A ESCOLA

Scilicet*: um voto e um destino.
Vera Avellar Ribeiro

 

Em março de 1968, quase dois anos depois da publicação dos Escritos de Jacques Lacan, a comunidade psicanalítica da época se viu diante de mais uma de suas ousadas empreitadas. Desta feita, tratava-se do lançamento de uma nova revista, Scilicet, pelas edições Seuil. Junto ao título, elucidando-o, uma mensagem, um voto e um destino: “tu podes saber o que a Escola Freudiana de Paris pensa sobre isso”.

Era desejo de Lacan que Scilicet fosse uma espécie de mensageiro, levando e divulgando o resultado de um trabalho orquestrado por ele, fruto de sua ambição de fazer revigorar o acontecimento-Freud, ou, nas palavras de Jaques-Alain Miller, fazer repercutir o traumatismo-Freud[1].    

Na entrevista concedida a R. Higgins do jornal Le Monde, em 16 de março de 1968, lançando mão da equivocidade produzida por certa homofonia entre os termos bachelor e bachelier, Lacan esclarece que o “tu” a quem ele se endereça está referido  principalmente ao bachelor inglês, ou seja, “àquele que ainda não está casado [...]......sobretudo com uma das sociedades de psicanálises”[2], que se mantinham surdas em sua resistência ao discurso do próprio Freud.  Em suas palavras: “[...] As sociedades de psicanálise são tampões ao desenvolvimento do pensamento psicanalítico...Raros são os gérmens criadores, as novidades ali surgidas [...]. Aconteceu ao psicanalista o que ele constata todos os dias com o paciente no divã: o mais claro de seu discurso lhe escapa [...]”.

Em novembro de 2005, por ocasião do V Congresso da AMP, foi lançado o Scilicet dos Nomes do Pai, também referido como um dicionário à là Voltaire, uma compilação de cento e onze verbetes alfabeticamente agrupados, cada um deles a cargo de um membro das diversas Escolas da Associação Mundial de Psicanálise. Prosseguindo na série, Scilicet dos Nomes do Pai deu continuidade a um voto e reafirmou um destino. Desta vez: “tu podes saber o que as Escolas da AMP, que compõem a Escola Una, pensam sobre o tema Os Nomes do Pai”. Esse “tu”, por certo varia de acordo com questões cruciais relativas ao futuro da psicanálise ou decorrentes do atual mal-estar na civilização, com as quais a psicanálise tem de se haver. O resultado desse trabalho coletivo, traduzido nas cinco línguas de nossa comunidade analítica, é hoje uma obra de referência levando a psicanálise de Orientação lacaniana para além das fronteiras da AMP.

Em março de 2008, quarenta anos depois de seu lançamento por Jacques Lacan, um novo Scilicet entra em cena como instrumento precioso para a preparação do VI Congresso da AMP. Trata-se do Scilicet dos objetos a na experiência psicanalítica,  composto de 109 verbetes, também ordenados de forma alfabética,  ao longo dos quais acompanhamos as diferentes formulações do objeto a no decorrer do ensino de Jacques Lacan.

Num esforço que é também de poesia, encontramos ali articuladas a doutrina, a prática clínica e a política da psicanálise, seja no tratamento privilegiado pelo autor na abordagem de uma questão, seja no cuidado das indicações bibliográficas às quais vai referindo o trajeto realizado. Tal como seu antecedente, Scilicet dos objetos a não se propõe a exaurir ou a concluir uma questão. Muito ao contrário, sua vocação o leva a problematizar um tema, lançar a discussão sobre a atualidade de um determinado conceito, apresentar um recorte, pontuar as balizas que demarcaram um percurso. Em suma, cabe a ele atestar os motivos que nos levam a sustentar e a revigorar nossa aposta no inconsciente, à luz da Orientação lacaniana, nos tempos em que se tenta reduzir, encaixar o sujeito na quadratura de uma cifra.

Mas por que “um dicionário à là Voltaire”? O que há de comum entre Scilicet e o Dictionnaire philosophique portatif, de François Marie Arouet, dito Voltaire, publicado em 1764, sem nome de autor?

