Mensagem do Presidente da Associação Mundial de Psicanálise

Aos 20 anos da Escola Brasileira de Psicanálise

 

O Campo e a Causa

 

Desde os primeiros encontros como presidente da AMP com os colegas da Escola Brasileira de Psicanálise, e muito especialmente com suas instâncias diretivas, entendi a importante diferença que existe entre o Disperso e o Múltiplo. Nunca antes, nem em outra parte, havia captado assim a importância desta diferença e do modo que um, o Múltiplo, pode derivar do outro, o Disperso.


Às vezes a dispersão tem a força da proliferação, da extensão crescente ainda que seja em uma forma desordenada. A dispersão pode ser também um bom modo de encontrar o inédito no mais variado e fora da norma. De fato, nas Matemáticas a dispersão indica os graus de distanciamento dos elementos de um conjunto de seu valor médio, ou seja, os que tendem a ser uma exceção. Digamos que o Campo Freudiano, no Brasil como em outros lugares, partiu do disperso e de suas exceções para encontrar a primeira medida de sua extensão. Para que esta dispersão formasse um Campo, um campo vetorial como se chama na Física, foi necessária a força de um vetor que Jacques Lacan denominou nesse Campo como o "desejo do analista"; um lugar vazio na realidade, um desejo derivado do sintoma daquele que, em primeiro lugar, é um analisante. A força do Campo Freudiano foi desde sempre a força do desejo analisante, da transferência com o inconsciente do ser que fala.


O Múltiplo, por sua vez, não é precisamente a dispersão. Segundo certas condições, o Múltiplo pode derivar do Disperso na medida em que se faz presente o Uno desse vetor que é o desejo do analista em seus modos mais variados. Não há standard, dizemos frequentemente, mas sim princípios de orientação, e este foi, de fato, o tema de um dos Congressos da AMP, o que teve lugar precisamente no Brasil, na ilha de Comandatuba há onze anos, com o tema "A prática lacaniana, sem standards mas não sem princípios". O Múltiplo faz presente o Uno nos princípios que organizam um campo e transforma a força do Disperso no redemoinho de uma orientação. O Múltiplo faz manifesto que o Campo no qual o disperso se organizou, constrói-se ao redor de uma falta, essa falta ativa que chamamos de objeto a. Do mesmo modo que um redemoinho gira em torno de um vazio – um vazio ativo que está em seu centro gravitacional –, do mesmo modo, um Campo de forças se organiza ao redor de uma série de vetores que fazem presente o Uno no Múltiplo. Para nós, a orientação lacaniana é o princípio desse redemoinho que deu origem às sete Escolas da AMP, as que fazem presente a Escola Una no Múltiplo de cada uma delas.


Pois bem, com os colegas da EBP entendi melhor o enorme trabalho que é necessário para fazer derivar o Múltiplo do Disperso, sobretudo considerando a grande dispersão que caracteriza a extensão geográfica do Brasil. As seis Seções e as sete Delegações da EBP são, com efeito, o resultado de um longo trabalho de articulação do Uno no Múltiplo para contrabalançar a força centrífuga do Disperso.


Digamos agora o que me parece ser o princípio desta precisa articulação que caracteriza a história do Campo Freudiano e das Escolas da AMP. Isto foi, de fato, enunciado por Jacques-Alain Miller há muitos anos e o retomei ultimamente em várias ocasiões como um modo lógico de entender o movimento que nos conduz, que nos leva de um lugar a outro, às vezes literalmente, quando viajamos de um lugar a outro. Uma ordenação deste princípio pode ser encontrada em um breve texto, um dos chamados Liminaire, da revista Ornicar? em seu número 35 do ano 1986, com o título "A Coisa e o Campo".


É a sábia articulação entre a extensão do Campo Freudiano e a intensão da relação singular de cada um com a Causa analítica que agita o movimento em que nos encontramos. Vejamos brevemente suas características:
O Campo é, antes, charlatão, inclusive verborreico, ruidoso, cheio de ressonâncias semânticas. É o fruto de um grande trabalho coletivo. Constitui um saber que se quer "ensinável para todos", formulável e transmissível com conceitos e matemas. É o efeito de um trabalho que pode ordenar-se em uma lógica do significante e de suas múltiplas significações. Dedicamos muitas atividades da Escola a esta forma de transmissão.


Por sua parte, a Causa é, antes, silenciosa, o mais próxima possível da Coisa freudiana. É o produto de um discurso, o analítico, que tem como agente não um significante, mas sim um objeto enigmático. Institui um saber que só se desprende "um por um" sem que nunca seja válido para todos, um "todos" ao qual essa causa objeta sempre de novo no encontro de um real fora de conceito. É a causa de um trabalho que ordena seu redemoinho ao redor de um objeto, o famoso objeto a. A Escola, como conceito e como experiência, não teria sentido sem esta dimensão na que só se transmite o singular da relação de cada um com a causa analítica: "tão sozinho, como sempre estive em minha relação com a causa analítica..." Reconhecemos nesta enunciação fundante de Jacques Lacan o que faz da Escola uma experiência inédita, em sua elaboração e em sua transmissão, sem igual nas formas de saber constituído de nossa época.


Uma vez ali, compreende-se também porque não há campo sem causa, nem intensão da Coisa sem extensão do Campo, porque não há tampouco Multiplicidade sem o Uno. Necessitamos das duas caras desse Jano em que se joga o futuro mesmo da psicanálise.


A EBP seguirá sendo, em sua constância e em sua invenção, o melhor exemplo de sua articulação?
É o que este presidente deseja a esta Escola que está prestes a cumprir e celebrar seus vinte anos.


Miquel Bassols.


Março de 2015.

Tradução: Flávia Cera
Revisão: Maria do Carmo Dias Batista