Dobradiça de Cartéis

Março de 2015

DOBRADIÇA DE CARTÉIS Nº 18

Boletim eletrônico dos cartéis da EBP

 

Dobradiça de Cartéis

 

 

Editorial

Momento de concluir

Maria Josefina Sota Fuentes
(Diretora dos Cartéis da EBP)

 

Somos presenteados, neste momento de conclusão da nossa gestão e em que e a EBP completa 20 anos, com a feliz constatação de que o desejo de trabalhar em Cartel permanece hoje essencialmente vivo em nossa comunidade. Atualmente, mais de 500 cartelizantes, distribuídos nos 108 Cartéis declarados na EBP, trabalham a questão singular de cada um, nesse dispositivo criado por Lacan em 1964 no Ato de Fundação da sua Escola.

 

Na porta de entrada da EBP, o Cartel hoje acolhe aqueles cujas transferências de trabalho são endereçadas à nossa comunidade que nela se inscrevem como "cartelizantes", mas também mantém "de modo permanente a função do Uno, da Escola Una no trabalho dos seus membros" que também trabalham em Cartéis, conforme a orientação do Presidente da AMP, Miquel Bassols, conferida em seu discurso de posse em Paris, em abril de 2014.

 

Apostar no Cartel agalmatizando o dispositivo foi uma manifestação do desejo de Escola que procuramos sustentar nesta Diretora – orientação política que extraímos logo na primeira reunião da Comissão Nacional dos Cartéis da EBP, que se constituiu ela mesma como um Cartel.

 

Dar testemunhos de uma experiência, transmiti-la, foi uma tarefa da qual nos incumbimos nas atividades que envolveram os Cartéis na EBP. Para tanto, a Diretoria da EBP percorreu o Brasil acompanhando de perto cada uma das Jornadas de Cartéis nas suas Seções e Delegações.

 

Os 19 números do boletim Dobradiça de Cartéis foram concebidos dentro dessa orientação política. Neste último número, na Escrita cartelizante recolhemos produtos de Cartéis da Seção Bahia e da Delegação Espírito Santo; na Agenda dos Cartéis, as notícias das atividades que seguem, além dos registros das indagações de Cinthia Busato sobre o "Intercâmbio" relativo ao Cartel, e as Notícias do trabalho dos Cartéis na EBP-BA.

 

Depois de mais de uma década sem uma Jornada Nacional de Cartéis, realizamos, em novembro de 2014, o "Evento Cartéis" dentro do XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, para o qual todos os cartelizantes da EBP foram convidados a enviar trabalhos sobre "Os destinos do amor" – tema que serviu também de eixo de investigação do XX Encontro, que tratou do Trauma nos corpos, violência nas cidades.

 

O tema da transferência, o amor em psicanálise, sobre o qual muitos cartelizantes já vinham se debruçando, retoma os fundamentos da Escola e do próprio dispositivo do Cartel. Uma Escola de "trabalhadores decididos" já implica uma resposta à maneira como a Associação Internacional de Psicanálise concebeu o final de análise a partir da identificação ao analista e da liquidação da transferência – tese que Lacan rejeita com a noção de "transferência de trabalho". Com os restos fecundos das transformações do amor de transferência ao longo da análise, Lacan funda uma Escola a serviço, não dos analistas, mas da psicanálise, colocando em causa o desejo do analista, sem "lavar as mãos" em relação ao aspecto libidinal em jogo.

 

Se o aspecto ilusório do amor, engodo ancorado no imaginário, foi bastante elucidado por Lacan ao longo do seu ensino, no Seminário 20 o amor adquire um novo estatuto na função de estabelecer um laço, inexistente no real, ao Outro, conectando os significantes sem o qual seriam puras peças soltas sem sentido. Sem amor, dirá finalmente Lacan, não existe o inconsciente como suposição de saber – o que implica uma reformulação de sua tese de que o Sujeito Suposto Saber seria o pivô da experiência analítica . É por isso que uma análise exige do analisante amar seu inconsciente para fazê-lo existir como tal. E ao final da análise, para onde vai o amor? Ela o modifica? E o inconsciente, qual o seu estatuto ao final da experiência?

 

Estas foram algumas das perguntas levantadas no intenso trabalho do nosso Cartel. Decidimos, com o apoio da Diretoria da EBP e dos organizadores do XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, endereçá-las a cada um dos 5 integrantes do atual Cartel do Passe, convidando-os a falar sobre "O amor e o inconsciente ao final da análise" na Mesa Plenária do Evento-Cartéis, que contou também com a presença do Presidente da AMP, Miquel Bassols.

 

Recentemente, Ana Lydia Santiago, organizadora das noites do Passe da EBP-MG, convidou o nosso Cartel para prosseguir com o debate, chamando também dois AEs em exercício, Ram Mandil e Jésus Santiago, para discutirem o tema. Paola Salinas e Cristiana Gallo nos dão aqui notícias desta atividade que nos reuniu em Belo Horizonte, numa noite de trabalho inesquecível.

 

Entre as várias questões que surgiram no frescor do debate na Mesa Plenária do XX Encontro Brasileiro, Miquel Bassols surpreendeu-se com a palavra que então descobriu na língua portuguesa: o "endereçamento", que para ele evoca o movimento que tece em si mesmo um destino. Não há um destino como causa final para o amor, mas o próprio endereçamento é o destino, o caminhar que comporta uma satisfação e engendra um laço.

