EBP Debates #019

 

Editorial

 Frederico Feu e Paula Borsoi


Caros colegas,


Nesta edição do EBP-Debates, na qual comemoramos 20 anos da criação da nossa Escola, pedimos a alguns de seus membros, uns mais antigos e outros recém chegados, para desenvolverem a seguinte questão: o que você destacaria como traço(s) de vitalidade de nossa Escola? Em que direção é ainda preciso avançar? Há algo que você identifica como um obstáculo a superar?


As respostas, vivas e engajadas, propõem de diversas maneiras um panorama atual da EBP, ao mesmo tempo em que afirmam o percurso de cada um, deixando claro o compromisso que norteia os membros de nossa Escola. É este o compromisso  ético da Orientação Lacaniana: manter a vivacidade da Psicanálise no mundo e fazê-la avançar.


Os leitores poderão verificar, nas reflexões que se seguem, o testemunho de uma comunidade produtiva e renovada, cujo vigor de transmissão se faz presente tanto nas atividades cotidianas como nos grandes  Encontros. Em tudo isso, é possível reconhecer o vivo do caminho percorrido e, ao mesmo tempo, os seus tropeços, sabendo que é preciso prosseguir levando em conta acertos e fracassos.


Agradecemos a todos que enviaram as contribuições para este EBP-Debates e desejamos a todos uma boa leitura!


 

Comentários:

 

Christiano Mendes de Lima (Uberlândia / MG)

 

Em primeiro lugar, gostaria de situar de que lugar falo.  Acabo de ser admitido como membro de nossa Escola. Situo o lugar, pois, neste momento, talvez possa pensar que sou um tanto êxtimo ao seu funcionamento institucional. Apesar disso, não sou um estrangeiro no que se refere ao nosso campo epistemológico, ético e clínico. Acompanho há muitos anos a EBP, em seus Encontros, Jornadas, cartéis, a produção escrita dos membros, publicada em revistas do Campo Freudiano e em livros. Posso dizer que orientaram minha clínica e causaram minha transferência de trabalho com a Escola. Destacaria que o traço de vitalidade da Escola se situa naquilo que é transmitido por seus membros: o desejo de contribuir com o avanço da Psicanálise. Embora a Escola – como toda instituição – tenha o desejo de se perpetuar, parece-me que não somos reféns da simples repetição porque temos um compromisso ético com a psicanálise de orientação lacaniana. Precisamos manter sempre viva esta posição: é a Escola que deve servir à Psicanálise e não o contrário.  Para isso, parece-me fundamental mantermos a política e a clínica da admissão de novos membros que a Escola e a AMP têm sustentado ao longo destes anos. Testemunho do lugar de quem passou duas vezes por este dispositivo e pôde recolher, em análise, efeitos subjetivos importantes.


Quanto a desafios e obstáculos a superar, gostaria de pensá-los a partir também do lugar em que me encontro. Desta vez, refiro-me ao lugar geográfico. Desenvolvo minhas atividades em Uberlândia que se situa no triângulo mineiro. Acredito que temos que fazer a Escola presente para além das capitais. Acho necessário uma maior interiorização da Escola, termos uma maior capilaridade. A EBP-MG tem feito um movimento importante nesta direção, na medida em que transmite atividades do Instituto e o Seminário de Orientação Lacaniana, atualmente, para Ipatinga, Montes Claros e Uberlândia. Temos que ampliar a possibilidade de as pessoas se aproximarem da Escola a partir dos cartéis. Acho que isto é necessário por uma questão ética e não só política. Prolifera pelo país todo um discurso cientificista que ataca a psicanálise e propõe modos de tratar o sofrimento psíquico que abole a dimensão do sujeito e da verdade. Também pululam associações que procuram unir a psicanálise com o discurso religioso e oferecer formação para analistas. Por razões consoantes com a ética da psicanálise, a Escola precisa se fazer presente no campo social e na saúde mental. Para isso, nosso desejo decidido e a tecnologia podem ser nossos grandes aliados.

 

À ESCOLA BRASILEIRA DE PSICANÁLISE, VIVA!!!!!
Leonardo Duarte Scofield (SC)

 

Muitos são os motivos pelos quais a EBP comemora seus 20 anos. Cada um a seu modo comemora um percurso nas estruturas e dispositivos da Escola. No que me concerne, há 15 anos, já sob transferência com o discurso analítico e com alguns analistas, recebi o convite para tomar um café e me surpreendi ao marcarmos na cozinha da EBP-MG.  A Escola assumiu então sua função de lugar, para além de sua estrutura física, um lugar de causa ao qual endereço minha transferência de trabalho desde então. Aliás, trabalho é o que não falta. Quantas são as Jornadas, Congressos, Colóquios, reuniões, revistas, jornais, boletins, fóruns... Para além de contabilizar a libido investida com tanto rigor epistêmico, clínico e político em tudo o que circula em nossa comunidade, podemos mensurar o quão Viva é a EBP.


Um dos traços de vitalidade que destaco na Escola é o efeito surpresa que permeia suas atividades. O efeito contingencial que ela produz em tantos de nós enquanto analistas, analisantes e nas funções que ocupamos em seus dispositivos. Os bastidores dos eventos, as comissões por traz de cada publicação, a voz e o olhar que marcam cada apresentação de trabalho, as festas e diálogos com outros saberes e o après-coup que testemunha da continuidade da formação.  A direção para a permanência dinâmica de seu lugar de causa me parece estar estabelecida e pode ser sintetizada pela orientação de Miller: "desmontar as defesas contra o real". Que a Escola e seus membros estejam abertos às contingências, colhendo e produzindo efeitos de ato para que possamos comemorar por vários anos, um a um, uma EBP viva. Viva a EBP!