De saída, uma primeira resposta. Há várias outras, com certeza. Ambos portavam um voto e um destino: foram introduzidos como instrumentos de combate. Scilicet nasceu, pode-se dizer - e este era o desejo de Lacan, desde sempre -, “para que viva a psicanálise”[3]. Por meio de seu Dicionário filosófico portátil, com suas 118 entradas, Voltaire, mestre nas sutilezas e ironias, se empenhava em “inserir a razão por meio do alfabeto” e empreendia um ataque implacável ao fanatismo, aos hábitos desviantes da sociedade de sua época, às injustiças, aos abusos políticos e religiosos e, em especial, aos oportunistas....!![4]

Há também uma curiosa referência a Scilicet mencionada no editorial de Opção Lacaniana n.50. Diz Angelina Harari: “a idéia do Dicionário Scilicet, segundo seus idealizadores - Graciela Brodsky, Éric Laurent e Antonio Di Ciaccia -, fundamenta-se na Enciclopédia Chinesa imaginada por Borges em seu conto El idioma analítico de John Wilkins[5] ”.

Nesse conto, também citado por Michel Foucault no prefácio de As palavras e as coisas, o modelo serial do qual Borges se serve para a ordenação dos verbetes de uma fantástica e exótica Enciclopédia Chinesa - a Enciclopédia Celestial dos Conhecimentos Benévolos - é enriquecido com uma forma narrativa extremamente original. A título de exemplo:

 

“Animais:

os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) domesticados; d) leitões; e) sereias; f) fabulosos; g) cães em liberdade; h) incluídos na presente classificação; i) que se agitam como loucos; j) inumeráveis; k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo; l) et Cetera; m) que acabam de quebrar a bilha; n) que de longe parecem moscas...”

 

Com efeito, não fazia nem faz parte do destino de Scilicet tornar-se um Thesaurus, um Glossário ou mesmo um Vocabulário. Trata-se, antes, como diz Lacan ao concluir a “Abertura” dos seus Escritos, de “levar o leitor – assim como o escritor, se poderia dizer – a uma conseqüência em que ele precise colocar algo de si”[6].

Então, entre Scilicet e a Enciclopédia Chinesa além da ordenação alfabética, seriam a originalidade da forma narrativa, a singularidade no tratamento de cada tema e o estilo de cada autor estampado em cada um dos 109 verbetes os traços que aproximam as duas obras?

A conferir!


[1] Cf. Miller, J-A – Curso de Orientação Lacaniana III, 9, “TDL”, lição de 15 de novembro de 2006: “O inconsciente real”, em Ornicar? Digital n 298.

[2] Cf.: Jacques Lacan comenta o nascimento de  « Scilicet » numa entrevista concedida a  R. Higgins e publicada no Le Monde de 16 de março de 1968. Site: http://www.école-lacanienne .net , “Pas-tout Lacan”.

[3] Expressão cunhada por J-A Miller para o  Forum Psi, realizado em Paris, janeiro de 2008,

[4] Cf. www. fr. wikisource.org

[5] 1 Borges, J. L. (1999). “O Idioma Analítico de John Wilkins”. In Obras Completas, Vol II - 1952-1972. São Paulo: Editora Globo.

[6] Cf. Lacan, J. – “Abertura desta coletânea”, em Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1998, p. 11

* Scilicet: expressão verbal, provém da contração de scio, saber + licet, ser permitido, do verbo licēre, resultando em “é permitido saber”.