 

Assim, in love with the way, neste momento de concluir a nossa gestão e o intenso trabalho realizado no Cartel da Comissão Nacional dos Cartéis da EBP, resta-me agradecer a cada um dos 13 Diretores de Cartéis das Seções e Delegações pela riqueza do trabalho conjunto realizado, às minhas queridas colegas de Cartel, Paola Salinas, Inês Seabra, Cristiana Gallo, Cristiane Barreto e, claro, ao nosso Mais-Um, Carlos Augusto Nicéas, pelo trabalho decidido e pela arte deste encontro!

 

Encerro com o lindo poema que recebemos, no nosso Cartel, de Inês Seabra:

 

Poema do amor
                        Inês Seabra
O amor acontece e se desvanece
acende e queima,
a chama distante da felicidade.
Alimentado pela lembrança,
o amor é desvario e temperança,
fuga das palavras,
entrega sem vaidade.
O amor se modifica com a idade,
ganha-se em afeto, perde-se em confiança,
o amor é dessemelhança, incompletude,
existe para alguém, diferente e mutante,
longe do complemento, perfeito e apaziguante.
O amor pede por um outro,
pelo encontro, entre o sonho e a pele,
o entusiasmo e a despedida,
o cotidiano e o sem medida.
O amor é sempre único,
entre tantas idas e vindas.
O amor é um cego protesto,
repleto de esperanças e lutas,
sem conteúdo manifesto.
O amor é um regresso,
ao lado escondido, infantil e perverso,
mas é também a saída, a salvação,
o progresso de uma civilização,
perdida e sem coração.
O amor faz laço,

o primeiro passo, apenas.

 

Cf. MILLER, Jacques-Alain. "Uma fantasia". In Opção lacaniana, n. 42, fev/2005, pág. 8.

 

 

Testemunhos de um trabalho

Ressonâncias da Conversação sobre o amor, atividade sobre o Passe ocorrida na EBP-MG, dia 20/03/2015

 

Sobre a Conversação em Belo Horizonte

Cristiana Gallo
(Membro da Comissão dos Cartéis da EBP)

 

Finalizar a experiência de participação do Cartel da Comissão de Cartéis da EBP no encontro ocorrido na atividade da Seção MG no dia 20/03, foi mais uma vez ter a oportunidade de "fazer Escola", num laço que se ampliou para além dos seus integrantes.


As questões que atravessaram particularmente os participantes do Cartel foram relançadas num questionamento que envolveu a todos no "Evento cartéis" no nosso Encontro Brasileiro passado, com as elaborações acerca dos "Destinos do amor", e seguiu provocando o trabalho que culminou na Conversação em BH.


Os efeitos das questões lançadas pelo Cartel aos integrantes do Cartel do Passe permitiram avançar e delinear algo mais acerca do "amor ao real".


Seguindo no questionamento ao termo, por vezes a conversa pareceu tratar de "reais distintos": por um lado questionou-se se "o real seria amável?", ao lado de outro questionamento que incluía a possibilidade que se indicou de abertura à contingência, num amor que implicaria o próprio sintoma – "amor ao real no sintoma?".
Além disto, me pareceu interessante a formulação da possibilidade de "um real amor de si", no encontro com o vivo ao final da análise.


Destes questionamentos, no que se desdobrou de minha questão própria neste Cartel, me interessou pensar para além dos destinos do amor de transferência ao final da análise, os destinos do corpo ao final, naquilo que foi tocado como um novo uso da imagem – que condensa o imaginário da forma e a sua significação –, sem esquecer que estamos às voltas com "o mistério do corpo falante".


Encerro aqui para seguir com estas questões em outros Cartéis que já se iniciam!

 

Em si mais do que eu

Paola Salinas
(Coordenadora da Comissão dos Cartéis da EBP)

 

Este pequeno texto pretende dizer algo da experiência de Cartel na Comissão dos Cartéis da EBP. O dispositivo se deu conjuntamente ao trabalho da própria Comissão, que coordenei, mas num registro totalmente diferente.

 

O encontro, a presença, a hiância que este Cartel introduziu na gestão do trabalho, foi fundamental para este tivesse algo de singular.

 

Fizemos um percurso sobre o epistêmico do Cartel, chegando ao político, e concluindo em sua ética. Considerar cada um a cada vez, na maneira como se definem as coisas na Escola, é possível. Para além do individualismo, do narcisismo das pequenas diferenças de um grupo, incluir a particularidade é possível, ainda que como mira, numa posição que diz da ética.

 

Uma interessante discussão se iniciou a respeito do amor, do amor ao final de análise, que necessariamente incluiria o ponto mais radical do gozo do sujeito, o ponto opaco do sinthoma. Como pensar novamente um laço amoroso ao final de análise, quando o parâmetro do Outro cai, mas não se opta pela deriva do nonsense, ou mesmo pela solidão radical?


Assim falar sobre "um amor ao real", expressão que colhemos de alguns testemunhos da ECF e posteriormente trabalhamos a partir dos textos do Cartel do Passe da EBP para o Evento Cartéis, foi um ponto interessante que, a meu ver, aponta uma articulação entre o real, o em si, ponto radical do sujeito, muito diferente do eu especular.


Como então retomar laços, na vida, no amor, na Escola, incluindo algo desse em si, que Miller trabalha no ultimíssimo Lacan, que diz respeito a cada um, ao corpo, ponto singular que não se liga a nada?
A noite em BH me disse do laço, do laço possível apesar do impossível de cada um. Do laço de trabalho e de um amor ao trabalho, de um amor para além do eu.


Agradeço esse encontro, com o Cartel, no Evento-Cartéis, e na Conversação em BH. Passos na trilha constante da Escola.