 

Lucila Mariorino Darrigo (SP)

 

Na carta que J.A.-Miller remeteu à EBP, em março de 1995, desejando bom augúrio à Escola nascedoura, ele diz: "no Brasil, há entusiasmo e competência. Se vocês puderem distribuir convenientemente audácia e prudência, vocês tudo podem esperar."


Hoje, vinte anos depois, podemos fazer um balanço a partir do que vemos acontecer nesta Escola de múltiplos, neste país continental que abarca tanta diversidade em suas seções e delegações.


O último Encontro Brasileiro que aconteceu em novembro de 2014, em BH, parece ser um bom termômetro para tal e me faz ficar otimista em relação a como estamos avançando. Recortaria um aspecto: ficou patente que na Escola estamos atentos à subjetividade do nosso tempo e não queremos estar fora do debate das questões contemporâneas. Nesta ocasião, os convites de Jean Wyllys, Zuenir Ventura e Heloísa Buarque de Hollanda, pessoas que têm pensado e agido nesta estrutura mais do que complexa que é o Brasil, desembocaram nos momentos de maior entusiasmo do Encontro. Foram debates intensos, divertidos e, sobretudo, possíveis com a psicanálise. Desafio fundamental para manter o vigor do campo freudiano. Parece que há uma indicação de que além do entusiasmo e da competência inegáveis, a audácia e a prudência tiveram que estar postas para a realização de um evento tão bem-sucedido. Isso tudo intercalado por manifestações culturais emocionantes: dança, poesia, música…


Além, evidentemente, de inovações como a mesa do Cartel do passe que trouxe para o público, mais uma vez, uma ideia do rigor e da seriedade com que se trabalha nesta Escola.


Na minha opinião de membro "entrante", percebo a tenacidade de seus membros, um a um, diante dos desafios infinitos e diários que marcam a inserção de uma Escola num país tão múltiplo e singular como o Brasil.

 

Nora Pessoa Gonçalves (BA)

 

A EBP prima pela abertura à inovação, à invenção. Podemos avançar nesse caminho para desbravar o nó, a topologia que cria a matéria das inscrições do Parlêtre e, então, poder "pôr à prova um dizer", com a pragmática e a abdução abertos ao que pode ser, - um dizer que sirva -, da ordem do útil, do uso.

 

Notas:
Lacan, J. (2003). Prefácio à edição inglesa do seminário 11. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar ed, 2003, p. 567.
Miller, J.-A. O Passe do Falasser. In: Opção Lacaniana, 58. São Paulo: Eolia, out. 2010, p. 31-42.

 

 

Patrícia Badari

 

A EBP abriu seus ouvidos há 20 anos. Seguimos a orientação de Lacan em seu "Discurso de Roma" que nos disse: "Abram também os ouvidos para as canções populares, para os maravilhosos diálogos de rua... Neles vocês recolherão o estilo através do qual o humano se revela no homem (...)". Este é o traço de vitalidade da EBP. Esta é a direção que precisamos sempre avançar. Mas, não sei se este é um obstáculo a superar ou superável?!
A ciência visa superar! As "lutas da humanidade centralizam-se em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação que traga felicidade..." Mas, talvez, este seja nosso impasse, nosso fracasso e, justamente, a razão da psicanálise ainda existir. É o que verificamos na prática com o falasser. É o que verificamos com Lacan e Freud, nestes 20 anos e muitos anos por vir. "Somos tão jovens"!

Patricia Badari (membro da EBP/AMP)

 

LACAN J. "Discurso de Roma". Outros Escritos. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, p. 152

FREUD S. "O mal estar na civilização". Obras Completas. Imago, p.116.

 

 

Sandra Grostein (SP)

 

A EBP tem se mostrado uma Escola que caminha, mesmo que algumas vezes com morosidade. Vale notar que uma das principais consequências da experiência do passe de entrada, foi a de ter quase dobrado o número de membros num espaço de tempo muito curto. A crise de 98 fez o caminho inverso: a Escola encolheu, mudando novamente o quadro de membros de uma maneira importante. Acrescido a isto, tivemos o fechamento da entrada de novos membros por um período longo e o término da qualidade de aderente como modalidade de entrada na Escola, fazendo com que cresça em número de uma maneira muito lenta e gradual.


Se tivéssemos meios mais eficientes de controle da formação que a Escola dispensa aos seus membros, isto poderia proporcionar maior confiança em acolher novas modalidades de relação com a causa analítica daqueles que se aproximam, ampliando o contingente de colegas aptos a sustentarem o desejo de Escola. Somos muito poucos para tanto trabalho!

 

Sérgio de Castro (MG)

 

Claramente, em Minas Gerais, podemos falar de um antes e um depois da Escola Brasileira de Psicanálise. Certamente que no Brasil também, mas gostaria de me ater a um ou dois momentos pré- Escola em Minas. Uma grande dispersão clínico/conceitual marcava a psicanálise por aqui, que alguns confundiam com alguma virtude mineira, supostamente dada a convivência de termos e perspectivas díspares ou incompatíveis. Os primeiros contatos com uma leitura lacaniana de Freud, já numa vertente proposta pelo Campo Freudiano, produziram um enorme impacto na comunidade psicanalítica daqui, com rupturas, dissoluções e articulações de novos grupos. Esses, mais ou menos dez anos depois, convergem para a criação da Iniciativa Escola.


A partir daí, e já há trinta anos, trabalhamos, numa perspectiva que não me furtaria a chamar de amplamente superior e melhor que as outras, no que chamamos Orientação Lacaniana. Uma comunidade fecunda e produtiva se articula, o dispositivo do passe se instala e o vigor de nossa doutrina, com nossos Encontros, Jornadas, Congressos etc, se renova e atualiza em cada um deles.