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Scilicet - Sumário

Apresentação     9
Ricardo Seldes


Em março de 1968, quase dois anos depois da publicação dos Escritos de Jacques Lacan, a comunidade psicanalítica da época se viu diante de mais uma de suas ousadas empreitadas. Desta feita, tratava-se do lançamento de uma nova revista, Scilicet, pelas edições Seuil. Junto ao título, elucidando-o, uma mensagem, um voto e um destino: “tu podes saber o que a Escola Freudiana de Paris pensa sobre isso”.

Era desejo de Lacan que Scilicet fosse uma espécie de mensageiro, levando e divulgando o resultado de um trabalho orquestrado por ele, fruto de sua ambição de fazer revigorar o acontecimento-Freud, ou, nas palavras de Jaques-Alain Miller, fazer repercutir o traumatismo-Freud[1].

Na entrevista concedida a R. Higgins do jornal Le Monde, em 16 de março de 1968, lançando mão da equivocidade produzida por certa homofonia entre os termos bachelor e bachelier, Lacan esclarece que o “tu” a quem ele se endereça está referido  principalmente ao bachelor inglês, ou seja, “àquele que ainda não está casado [...]......sobretudo com uma das sociedades de psicanálises”[2], que se mantinham surdas em sua resistência ao discurso do próprio Freud.  Em suas palavras: “[...] As sociedades de psicanálise são tampões ao desenvolvimento do pensamento psicanalítico...Raros são os gérmens criadores, as novidades ali surgidas [...]. Aconteceu ao psicanalista o que ele constata todos os dias com o paciente no divã: o mais claro de seu discurso lhe escapa [...]”.

Em novembro de 2005, por ocasião do V Congresso da AMP, foi lançado o Scilicet dos Nomes do Pai, também referido como um dicionário à là Voltaire, uma compilação de cento e onze verbetes alfabeticamente agrupados, cada um deles a cargo de um membro das diversas Escolas da Associação Mundial de Psicanálise. Prosseguindo na série, Scilicet dos Nomes do Pai deu continuidade a um voto e reafirmou um destino. Desta vez: “tu podes saber o que as Escolas da AMP, que compõem a Escola Una, pensam sobre o tema Os Nomes do Pai”. Esse “tu”, por certo varia de acordo com questões cruciais relativas ao futuro da psicanálise ou decorrentes do atual mal-estar na civilização, com as quais a psicanálise tem de se haver. O resultado desse trabalho coletivo, traduzido nas cinco línguas de nossa comunidade analítica, é hoje uma obra de referência levando a psicanálise de Orientação lacaniana para além das fronteiras da AMP.

Em março de 2008, quarenta anos depois de seu lançamento por Jacques Lacan, um novo Scilicet entra em cena como instrumento precioso para a preparação do VI Congresso da AMP. Trata-se do Scilicet dos objetos a na experiência psicanalítica,  composto de 109 verbetes, também ordenados de forma alfabética,  ao longo dos quais acompanhamos as diferentes formulações do objeto a no decorrer do ensino de Jacques Lacan.


Num esforço que é também de poesia, encontramos ali articuladas a doutrina, a prática clínica e a política da psicanálise, seja no tratamento privilegiado pelo autor na abordagem de uma questão, seja no cuidado das indicações bibliográficas às quais vai referindo o trajeto realizado. Tal como seu antecedente, Scilicet dos objetos a não se propõe a exaurir ou a concluir uma questão. Muito ao contrário, sua vocação o leva a problematizar um tema, lançar a discussão sobre a atualidade de um determinado conceito, apresentar um recorte, pontuar as balizas que demarcaram um percurso. Em suma, cabe a ele atestar os motivos que nos levam a sustentar e a revigorar nossa aposta no inconsciente, à luz da Orientação lacaniana, nos tempos em que se tenta reduzir, encaixar o sujeito na quadratura de uma cifra.

Mas por que “um dicionário à là Voltaire”? O que há de comum entre Scilicet e o Dictionnaire philosophique portatif, de François Marie Arouet, dito Voltaire, publicado em 1764, sem nome de autor?