 

Intercâmbio: do resto fazer causa

Cinthia Busato
(Diretora de Cartéis e Intercâmbios da EBP-SC)

 

Durante esses dois anos como Diretora de Cartel e Intercâmbio, sempre estive intrigada com o significante "Intercâmbio" inscrito nessa nomeação. O Cartel é um dispositivo imprescindível tanto epistêmica quanto politicamente dentro da nossa Escola. O saber construído num Cartel, exatamente por poder ser construído entre vários mas com a marca da singularidade que tanto nos interessa, é imprescindível como célula máter dentro desse organismo maior que é o discurso da psicanálise. Politicamente é importante porque nos lembra a todos da importância da ousadia, da autoria, e, principalmente, nos orienta para manter o furo no saber e nas relações institucionais, já que o produto de um Cartel sempre carrega o limite do poder dizer tudo, como sempre, mas a partir de uma posição implicada, "por sua conta e risco".

 

Mas e o Intercâmbio? Tanto dentro do Cartel quanto na relação com outros saberes, é no encontro com a diferença que podemos ver com mais clareza os efeitos do discurso da psicanálise e da orientação lacaniana nos laços sociais. Por isso acho imprescindível que a Escola esteja orientada sempre nessa direção. Como criar espaços dentro da nossa Escola para que esta orientação se cumpra?

 

Aqui na Seção Santa Catarina foram realizados três encontros com professores da rede pública de ensino e vários outros interessados em temas da intersecção entre psicanálise e educação. Foram encontros que tiveram grande participação. Também existe um espaço chamado "Psicanálise e conexões", coordenado por Luis Francisco Camargo, que trouxe muitos convidados e temas interessantes, fortalecendo esse intercâmbio com a cidade e trazendo discursos outros para enriquecer nossos debates. Acho de extrema importância esse espaço, inclusive como possibilidade de encontro e formação de novos Cartéis, mas também para nos fazer dialogar com a diferença seguindo a orientação lacaniana em direção ao real, que sempre resta. Que reste como causa de desejo e não como horror da diferença, é o que possibilita o avanço da psicanálise.

 

 

Escrita cartelizante

Trabalho apresentado na Noite de Cartéis da Delegação ES

 

Um, objeto a e o Outro

Hítala Maria Campos Gomes

 

Cartel: "O Seminário livro XVI, De um outro ao Outro"

 

De acordo com Miller (1998), não podemos pensar ou operar o sujeito da psicanálise sem levar em consideração o Um. Este pode aparecer de diversos modos: Um do significante, Um do Outro, Um fálico, Um da relação sexual, Um da identificação.


Ao longo deste Seminário, Lacan parte do traço unário numa tentativa de definir este Um, além de trazer questões da matemática e da filosofia como modo de auxiliar neste desvelamento. É interessante a maneira como ele modifica a visão do Outro, que aparece aqui como inconsistente e numa relação de proximidade com o Um: tanto o sujeito necessita do Outro para se constituir enquanto tal a partir do discurso, quanto o nascimento do Outro se dá a partir do grito de alguém (Miller, 1998).


Segundo Lacan (2008), os mecanismos do inconsciente definem uma estrutura lógica mínima sob os termos diferença e repetição. Por um lado, o significante se sustenta numa diferença absoluta, naquilo que os outros diferem dele, por outro lado, o significante funciona numa articulação repetitiva.
Desse modo, apesar de introduzir a unidade e a mesmice que se repetem na cadeia significante, o Um é ainda o suporte da diferença.


Lacan (2008, p. 195) também acrescenta que, pela descoberta do inconsciente, o objeto a pode renovar-se conjugando repetição e diferença.


Dessa maneira, fica difícil pensar sobre o Um sem levar em consideração o que Lacan elabora sobre o objeto a, pois mesmo eles sendo distintos, existe uma ligação/relação entre eles.De acordo com Miller (2007b, p. 20) "[...] a perda que visamos na psicanálise como a do objeto perdido, não é mais do que um efeito da posição do 1 ou do traço unário, como Lacan traduziu Freud".


Portanto, pretendo com este trabalho trazer questões que se relacionam mais com a prática clínica, pois todo o esforço do Lacan é distinguir a psicanálise de outros tratamentos que retiram do sintoma os traços de subjetividade e, também, a responsabilidade do sujeito e a possibilidade de se orientar no que causa sua vida. "Trata-se, então, de mostrar como a psicanálise de orientação lacaniana pode ser diferente, privilegiando o que há de único em cada sujeito a partir de duas referências essenciais a este: o dizer e o real" (Lacadée, 2008).


A experiência de análise confronta-se a todo tempo com um efeito de perda, que muitas vezes é visto como um prejuízo imaginário, uma ferida narcísica, imputando-o a relação com o semelhante. Porém, Lacan (2008, p. 125) aponta o efeito simbólico desta perda: "Esse efeito simbólico inscreve-se no vazio que se produz entre o corpo e seu gozo, na medida em que é a incidência do significante, ou da marca, isto é, do que chamei há pouco de traço unário, que o determina ou que o agrava".


É na medida em que quer ser o Um no campo do Outro, que o neurótico se vê confrontado com os problemas narcísicos. A idealização desempenha aqui um papel primordial. É pela captura imaginária que se apresenta para o neurótico o problema do objeto a. Trata-se da impossibilidade de fazer o objeto a entrar novamente no plano imaginário, em conjunção com a imagem narcísica (Lacan, 2008, p. 251).
Mas para que a falta apareça, para que falte alguma coisa, é preciso uma contagem. No momento em que há contagem, há também seus efeitos na ordem da imagem.


