-lo desta maneira, faz sintoma nos sujeitos tomados pelo que foram as tradições da experiência humana.
¿Quem fala, que corpo se põe em jogo por exemplo nos adolescentes que se cortam, em todo lugar, sem distinção de sexos, nem condições econômicas ou sociais, nem proximidade ou distância das grandes cidades? Esse foi um tema especialmente urticante nas apresentações. Fica por lhe responder que corpo fala…

 

2. No Seminário 20, capítulo X, Lacan diz: "Falo com o meu corpo, e isto, sem saber. Digo, portanto, sempre mais do que sei. É aí que chego ao sentido da palavra sujeito no discurso analítico". Você considera que este sujeito que fala com o corpo do Seminário 20 é o mesmo sujeito do inconsciente dos primeiros Seminários do Lacan? Ou seria ele mais próximo ao falasser (parlêtre) do Seminário 23?

 

Ricardo Seldes: Essas últimas classes do Seminário 20 são de uma sutileza única, e é na que você menciona que Lacan profere essa frase, que trabalhamos tanto no ENAPOL em Buenos Aires: "O real é o mistério do corpo que fala", e agrega "é o mistério do inconsciente". Uma complicação!!! É o próprio Miller que, para estabelecer o texto desta lição, deve pedir a Lacan para ampliar suas respostas. Não nos foi fácil localizar o problema, dito de forma muito livre (sem blábláblá), diria que ao colocar para ambos o mistério do real, trata-se de sua decisão de ir mais além do inconsciente freudiano. Miller consegue desarmar, na quarta lição do seu Curso Piezas Sueltas, a homologação do corpo que fala e do inconsciente. No caminho que vai do Seminário 20 ao 23, pode-se captar como a perspectiva borromeana localiza a disjunção entre o Real, o Simbólico e o Imaginário: são peças soltas, daí o título do Curso. E são os mesmos nomes que Lacan introduziu em seus primeiros cursos… Que fazer? Ficar só com o último ensino? Que digo, com o ultimíssimo ensino? Há muitas coisas para aprender com o percurso de Lacan, o caminho que vai de seus primeiros cursos até os últimos. E algo muito útil para o próximo Congresso é, por exemplo, a investigação sobre o uso do Eu nos primeiros tempos (na divisão entre o je e o moi), como Lacan foi deixando esta noção para transformá-la no sujeito do inconsciente, para finalmente abandonar o sujeito em prol do parlêtre e do ego. Tudo isso com a perspectiva que abocanhamos ao pensar no imaginario, no sujeito e em seu mundo, o que se arma a partir do fato que o gozo do próprio corpo exige satisfações. Mudou o gozo pulsional? Se Lacan nos convida a interrogar-nos sobre as modalidades de gozo de cada época, é porque nos coloca na pista de que há mudanças. Há novos destinos para a pulsão? Escutei algo desta ordem no ENAPOL VI.

 

3.   A "histeria rígida", que aparece no Seminário 23, deu o que falar no VI ENAPOL. A histeria hoje e no último ensino de Lacan, foi tema de uma das concorridas Conversações do Encontro. Qual seria a relação dessa "histeria rígida" com a histeria, tal como a introduz Jacques-Alain Miller no argumento do X Congresso da AMP – "quando há sintoma de sintoma"?

 

Ricardo Seldes: Gosto muito da lógica que seguem suas perguntas. Nesta lição do Seminário 20 que interessou a você (assim como a mim), Lacan localiza o fim do gozo em um lugar diferente da reprodução sexual. E se refere então à solidão, "aquele que fala só tem a ver com a solidão". E creio que é a isso que Lacan se refere na época do Seminário 24, quando propõe a histeria rígida, isto é, sem o parceiro que a interprete. Concebemos hoje um chamado ao Outro que não seja um chamado selvagem? É possível encarná-lo com alguém ou se trata de um vazio? Parece-me complicado não relacionar este vazio com os fundamentalismos que tentam recolocar aí o pai cruel, selvagem e, portanto, impotente, que desconhece o gozo feminino em todas as suas formas, em especial no que tem de inesgotável e criativo. Ou como dizemos hoje, é o princípio mesmo do regime do gozo, o do acontecimento de corpo, conjunto aberto e infinito.


A histeria, ou melhor dizendo, os histéricos, foram o parceiro necessário de Freud. Lacan apresenta a histeria sem o sentido. Que parceiro encarna hoje o analista? Daí sua pergunta pelo dois e a resposta que dá Miller: quando não se trata de passar pelo amor ao pai, o dois é o sintoma de sintoma. Não é pai, não é mãe, não é homem nem mulher. Trata-se desta conjunção (e disjunção) do gozo do corpo e do gozo das palavras. O que o sujeito encontra na psicanálise é sua solidão e seu exílio, seu estatuto de exilado em relação ao discurso do Outro. Esse Outro é o Um sozinho. Estamos muito longe das interpretações pelo lado da verdade e do sentido. Em todo caso, dizer histerizar o discurso, e eu continuaria dizendo, é colocar a questão em termos de que se capte a modalidade de gozo de cada um. Há histeria quando há sintoma de sintoma, e isso deve ser lido em termos de gozo e não de verdade.

 

4. Em "Joyce o sintoma", Lacan diz que a expressão falasser (parlêtre) virá substituir o inconsciente de Freud. Miller toma essa substituição como um índice do que muda na psicanálise no século XXI, que leva em conta outra ordem simbólica e outro real, diferentes daqueles sobre os quais ela se estabelecera. Você acha que "a crise das normas e a agitação do real" do VI ENAPOL e o "império das imagens" do VII ENAPOL dão a configuração RSI sobre a qual se apóia o tema do X Congresso da AMP? "Falar com o corpo", conferência de encerramento do PIPOL V, seria então precursora do argumento "O inconsciente e o corpo falante"?

  

Ricardo Seldes: Sim. Temos um RSI que vem do encerramento do Pipol V, onde Miller localizou a questão de "falar com seu corpo" e como o trai cada sintoma e cada acontecimento de corpo. Esse falar com o corpo está no horizonte de toda interpretação e de toda resolução dos problemas do desejo. E aqui me permito incluir a antiga fórmula do desejo do analista com sua derivação, na direção do que seriam seus fundamentos neuróticos. A jaculação do analista, seus murmúrios, o corpo em sua presença mais radical. Definitivamente se trata de outro Real, de outro Simbólico e do que nos propomos investigar sobre esse outro Imaginario do qual os jovens teriam muito a nos ensinar, com as formas nas quais se capta, como nunca, o Um sozinho e seus modos de fazer laço, o parlêtre e o mundo, os casais, o amor e as imagens que se deixam levar como o público que assiste a um show de Skrillex. É toda uma experiência seguir os gêneros dubstep, brostep e electrohouse com essas imagens alucinantes, soltas, Uns sozinhos em uma série próxima ao infinito, que produzem uma excitação espetacular nos corpos nos quais esse mix ressoa. Algo ressoa no corpo e faz com que o sintoma responda. Teremos a ocasião, no X Congresso no Rio, de verificar o que Miller nos propõe como "o que a análise pode fazer é concordar com a pulsação do corpo falante para insinuar-se no sintoma". Isso sim é ir mais além do inconsciente freudiano!!!