De saída, uma primeira resposta. Há várias outras, com certeza. Ambos portavam um voto e um destino: foram introduzidos como instrumentos de combate. Scilicet nasceu, pode-se dizer - e este era o desejo de Lacan, desde sempre -, “para que viva a psicanálise”[3]. Por meio de seu Dicionário filosófico portátil, com suas 118 entradas, Voltaire, mestre nas sutilezas e ironias, se empenhava em “inserir a razão por meio do alfabeto” e empreendia um ataque implacável ao fanatismo, aos hábitos desviantes da sociedade de sua época, às injustiças, aos abusos políticos e religiosos e, em especial, aos oportunistas....!![4]

Há também uma curiosa referência a Scilicet mencionada no editorial de Opção Lacaniana n.50. Diz Angelina Harari: “a idéia do Dicionário Scilicet, segundo seus idealizadores - Graciela Brodsky, Éric Laurent e Antonio Di Ciaccia -, fundamenta-se na Enciclopédia Chinesa imaginada por Borges em seu conto El idioma analítico de John Wilkins[5] ”.

Nesse conto, também citado por Michel Foucault no prefácio de As palavras e as coisas, o modelo serial do qual Borges se serve para a ordenação dos verbetes de uma fantástica e exótica Enciclopédia Chinesa - a Enciclopédia Celestial dos Conhecimentos Benévolos - é enriquecido com uma forma narrativa extremamente original. A título de exemplo:

“Animais:

os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) domesticados; d) leitões; e) sereias; f) fabulosos; g) cães em liberdade; h) incluídos na presente classificação; i) que se agitam como loucos; j) inumeráveis; k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo; l) et Cetera; m) que acabam de quebrar a bilha; n) que de longe parecem moscas...”

Com efeito, não fazia nem faz parte do destino de Scilicet tornar-se um Thesaurus, um Glossário ou mesmo um Vocabulário. Trata-se, antes, como diz Lacan ao concluir a “Abertura” dos seus Escritos, de “levar o leitor – assim como o escritor, se poderia dizer – a uma conseqüência em que ele precise colocar algo de si”[6].

Então, entre Scilicet e a Enciclopédia Chinesa além da ordenação alfabética, seriam a originalidade da forma narrativa, a singularidade no tratamento de cada tema e o estilo de cada autor estampado em cada um dos 109 verbetes os traços que aproximam as duas obras?

A conferir!


[1] Cf. Miller, J-A – Curso de Orientação Lacaniana III, 9, “TDL”, lição de 15 de novembro de 2006: “O inconsciente real”, em Ornicar? Digital n 298.

[2]Cf.: Jacques Lacan comenta o nascimento de « Scilicet » numa entrevista concedida a R. Higgins e publicada no Le Monde de 16 de março de 1968. Site:http://www.école-lacanienne .net , “Pas-tout Lacan”.

[3]Expressão cunhada por J-A Miller para o Forum Psi, realizado em Paris, janeiro de 2008,

[4]Cf. www. fr. wikisource.org

[5] 1 Borges, J. L .(1999). “O Idioma Analítico de John Wilkins”. In Obras Completas, Vol II - 1952-1972. São Paulo: Editora Globo.

[6]Cf. Lacan, J. – “Abertura desta coletânea”, em Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1998, p. 11



Scilicet - Sumário


Apresentação     9
Ricardo Seldes

a

    • Acontecimento de corpo     13
      Ana Simonetti
    • Afeto     16
      Leonardo Gorostiza
    • Agalma     19
      Simone Souto
    • Aletosfera     22
      Monique Amirault
    • Appensamento     25
      Ram Mandil
    • Anal     29
      Bernard Lecoeur
    • Angústia     32
      María Cristina Aguirre
    • Anorexia     35
      Domenico Cosenza
    • Ataque de pânico     38
      Marco Focchi
    • Autismo     41
      Gustavo Stiglitz

    b

    • Bulimia     44
      Monique Kusnierek

    c

    • Causa do desejo     47
      Hilario Cid Vivas
    • Coisa, a     51
      Lucía Blanco
    • Compulsão à repetição     54
      Hélène Bonnaud
    • Corpo     57
      Graciela Musachi
    • Corte      60
      Catherine Bonningue
    • Criança     63
      Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros

    d

    • Dejeto     68
      Christine Le Boulengé
    • Deixar cair     71
      Maria Josefina Fuentes
    • Demanda do Outro     74
      Xavier Esqué
    • Dialética      77
      Cristiane Alberti
    • Discurso do analista      81
      Alicia Yacoi
    • Discurso capitalista      83
      Agnès Aflalo
    • Discurso da histérica       87
      Heloisa Caldas
    • Discurso do mestre     91
      Silvia Geller
    • Discurso universitário      94
      Luis Tudanca
    • Dom e oblatividade      97
      Ana Lydia Santiago
    • Dora     101
      Agnieszka Kurek