Para que haja simbólico é preciso que se conte pelo menos 1. "[...] acreditou-se que contar podia reduzir-se ao Um, ao Um de Deus – só existe um – , ao Um do Império, ao Um de Proclo, ao Um de Plotino" (Lacan, 2008, p. 291).


O Um em Lacan não é muito simples, mas há um esforço neste Seminário, ao trazer os aspectos matemáticos, de mostrar seu funcionamento como 1 numérico, ou seja, aquele que gera uma infinidade de sucessores, desde que haja um zero. Este zero não significa um nada, mas justamente está na ordem do que falta.
Essa contagem situada no simbólico tem efeitos no imaginário: "a contagem tem o efeito de fazer surgir no nível do imaginário aquilo que chamo de objeto a" (Lacan, 2008, p. 291).


Tais efeitos do a no campo imaginário implicam que o próprio campo do Outro é em forma de a, isto significa que há um furo no campo do Outro. Lacan se referirá a isso como "em-fôrma de A". Este "em-fôrma de A" indica que é impossível ao sujeito apreender o Outro.


Restituir esses efeitos do pequeno a ao Outro é a essência da perversão. O perverso é convicto no fato de que o Outro existe e se consagra a tapar o buraco desse Outro. O essencial nessa relação do que falta ao Outro é a função de suplemento.


O neurótico, ao contrário, não visa uma função de suplemento, ele não mascara esse furo, mas sim, exerce uma função de complemento no Um (Lacan, 2008, p. 252).


Na prática psicanalítica, o sujeito ocupa um lugar primordial. Este se apresenta a todo o tempo com uma autonomia singular e uma mobilidade que não se iguala a nenhuma outra, "uma vez que quase não há nenhum ponto, no mundo de seus parceiros, sejam eles considerados semelhantes ou não, que ele não possa ocupar" (Lacan, 2008, p. 299).


Nessa relação do sujeito com o Outro como estruturado pode surgir o que se anuncia como sendo uma demanda. É possível encontrar na demanda um objeto a, este é o ensejo de Lacan para marcar que, o que é demandado, trata-se de um lugar. Lacan (2008) é claro neste Seminário ao apontar que o lugar do Outro é o corpo.


A experiência de análise dá um novo sentido aos jogos do significante relacionados ao sujeito, ao colocá-lo como unicamente responsável pelo que faz com seus determinantes. A psicanálise, ainda, dá a possibilidade ao sujeito identificado com o objeto a de se transformar no que verdadeiramente é, ou seja, um sujeito barrado.


A clínica psicanalítica oferece, então, ao significante privilegiado neste registro a possibilidade "[...] de ser o mais sumário, de ficar reduzido ao que Freud designa como sendo, pura e simplesmente, a marca, a função como que única, do 1" (Lacan, 2008, p. 308).


Para Lacan (2008, p. 303), o sujeito é esse próprio a inscrito no em-fôrma de A, na medida em que ele só pode ser representado por um representante, que no caso, é S1. "A alteridade primária, a do significante, só pode exprimir o sujeito sob a forma do que aprendemos a delimitar, na prática analítica, por uma estranheza particular".


Dessa maneira, o a seria o que há de mais estranho para representar um sujeito (extimidade). O menos estranho seria o traço, o vestígio, a marca. Ao falar desse vestígio, Lacan (2008) aproxima-se do que Freud chamou de traço unário. Esse vestígio não é nem significante, nem sinal, trata-se do gozo do Outro que precisa ser apagado. Ele passa para o em-fôrma de A de acordo com as diversas maneiras que é apagado, com isto há uma exigência que o vestígio faça um pequeno a que funcione no nível do sujeito. Tal objeto é único e específico para cada um. Não basta dizer que o sujeito não deixa vestígios, pois justamente o que diferencia o ser falante do animal, é que ele pode apagar seus próprios vestígios, como sendo seus. "Isso basta para que ele possa fazer outra coisa que não vestígios – fazer, por exemplo, encontros que ele marca consigo mesmo." (Lacan, 2008, p. 304).


O sujeito é a maneira pela qual apaga os vestígios. O objeto a (aquilo em que o sujeito pode encontrar sua essência real como falta-de-gozo)seria aqui uma possibilidade de apagá-los, que talvez já indicaria algo de um semblante, formulado posteriormente por Lacan.


Este sujeito que apaga seus vestígios se trata daquele que substitui seu vestígio por sua assinatura. Isto significa que apagar é uma possibilidade de entender alguma coisa e de se apropriar do vestígio, assumindo-o enquanto gozo.


A descoberta psicanalítica freudiana é decisiva no momento em que revela a relação entre a curiosidade sexual e a ordem do saber. Isso significa que há junção entre o a e o campo do Outro, na medida em que nele se ordena o saber, tendo no horizonte o campo proibido do gozo.


Portanto, para ter o desejo de saber o sujeito precisa de ter falta de gozo. O desejo de saber se designa como essencial para a posição do sujeito.


De acordo com Lacadée (2008, p. 8):

 

É isso o que há de único em cada caso, é o não saber do que se fala, pois é deste não saber que o sujeito reencontrará o que dele, está em sofrimento, seja esta parte do ser que é uma verdade em sofrimento e que se goza no silêncio da pulsão de morte. É esta letra em sofrimento, que Lacan nomeou também de objeto a.

