Ensino e Transferência de trabalho
Elisa Alvarenga
“O ensino da psicanálise só pode transmitir-se de um sujeito para outro pelas vias de uma transferência de trabalho”.
LACAN, J. Ato de Fundação, in Outros Escritos, RJ, Zahar, 2003, p. 242.
Motivados pela questão formulada por Jacques-Alain Miller aos membros da EBP em abril de 2016, no Rio, sobre o ensino na EBP, trabalhamos essa frase de Lacan em um Seminário sobre a Supervisão, com a intervenção de Ram Mandil e Fernanda Otoni, e depois Lucíola Macedo e Frederico Feu de Carvalho, membros do Conselho da EBP-MG, interviram em outros encontros sobre o ensino e a contingência. Como se dá o ensino, podemos nos perguntar, na EBP e em cada uma de suas Seções? O próprio Miller comenta esta frase de Lacan no seu Curso O Banquete dos analistas 1 em 1990, em duas lições que portam como título “O ensino da psicanálise” (IX) e “Transferência de trabalho” (X).
Ram Mandil destacou a maneira como a palavra trabalho aparece reiteradas vezes no início do Ato de Fundação e a dificuldade de estabelecer a transferência de trabalho testemunhada pelo próprio Freud em sua “História do movimento psicanalítico”. A transmissão da psicanálise começou com um pequeno círculo de colaboradores, em torno de Freud, e foi aos poucos se ampliando. A rivalidade pela prioridade no amor de Freud mostrava, desde o início, que a relação com o trabalho é atravessada por questões de ordem amorosa e libidinal. Não basta o empenho em um trabalho difícil, se não se leva em conta os elementos transferenciais. Também no “Mal estar na civilização” Freud reafirma que o interesse pelo trabalho comum não é suficiente para manter as pessoas unidas, pois as paixões pulsionais são mais fortes que os elementos razoáveis.
O sintagma “transferência de trabalho” permite portanto pensar o trabalho levando em conta os elementos libidinais. O que já nos aponta a relação fundamental do trabalho com o sintoma de cada um. A esse respeito, Fernanda Otoni nos traz o que recolheu em uma conversa com Sérgio Laia: é preciso saber fazer do trabalho na Escola um trabalho que dá gosto, que seja gostoso para quem o faz, a seu gosto, à sua maneira, ao modo do sintoma de cada um.
Com essas premissas, voltamos à questão: o que é o ensino da psicanálise? A ambiguidade do genitivo – a psicanálise ensina ou é ensinada? – remete ao texto de Lacan “A psicanálise e seu ensino”, a partir da comunicação apresentada à Sociedade Francesa de Filosofia em 23.02.1957, dividido em duas partes: “A psicanálise, o que ela nos ensina” e “...Como ensiná-lo?”. Lacan sempre retornou a essa questão do ensino da psicanálise e formulou, mais tarde, que o psicanalista ensina em posição analisante. Isso equivale a dizer, a meu ver, que o ensino da psicanálise se dá a partir da experiência e do sintoma de cada um, daquilo que lhe toca o corpo. Como se passa então da experiência que acontece um por um a um ensino para todos? Em outras palavras, como se passa do trabalho de transferência, no tratamento analítico, à transferência de trabalho?
No Ato de fundação Lacan usa o termo indução2, ao falar dos efeitos que imputam ao seu ensino sobre o curso das análises que conduz, os impasses de sua posição na Escola, a indução mesma que seu ensino geraria em seu trabalho, indução que Miller diferencia da identificação e que significa que a transferência não é reduzida a zero, que ela vai dar lugar ao trabalho de outros. Se no trabalho de transferência a causa é colocada no Outro, na transferência de trabalho se trata de causar o trabalho de outros. Trata-se de um retorno ao Outro de outra maneira. A passagem do trabalho de transferência à transferência de trabalho corresponde à passagem do amor ao saber ao desejo de saber, ou ainda, da suposição à exposição de saber, e dá ao ensino da psicanálise um estatuto idêntico ao da psicanálise didática: ela só o é a posteriori. O analista induzido é aquele que faz de sua análise ensino.
Assim entendo o que Frederico Feu chama de ensino contingente: só há ensino, na psicanálise, se quem ensina aprende com o que ensina. Aquele que ensina encontra algo novo explicando o que ele não compreende, enquanto o professor apenas repete os outros ou ele mesmo. É outra maneira de dizer que o ensino acontece em posição analisante.
Jacques-Alain Miller prefere considerar que a psicanálise ensina, em vez de ser ensinada. Aliás, o próprio Lacan, numa intervenção realizada em Milão em dezembro de 1967, afirma que “os psicanalistas são sábios de um saber que não podem cultivar”3. Porque não podem cultivá-lo? Qual a relação do ensino com este saber? Podemos tentar uma resposta com uma pergunta do próprio Lacan em “Televisão”: a partir do saber que ex-siste para nós no inconsciente, mas que só é articulado por um discurso – o que se pode dizer do real que nos chega através desse discurso?4 Isso me faz pensar que o saber do inconsciente não está lá, mas é inventado, sem nunca apreender propriamente o real.