Scilicet - Sumário

Apresentação     9
Ricardo Seldes

a
Acontecimento de corpo     13
Ana Simonetti

Afeto     16
Leonardo Gorostiza

Agalma     19
Simone Souto

Aletosfera     22
Monique Amirault

Appensamento     25
Ram Mandil

Anal     29
Bernard Lecoeur

Angústia     32
María Cristina Aguirre

Anorexia     35
Domenico Cosenza

Ataque de pânico     38
Marco Focchi

Autismo     41
Gustavo Stiglitz

b
Bulimia     44
Monique Kusnierek

c
Causa do desejo     47
Hilario Cid Vivas

Coisa, a     51
Lucía Blanco

Compulsão à repetição     54
Hélène Bonnaud

Corpo     57
Graciela Musachi


Corte      60
Catherine Bonningue


Criança     63
Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros


d

Dejeto     68
Christine Le Boulengé

Deixar cair     71
Maria Josefina Fuentes

Demanda do Outro     74
Xavier Esqué

Dialética      77
Cristiane Alberti

Discurso do analista      81
Alicia Yacoi

Discurso capitalista      83
Agnès Aflalo

Discurso da histérica       87
Heloisa Caldas

Discurso do mestre     91
Silvia Geller

Discurso universitário      94
Luis Tudanca

Dom e oblatividade      97
Ana Lydia Santiago

Dora     101
Agnieszka Kurek

e

Epifania      104
Marie-Hélène Blancard

Escritura      107
Germán García

Esquize      111
Philippe Stasse


Esquizofrenia     114
José María Álvarez


Estilo de vida     117
Alejandra Eidelberg

f

Falo      121
François Leguil


Falta     124
Sandra Arruda Grostein


Fantasia      128
Graciela Ruiz


Fenômeno psicossomático      131
Marie-Hélène Doguet-Dziomba


Fetiche     134
Marisa Chamizo


Fobia     137
Nassia Linardou-Blanchet


Fuga do sentido     140
Angélica Marchesini


g

Gadget     143
María Leonor Solimano


Gozo     146
Phillipe de Georges


h

Hamlet    149
Hervé Castanet


Histeria    152
Véronique Voruz


Homem dos ratos     155
Philippe La Sagna

i

Ideologias do bem-estar, standards corporais     158
José R. Ubieto


Imaginário     161
Serge Cottet


Impostura masculina     165
Jacqueline Dhéret


Informálizavel da estrutura     168
Susana Strozzi

j
Jovem homossexual, a     171
Philippe Hellebois

l

Lamela     173
Pierre Malengreau

Latusa     176
Gerardo L. L. Maeso

Libido     179
Jean-Pierre Klotz

Lógica, consistência       181
Amelia Barbui

Luto     184
Florencia Dassen

m
Mãe e pai     187
Hebe Tizio

Mais-de-gozar     190
Pauline Prost

Mania     193
Marcelo Veras

Mascarada feminina    196
Paola Francesconi

Melancolia    199
Ariel Bogochvol

Mentira      204
Pierre Naveau

(a)Modernidade      207
Ricardo Seldes

n

Nada      210
Carole Dewambrechies-La Sagna


Não-sem      213
Massimo Termini


Natureza      216
Yves Depelsenaire


Nó      218
Olga G. de Molina

Nosso objeto a       221
François Regnault

o

Objetalidade     224
Félix Rueda


Objeto no bolso 228
Jean-Louis Gault


Objeto parcial     231
Adela Fryd


Objeto transicional     234
Miguel Angel Vázquez


Oblatividade      237
Adriana Luka


Obsessão      240
Esthela Solano-Suarez


Olhar      243
Ernesto Derezensky


Oral      246
Luisella Brusa


Órgão      249
Sônia Vicente


Orgasmo     252
Nathalie Georges-Lambrichs


Orientação      255
Pierre Strélisk

p

Página branca      258
Vicente Palomera


Palea     262
Shula Eldar


Paranóia      265
Silvia Baudini


Pedaços de real      268
Geert Hoornaert


Pequeno Hans, o      271
Lucía Dragonetti


Perda      274
Nora Silvestri


Perversão      277
Amanda Goya


Presença do analista      280
Débora Fleischer


Presidente Schreber      283
Marcelo Marotta


Psicose     286
Maurizio Mazzotti


Pulsão      289
José Matusevich

r

Real      292
Alexandre Stevens


Realidade      295
Daniel Roy


Relação de objeto      298
Beatriz Udenio

Ressonâncias da interpretação     301
Silvia Ons


s

S(A)      304
Herbert Wachsberger


Santa Lúcia e Santa Ágata
Eugenio Castro


Século XX      310
Gérard Wajcman


Semblante      313
Pablo Russo


Separação      317
Diana Wolodarsky

Silêncio      319
Graciela Esperanza

Sublimação      322
Céline Menghi

Sujeito     325
Laurent Ottavi

Suplência      328
Daniel Millas

t

Tamponamento      331
Mónica Febres-Cordero de Espinel

Topologia      334
Gilles Chatenay

Toxicomanias e alcoolismo      337
Andrés Borderias


Traço unário      340
Jean-François Cottes


Trauma      343
Héctor Gallo

u

Unheimlich      346
Miguel Furman

v
Voz      349
Ana Ruth Najles


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