Na psicanálise é justamente a partir do objeto a que o sujeito toma a palavra, fazendo valer o que há de único em cada sujeito, e a maneira como ele se arranja de acordo com a modalidade de uma amarração. "É a maneira como cada um usa seu sintoma como modo de gozo. Mas também, é a maneira pela qual cada um fica doente [...]" (Lacadée, 2008, p. 7).


Desse modo, a psicanálise oferece ao sujeito, frente à verdade de que se sofre, a decisão do saber e sua possível tradução.


Fico hoje por aqui. Já entramos na reta final do Seminário e, consequentemente, estamos nos aproximando do fim do Cartel. Já não vejo mais como possível distinguir os temas e conceitos que escolhemos (Um, objeto a, gozo, verdade), pois todos se encontram de algum modo ligados. Chama-me também a atenção como este Seminário é atual e como já antecipa muito do que o Lacan irá trabalhar posteriormente.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CHATELARD, D.S. "Do número". In: Sofia, vol. 8, n. 09 e 10, 2002.
LACADÉE, P. "O que há de único em cada sujeito". In: Opção Lacaniana. São Paulo: Edições Eólia, n. 51, 2008.
LACAN, J. O Seminário livro 16: de um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.
MILLER, J.-A. Los signos del goce: los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 1998.
MILLER, J.-A. "Uma leitura do Seminário, livro 16: de Um Outro ao outro". In: Opção Lacaniana n. 48, 2007 (a).
MILLER, J. -A. "Uma leitura do Seminário: de Um Outro ao outro". In: Opção Lacaniana n. 49, 2007 (b).

 

 

Trabalhos de Cartéis da EBP-Bahia

 

O aparelho sinthoma: as coordenadas do final de análise

Luiz Gonzaga Sanseverino Junior

 

O final de análise se aproxima quando, a partir de um trabalho de redução, efeito do processo analítico, emerge o resto incurável, sinthoma. O desejo do analista é a resposta capaz de fornecer suplência, a isso que resta incurável em seu caso, seu resto de gozo, seus restos sinthomáticos. A lógica é que o trabalho de análise circunscreva o objeto a e daí resulte a maneira de se lidar com isso: invenção/sinthoma.
Portanto, a direção da cura é visar a. Isso leva à letra de gozo. E gera sinthoma.


O aparelho sinthoma pode ser pensado como um equipamento formado pelos seguintes elementos:


a) Como o que se identifica no final de análise em suas coordenadas de restos sinthomáticos.


b) Sinthoma, em sua outra coordenada matemática, como o que amarra os três registros, invenção para dar conta de sinthoma como letra/resto de gozo.


Então temos:


- Sinthoma-invenção: amarração dos três registros via quarto nó.
- Sinthoma-letra de gozo: restos sinthomáticos incuráveis. Portanto, no final de análise, o falasser deve se identificar a isso: sou isso e operar a partir desta referência, sinthoma, fazendo dela a causa de seu desejo do analista.


O desejo do analista surge, portanto em função deste incurável, sinthoma, como única resposta possível, capaz de dar conta disso que permanece como resto vivo de seu processo.


Trata-se então de ver a própria marca e fazer dela sinthoma, como algo irredutível, que não mais se divide, algo que condensa seu resto de sofrimento, seu gozo.


A direção é "tirar da frente" estes restos e operar tomando-os como referência, na prática mesmo da vida do cotidiano, do ir em frente de certa maneira, "livre", sabendo fazer com isso que resta incurável de seu caso.
É o savoir y fare com seu sinthoma.


Então existe uma marca, sinthoma, isso que opera como resto incurável, e que nos trabalhos dos AEs nos é indicado pela letra de gozo, via sua face significante, do que resta insondável na raiz do sinthoma, incrustado no real do corpo, a face de gozo da letra.


O trabalho de análise leva o falasser a encontrar esta marca, transformá-la em referência, permitindo então uma nova maneira de viver: sinthoma no final de análise.


Portanto, entendo sinthoma como uma estrutura que indica as coordenadas do final de análise.
O final de análise é obter um certo vazio. Vazio de gozo. É poder manter o que causa sintoma fora do caminho e ir em frente.


Ir além. Não é ficar fixado a um resto sinthomatico. É servir-se dele como referência e ir além. É ir além das marcas sabendo fazer com elas. É tomar uma certa distancia de seu modo de gozo. E 'saber fazer ali com a singularidade de sua marca sinthomatica'1 .

 

O AE nos ensina que o que enoda é uma amarração borromeana: sinthoma.


O que faz obstáculo é sintoma.


Lacan em Lituraterra nos ensina que a letra em sua face de gozo faz conexão com o real do corpo. E que o significante é a face simbólica da letra.


Portanto, ao encontrar no final de análise, frente aos restos sintomáticos incuráveis dos quais não é possível se livrar, a solução, é identificar-se a eles: eu sou isso. Então, é importante saber lidar com a letra de gozo, via sua face significante, que é o que aparece ao analista, advertido, no entanto, de sua face de gozo, insondável para dentro do real, a raiz do sinthoma.


Sou isso: letra de gozo. Invento isso: sinthoma.


É um saber lidar, savoir y fare com seus restos incuráveis, continuadamente, pois que o vivo, sob o efeito do que resta do supereu, assim o exige.


Quando isso desenlaça é a morte que aparece plena e perto, semblante de um supereu feroz, incurável e implacável, restos da história, cuja única maneira de lidar é enfrentar posicionando-se firmemente, continuamente, frente a Isso, de maneira a não se deixar esmagar até a morte, pelo silencioso da pulsão de morte, algo que opera silenciosamente, camufladamente, clandestinamente, na direção de desfazer, desamarrar o que foi enodado, levando ao horror.