Trabalho de transferência e transferência de trabalho
O dispositivo analítico induz o trabalho de transferência, onde falar a apenas um é o contrário de ensinar a todo mundo. Se a interpretação analítica só vale no particular daquela ocasião, como ensinar a todos o que se ensina/aprende um a um? Embora a experiência pareça iniciática, ela deve ser controlável por todos. Daí a pergunta: como passar da experiência analítica, que ensina algo, ao ensino para todos? Pergunta que sustenta a invenção do dispositivo do passe.
O saber do inconsciente só pode ser subjetivado por meio da transferência, mas como diz Freud, a transferência é uma faca de dois gumes: instrumento e obstáculo. É a transferência de trabalho que aponta à transmissão a outros, não apenas dos resultados, mas de um estilo de trabalho. Se no trabalho de transferência há amor ao saber, na transferência de trabalho se transmite o desejo de saber. Para Miller, a supervisão (controle) é um dos lugares eletivos do desejo de saber, assim como o passe. Em ambos, temos uma estrutura triádica, onde se fala a um Outro sobre uma experiência vivida a dois. Se trata de saber o que fazer com S(A/), ou seja, com um furo no saber. Não há Outro do Outro que garanta, por isso há transferência de trabalho.
Indução
A palavra transferência significa passagem, deslocamento. Mas Lacan inventa a expressão transferência de trabalho indicando que vai de um sujeito a outro, e não de um a todos. Não se trata portanto de um fenômeno de massa, de identificação tal como introduzida por Freud em Psicologia de massas.
Para Miller, Lacan introduz uma outra lógica com o passe, e a transferência de trabalho seria um passe de trabalho. Lacan distingue o ato analítico e o trabalho analítico: o analisante realiza o trabalho e o analista sustenta o ato. A transferência de trabalho não concerne a análise, mas o ensino da psicanálise. Ensino que o analista faz em posição de analisante.
A transferência de trabalho pode ser considerada uma indução, propõe Miller, no sentido de conduzir para dentro: Lacan fala da indução produzida por seu ensino no trabalho de cada um, o que significa dar lugar ao trabalho de outros, um por um. Miller faz questão de diferenciar esta indução da identificação, senão a transferência de trabalho seria pura imitação do Um ao qual cada um se identificaria e a formação seria pura formação de cópias.
A tese de Lacan, segundo a qual uma análise produz um analista, implica em que há uma exdução, uma saída da análise, e não uma identificação com o analista. A questão de Lacan é então saber porque alguém que viu a que leva uma análise, o de -ser do analista, queira voltar a essa experiência para toma-la a seu cargo como analista.
Na orientação lacaniana, no final da análise, não há identificação nem exdução, no sentido de copiar o analista ou de liquidar a transferência e simplesmente não querer mais saber. O que há é uma transformação do amor de transferência, como amor ao saber, ou amor àquele que se supõe saber, para um desejo de saber, quando se encontra S(A/), um furo no saber. O título do Seminário 24 faz justamente alusão ao L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre, que equivoca com l’unsuccess de l’Umbewuste, c’est l’amour, que podemos traduzir como “o fracasso do inconsciente é o amor”. Passamos assim de ($<>a) a (A/<>$): ao encontrar o Outro barrado, o sujeito toma a seu cargo o saber, que ele vai produzir no seu ensino, na supervisão, etc. Não um saber suposto ao Outro, mas um saber que ele terá que produzir. A exposição de saber torna-se assim o resultado da dessuposição de saber ao Outro. Que vai de par com uma desidealização da Escola e dos colegas. Há assim uma alteração do sujeito que torna-se Outro para si mesmo.
O analista induzido seria então aquele que permanece na Escola para contribuir com o seu saber e transmiti-lo a cada um que se interesse por este saber, um a um. Não se trata de agrupar-se contra o discurso analítico (SAMCDA), mas de formar uma comunidade onde cada um entra com a sua singularidade e ensina a partir dela.
Não há mestria no ensino em posição de analisante, pois ele entra com sua castração, sua divisão, seu desejo. Daí a diferença entre esse ensino e qualquer pedagogia. Lucíola Macedo propõe que o ensino na Escola, mais que da ordem da enunciação, é da ordem da vociferação, o que entendo como a enunciação daquele que põe seu corpo aí, que ensina com seu corpo e sua voz.
1 MILLER, J.-A. El Banquete de los analistas, Buenos Aires, Paidós, 2000.
2 LACAN, J. Ato de Fundação, in Outros Escritos, RJ, Zahar, 2003, p. 237.
3 LACAN, J. Da psicanálise em suas relações com a realidade, in Outros Escritos, op. cit., p. 358.
4 LACAN, J. Televisão, in Outros Escritos, op. cit., p. 535.
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