    e

    • Epifania      104
      Marie-Hélène Blancard
    • Escritura      107
      Germán García
    • Esquize      111
      Philippe Stasse
    • Esquizofrenia     114
      José María Álvarez
    • Estilo de vida     117
      Alejandra Eidelberg

    f

    • Falo      121
      François Leguil
    • Falta     124
      Sandra Arruda Grostein
    • Fantasia      128
      Graciela Ruiz
    • Fenômeno psicossomático      131
      Marie-Hélène Doguet-Dziomba
    • Fetiche     134
      Marisa Chamizo
    • Fobia     137
      Nassia Linardou-Blanchet
    • Fuga do sentido     140
      Angélica Marchesini

    g

    • Gadget     143
      María Leonor Solimano
    • Gozo     146
      Phillipe de Georges

    h

    • Hamlet    149
      Hervé Castanet
    • Histeria    152
      Véronique Voruz
    • Homem dos ratos     155
      Philippe La Sagna

    i

    • Ideologias do bem-estar, standards corporais     158
      José R. Ubieto
    • Imaginário     161
      Serge Cottet
    • Impostura masculina     165
      Jacqueline Dhéret
    • Informálizavel da estrutura     168
      Susana Strozzi

    j

    • Jovem homossexual, a     171
      Philippe Hellebois

    l

    • Lamela     173
      Pierre Malengreau
    • Latusa     176
      Gerardo L. L. Maeso
    • Libido     179
      Jean-Pierre Klotz
    • Lógica, consistência       181
      Amelia Barbui
    • Luto     184
      Florencia Dassen

    m

    • Mãe e pai     187
      Hebe Tizio
    • Mais-de-gozar     190>Pauline Prost
    • Mania     193
      Marcelo Veras
    • Mascarada feminina    196
      Paola Francesconi
    • Melancolia    199
      Ariel Bogochvol
    • Mentira      204
      Pierre Naveau
    • (a)Modernidade      207
      Ricardo Seldes

    n

    • Nada      210
      Carole Dewambrechies-La Sagna
    • Não-sem      213
      Massimo Termini
    • Natureza      216
      Depelsenaire
    • Nó      218
      Olga G. de Molina
    • Nosso objeto a       221
      François Regnault

    o

    • Objetalidade     224
      Félix Rueda
    • Objeto no bolso 228
      Jean-Louis Gault
    • Objeto parcial     231
      Adela Fryd
    • Objeto transicional     234
      Miguel Angel Vázquez
    • Oblatividade      237
      Adriana Luka
    • Obsessão      240
      Esthela Solano-Suarez
    • Olhar      243
      Ernesto Derezensky
    • Oral      246
      Luisella Brusa
    • Órgão      249
      Sônia Vicente
    • Orgasmo     252
      Nathalie Georges-Lambrichs
    • Orientação      255
      Pierre Strélisk

    p

    • Página branca      258
      Vicente Palomera
    • Palea     262
      Shula Eldar
    • Paranóia      265
      Silvia Baudini
    • Pedaços de real      268
      Geert Hoornaert
    • Pequeno Hans, o      271
      Lucía Dragonett
    • Perda      274
      Nora Silvestri
    • Perversão      277
      Amanda Goya
    • Presença do analista      280
      Débora Fleischer
    • Presidente Schreber      283
      Marcelo Marotta
    • Psicose     286
      Maurizio Mazzott
    • Pulsão      289
      José Matusevich

    r

    • Real      292
      Alexandre Stevens
    • Realidade      295
      Daniel Roy
    • Relação de objeto      298
      Beatriz Udenio
    • Ressonâncias da interpretação     301
      Silvia Ons

    s

    • S(A)      304
      Herbert Wachsberger
    • Santa Lúcia e Santa Ágata
      Eugenio Castro
    • Século XX      310
      Gérard Wajcman
    • Semblante      313
      Pablo Russo
    • Separação      317
      Diana Wolodarsky
    • Silêncio      319
      Graciela Esperanza
    • Sublimação      322
      Céline Menghi
    • Sujeito     325
      Laurent Ottavi
    • Suplência      328
      Daniel Millas

    t

    • Tamponamento      331
      Mónica Febres-Cordero de Espinel
    • Topologia      334
      Gilles Chatenay
    • Toxicomanias e alcoolismo      337
      Andrés Borderias
    • Traço unário      340
      Jean-François Cottes
    • Trauma      343
      Héctor Gallo

    u

    • Unheimlich      346
      Miguel Furman

    v

    • Voz      349
      Ana Ruth Najles

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