Horror de tempestades fantasmáticas, provenientes das coisas da vida, encontradas em função de contingencias, do normal da contingência no dia-a-dia que, quando sintomática, toca nos restos incuráveis, ativando-os e causando queda das suplências, levando, portanto, a imersão do horror, do sintoma.
Frente a isso, se existe desejo do analista, a única coisa a fazer é re-enodar, via savoir y faire, via sinthoma, registro de letra, marcas, tesouro produzido como efeito da análise, capaz de fazer suplência ao que emana da letra de gozo, tendendo a levar ao horror.


Então, a saída do que faz labirinto acontece via amarração borromeana. É obvio. É fazer um bom nó em torno do que resta de a, continuamente, e ir em frente. É não se deixar levar pelo que desamarra, pelo supereu.
Restos de a como referência sinthoma, como o que condensa os restos sinthomáticos, a letra de gozo, pedaços de real. Isso que nos aponta Ana Lucia Lutterbach Holck em seu Passe, ao encontrar seu final de análise.


É um poder ser piloto de sua subjetividade, na medida do possível, para cada um.
Piloto-invenção sinthomatica no final de análise, posição do falasser sustentada no desejo do analista.
E isso nos leva a outra vertente do desejo do analista, que é a de poder ocupar esta posição para outro analisante.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LUTTERBACH HOLCK, A. L. "Relato". In: Opção lacaniana, n. 50. São Paulo: Ed. Eólia.
HORNE, B. "Ser o Sinthoma". Texto trabalhado no âmbito do curso Uma orientação ao real, acontecendo no Instituto de Psicanalise da Bahia, 2013.
HORNE, B. "Acontecimento". Op. cit.
LACAN, J. O Seminário: livro 23 - O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
LACAN, J. O Seminário: livros 22, 24, 25. Inéditos.
LACAN, J. "Lituraterra". In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
LAURENT, E. "Falar com seu sinthoma, falar com seu corpo". In: Correio, n. 72, Revista da Escola Brasileira de Psicanálise.
MILLER, J.-A. "O inconsciente e o sinthoma". In: Opção lacaniana, n. 55, São Paulo, Ed. Eólia.


1 Bosquin-Caroz, P. "Um ajuste permanente". In: A ordem simbólica no Século XXI, textos. AMP. 2013, pág. 295.

 

Topologia: uma introdução

Paula Catunda

 

O conceito de estrutura borromeana começa a aparecer no ensino lacaniano com a ideia de que o "Outro não existe". A partir desta mudança, Lacan recorre à topologia para pensar a estrutura fora da referência ao Outro.


O Real, Simbólico e Imaginário passam a mostrar um modo de funcionamento do sujeito. São três registros que estão justapostos, mas separados no sujeito neurótico. O quarto nó é que vem reparar essa falha, dando consistência à estrutura pela amarração dos três registros. O quarto nó é o que nomeia; ao nomear, a suplência acontece.


São várias as possibilidades de suplência para enlaçar os nós; cada um vai inventar o seu modo. A suplência responde à falta de significante, à falha do Outro. Suplência, portanto, como o que repara, constrói, permitindo ao sujeito um certo tipo de funcionamento: sinthoma.


O Nome-do-Pai é o que nomeia, o que faz uma amarração. Lacan, lê o trio freudiano de Inibição, sintoma e angustia como possíveis Nomes-do-Pai que podem desempenhar o quarto nó que impediria a dispersão dos registros. Trata-se das nomeações que enlaçam: Imaginária, Simbólica ou Real. São formas neuróticas de reparação. Suplência seria o que está no lugar de uma conexão que não se faz, garante uma estabilização.

 

Na perspectiva clínica, Nieves Soria afirma que, quando um sujeito chega ao analista com uma estrutura nomeada pelo real da angústia, a intervenção que mais convém é pela via da construção, porque o sujeito angustiado é um sujeito que está desarmado diante de um gozo de um Outro sem barra, um gozo sem limite. Nesse caso, é contraindicado trabalhar pela via do equívoco que venha a deixá-lo perplexo. Esse tipo de intervenção é mais indicado para os casos em que os sujeitos vêm com a estrutura enlaçada pelos sintomas, sustentados pelas identificações com os traços. Já para os sujeitos que chegam com a estrutura nomeada pela inibição, a manobra mais profícua seria a perturbação da defesa.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Soria Dafunchio, Nieves. Seminários: clínica da sexuação. Salvador, BA. Inibição, sintoma e angústias: uma clínica nodal das neuroses. Recife, PE. Salvador: IPB, 2013.

 

 

Notícias dos Cartéis na EBP-Bahia

 

Cartel "Política lacaniana e CIEN"

Ana Martha Maia

 

 

O que possibilita a realização de uma conversação interdisciplinar, no âmbito do CIEN? O impasse, a interdisciplinaridade, o analisante esclarecido, o vazio pulsante, a presença de um AE nas Manhãs/Tardes de Trabalhos do CIEN Brasil e nas Jornadas Internacionais são termos conceituais que orientam esta proposta singular de trabalho nos laboratórios e circunscrevem o tema deste Cartel da EBP-Bahia.

 

A pesquisa segue esta direção, buscando no ensino de Lacan, nos cursos de orientação lacaniana apresentados por Miller, e na contribuição de Laurent, consultor permanente do CIEN, como responder esta questão levantada, que se desdobra em temas individuais dos participantes do Cartel. Solidão subjetiva, impasses interdisciplinares, política lacaniana, formação do analista, política do Bem, singular e não-todo, e práticas da psicanálise em extensão, constituem estes temas.

 

No autismo do gozo, o falasser está sob domínio do Um: "Quem fala só tem a ver com a solidão", diz Lacan, no Seminário 20. Nas palavras de Miller: "O sujeito é fundamentalmente companheiro de sua solidão" (Los signos del goce).

 

As experiências relatadas pelos laboratórios do CIEN abordam, de formas diferentes, o que cada participante faz com a oferta da palavra em uma conversação, atividade coletiva que se realiza a partir de um impasse que se coloca para crianças, adolescentes e profissionais que, cotidianamente, lidam com eles nas instituições sem, entanto, propor uma saída para todos. Cada um toma a palavra, na solidão do seu dizer. No CIEN, no Cartel, na Escola, esta é uma bússola que orienta.

 

Da leitura de Teoria de Turim, apreendemos com Miller (2000) que a Escola é "uma soma de solidões subjetivas". Sendo assim, como manter em uma prática de Escola, o paradoxo de "reunir" diferentes modos de gozo em torno de um Ideal, "sem fazer desaparecer a solidão subjetiva"? Como sustentar uma conversação interdisciplinar que não perca de vista a solidão do Um, possibilitando invenções singulares, sem cair em generalizações protocolares?


 

Este é o percurso inicial do trabalho neste Cartel.

Cartel composto por: Karla Maul, Paula Goulart, Vanessa Leite e Wilker França e Ana Martha Maia (Mais-Um).

 

Cartel: "O Cien frente aos impasses da criança e do adolescente na hipermodernidade"

Daniela Araújo

 

Este Cartel vem funcionando desde 05/09/2013, movido por discussões acerca, não apenas do tema e da teoria, mas também pela interlocução com a própria prática do Cien e de seus laboratórios da Bahia.
Um destes laboratórios, "A criança na hipermodernidade", esteve em ação durante alguns meses em duas Escolas. De uma delas, quando já passado um tempo do fim das conversações, surgiu um novo convite de retorno à instituição. A demanda: presença de um profissional clínico para falar sobre a criança e suas relações com escola e família.


Tal demanda causou questionamento que toca o tema de uma das participantes do aqui antes referido Cartel: "diferenças entre a prática no CIEN e a prática na clínica". O que, afinal, pede a escola no segundo momento? No só-depois das primeiras conversações foi possível perceber quais efeitos foram gerados na equipe interdisciplinar. Provavelmente, frente ao não-saber-fazer com situações ali cotidianas, a escola, causada e no desejo de saber algo mais, recorreu ao mestre.


Para Philipe Lacadée (Revista CIEN Digital número 2), "seguindo Jacques Alain-Miller, conversação seria a possibilidade de favorecer a enunciação que permite para aquele que se aventura nessa aposta, na qual nada está garantido – não uma preocupação terapêutica, em todo caso –, que um saber inédito possa ser dito". Mas que possa ser dito pela equipe e não pelo profissional clínico. Portanto, parece que a questão não passava, então, nem pelo que tange à prática do Cien, tampouco à prática clínica. Buscou-se a presença de alguém que pudesse dar conta das demandas da equipe escolar. Quando em verdade, tal qual na clínica, é importante que eles mesmos – crianças e equipe – possam inventar, minimamente, um saber-fazer com seus impasses.


Cartel composto por: Daniela Araujo, Élia Cardoso, Ethel Poll, Jaqueline Simhon e Mônica Hage (Mais-Um).

 

Cartel: "O real na clínica com criança"

Ethel Poll

 

No Cartel "O real na clínica com criança", iniciado em 21/05/2014, durante esses últimos meses foram discutidos textos referentes à angústia na clínica com criança, fazendo um percurso de Freud a Lacan e visitando autores contemporâneos.


Em 06/09/2014, na Jornada de Cartéis da Seção Bahia, o Cartel teve a oportunidade de apresentar um primeiro produto através da contribuição da cartelizante Ethel Poll, que trabalhou o tema – "Adolescência: novo enodamento". O texto apresentado abordou as transformações ocorridas com a criança na saída da infância, a partir das mudanças corporais, salientado o estatuto corporal – libidinal e real, de onde então é preciso uma nova ordenação, a construção de uma resposta frente a um vazio que se instala mediante a falta de saber sobre o que fazer com essa irrupção de gozo.


Uma orientação possível apontada no texto para esta construção seria a escolha de um sintoma com uma envoltura significante assegurada pela função paterna. A discussão sobre o tema esquentou no tocante às dificuldades dos jovens na contemporaneidade encontrarem esta ancoragem na autoridade exercida pelo nome do pai. Se o "Outro não existe" e se a ordem simbólica não se sustenta mais no Nome-do-Pai, as crianças e os jovens respondem com novas nomeações e novos sofrimentos, exigindo uma posição mais ativa do analista.


Finalizando as reflexões acerca do tema, a cartelizante ressaltou a importância de o analista nessa nova clínica poder ler e escutar o novo, a invenção possível, que cada um, na sua singularidade, poderá engendrar.


Composto por: Daniela Araujo, Ethel Poll, Eva Pereira, Fernanda Dumet, Vanessa Leite e Fátima Sarmento (Mais-Um).

 

Cartel: "Psicanálise e arte contemporânea"

Luto e melancolia no cinema de vanguarda

Késia Ramos

 

O trabalho do Cartel sobre "Psicanálise e arte contemporânea" tem permitido debruçar-me sobre este tema conduzida pela ideia principal: O que a arte ensina à psicanálise?


Sigmund Freud e Jacques Lacan propõem que a arte está do lado enigmático do saber do artista e que a psicanálise não se aplica à arte, mas a arte que se aplica à psicanálise.


Em Frankfurt, ao receber o prêmio Goethe, Freud atribui aos artistas a descoberta do Inconsciente. Eles, pela sua sensibilidade, seriam os responsáveis por materializar nas suas produções o que circula silenciosamente em cada tempo.


Que sujeito é este que a arte nos fala nas formas contemporâneas de cinema, dança e a literatura? É necessário haver um sujeito da arte ou delegamos à obra? Ou mesmo, existe arte ou artista? E, por fim, quais os desafios contemporâneos que a arte faz ver na clínica de hoje?


Em nossos encontros servimo-nos portanto de um dispositivo da contemporaneidade (a tecnologia), para que todos do Cartel dialoguem com o Mais-Um por meio de vídeo-conferência. Sentimos que este formato também promove uma troca de ideias e a nossa palavra se enlaça ao coletivo e, assim, cada uma produz seu escrito próprio.


Para a minha produção, partirei do cinema de vanguarda do cineasta Lars Von Trier em seu filme Melancholia (2011).


Que compreensão poderíamos ter dos textos Freudianos a partir deste filme?
O que este filme poderá nos ensinar sobre o luto e a melancolia, facetado com nuances próprias da contemporaneidade?


Composto por Florina Mongovi, Débora Rocha, Késia Ramos, Ana Cabral e Marcela Antelo (Mais-Um).

 

Cartel: "Fundamentos teóricos sobre o início do tratamento"

 

Este Cartel iniciou suas atividades em 05 de abril de 2014. O percurso de estudos se deu a partir de discussões clínicas em torno dos impasses no início do tratamento, tais como: 1) O que se escuta de um trauma nas entrevistas preliminares? 2) Como se maneja a transferência no início do tratamento? 3) O que da estrutura do sujeito se pode escutar a partir da transferência neste momento preliminar? 4) E além disso, apareceu a questão da contemporaneidade por via tanto do conceito da interpretação, quanto dos efeitos do discurso capitalista no sujeito.


Para dar suporte teórico ao que adveio da clínica, iniciamos nossa pesquisa a partir de Freud, com o texto Inibição, sintoma e angústia, passando por artigos técnicos, dentre outros. Consultamos Lacan em alguns Seminários, assim como a JAM e outros autores contemporâneos.


Como fruto das nossas pesquisas, participamos do Núcleo de Psicose do Instituto de Psicanálise da Bahia com a apresentação e discussão de um caso clínico abordado a partir dos temas de Priscylla Guedes – "A definição da estrutura a partir da transferência", de Júlia Jones – "Manejo da transferência no início do tratamento", Wilker França – "Trauma e violência no início de uma análise" e o de Tânia Abreu – "O que se escuta do trauma no início do tratamento". Daniela Araújo também apresentou um trabalho na Jornada de Cartéis da EBP-BA, nomeado "Pontuações acerca do trauma no início do tratamento", posteriormente publicado no Boletim "Vixe!" n. 6 (Boletim Eletrônico preparatório para a XIX Jornadas da EBP-BA).
Durante as Jornadas da EBP-BA, em outubro de 2014, Priscylla Guedes e Wilker França apresentaram mais dois trabalhos, dando continuidade aos seus temas de pesquisa, assim como Júlia Jones o fez no XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano em novembro de 2014.


Para 2015, pretendemos pesquisar o que é o "preliminar" na Orientação Lacaniana, considerando que procurar uma análise é diferente de entrar em análise.


Escrito pelos integrantes do Cartel: Bruno de Oliveira, Daniela Araújo, Júlia Jones, Priscylla Guedes, Wilker França e Tânia Abreu (Mais-Um).

 

 

AGENDA DOS CARTÉIS NA EBP

 

Delegação Paraná

Responsável pelos Cartéis: Cesar Skaf

 

XVI Jornadas de Cartéis da Delegação Paraná


Data: 23 de maio
Local: Sede da Delegação PR.
Horário: 9:00hs
Convidado: Ram Mandil, AE/AME da Escola Brasileira de Psicanálise/EBP-MG e Conselheiro da EBP responsável pela Delegação Paraná.
Os interessados em apresentar trabalhos produtos de Cartel inscrito na Escola Brasileira de Psicanálise devem enviar seus trabalhos até o dia 17 de maio para cskaf@uol.com.br com cópia para nohemib@uol.com.br e ebpparana@gmail.com

 

Delegação Espírito Santo

Responsável pelos Cartéis: Tania Martins

 

Noite de Cartéis

Data: 15 de abril
Local: Sede da Delegação ES.
Horário: 20h30
Apresentação de Sylaia H. Araújo sobre o tema "O sujeito e o gozo", do Cartel "Leitura do Seminário de Um Outro ao outro de Jacques Lacan".
Apresentação de Bartyra Ribeiro de Castro sobre o tema "Qual o estatuto do sujeito no autismo", do Cartel "Autismo e psicanálise", inscrito na EOL.

 

 

 

 

COMISSÃO EDITORIAL DO DOBRADIÇA DE CARTÉIS

Comissão Nacional dos Cartéis da EBP: Paola Salinas (Coordenadora), Inês Seabra, Cristiana Gallo, Cristiane Barreto e Maria Josefina Sota Fuentes (Diretora Secretária da EBP)
Logomarca: Luiz Felipe Monteiro sobre obra de Escher

 

Dobradiça de Cartéis