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O que é um CPCT?
Bernardino Horne

Os Centros Psicanalíticos de Consulta e Tratamento (CPCTs), juntamente aos demais Centros de psicanálise aplicada, dão uma nova consistência ao laço intensão - extensão no qual se estrutura a Escola.

Tanto é assim que em seu discurso de candidatura a Delegado-Geral, em Roma, Éric Laurent disse de modo claro e taxativo: “O essencial agora é perceber que todo problema que diz respeito às Escolas deve ser concebido em um modo de enodamento de três consistências: a Escola, o Instituto e os Centros de psicanálise aplicada na variedade de suas formas”.[1] Leonardo Gorostiza, por esses motivos, em uma conferência da Nova Escola Lacaniana (NEL), chamou-a Escola borromeana.[2]

Sem dúvida, há um real em jogo na formação dos analistas. A Escola tenta cernir este real no núcleo mais íntimo de sua estrutura, trabalhando os passes que os Analistas da Escola (AE) oferecem à comunidade de Membros da Escola (ME). Pretende-se, assim, afirmar o laço de intensão ajustando-o sobre si mesmo. Esta é uma tarefa principal e interna da Escola em relação à psicanálise pura. Trata-se, na topologia da Escola, do laço de intensão. É no horizonte mesmo do laço de extensão que se ajusta o nó de intensão, disse Lacan na “Proposição”.[3] Os Institutos, por sua vez, nascem do braço de extensão da Escola, percorrem-no e, frente ao real em jogo que se faz presente também no ensino, devem orientar-se até o centro desse real, isto é, ao anel de intensão que completa a topologia da Escola.

Assim, os Institutos nascem da extensão, percorrem seus meandros e se orientam até a intenção, caso se mantenha o real no eixo da interrogação do ensino. A situação é complexa, pois intensão e extensão vão entrelaçadas, tanto que podemos dizer que a extensão é, em última instância, a extensão da intensão.

Ora, os Institutos, o ensino nas universidades e a ação parauniversitária carecem de algo fundamental que é a experiência clínica no campo da psicanálise aplicada. Faltava, pois, no sangue que corre pelas veias da extensão, algo que não se resolve simplesmente com a experiência de ser analisante, senão de poder fazê-lo na perspectiva do praticante da psicanálise. Os Centros de psicanálise aplicada, e em particular os CPCTs, já que a eles me refiro especialmente, conduzem este elemento ao elo de intensão-extensão que é a Escola. Nascem no ramo de extensão, porém carregam em si o elemento de intensão que a psicanálise, em sua prática conserva e mantém por mais que se trate de sua aplicação terapêutica. Esta experiência, iniciada em diversos pontos da AMP, tomou consistência, força e consciência de seu poder de laço a partir do lançamento do CPCT – rue Chabrol, em Paris.

 

Um lugar Alfa

No seu escrito, Prefacio à edição inglesa do Seminário 11,  Lacan faz referência a um saber que o analista tem, um saber que é o único que resta quando chega a esse ponto que o texto destaca como o inconsciente real. Lacan diz: “Quando um lapso já não tem nenhum impacto de sentido ou interpretação, só então temos a certeza de estarmos no inconsciente.” “O que se sabe consigo”, “On le sait, soi”, diz Lacan em francês, que se pode pensar como: “A gente o sabe por si próprio”. Ou seja, um analista sabe de sua aproximação ao inconsciente real pela experiência da sua análise.

Esse analista que tem a experiência do inconsciente real na sua própria análise é o analista que, nos Centros Psicanalíticos de Consulta e Tratamento, realiza as consultas iniciais, faz o diagnóstico e avalia as possíveis linhas de tratamento. Nessa primeira linha de trabalho, o analista encontra freqüentemente sujeitos no gozo do discurso capitalista que não querem saber a causa do mal que os aflige. É aí que deve usar sua experiência de chegar ao limite do real para saber fazer ou dizer o que permita ao sujeito romper a amálgama de gozo autista e introduzir o amor no discurso. Os CPCTs constituem, neste sentido, o que Jacques-Alain Miller chamou lugar Alfa.[4]

Miller diz: “São os conceitos lacanianos do ato analítico, do discurso analítico e da conclusão da análise como passe a analista os que permitem conceber o psicanalista como objeto nômade e a psicanálise com uma instalação móvel, suscetível de deslocar-se a novos contextos, particularmente a instituições.. Há um lugar analítico possível na instituição, digamos que um Lugar Alfa”. Ele acrescenta que não se trata de um lugar de escuta, já que um lugar de escuta pode ser apenas um lugar de desabafo, coisa que sem dúvida produz alívio. Um lugar Alfa é um lugar de respostas – continua Miller –, onde o desabafo toma a forma de pergunta e a pergunta mesma gira em direção à resposta que se mantém no que chamamos de transferência.

 

Os CPCT

Uma característica dos CPCTs é a possibilidade de fazer um contato direto com o social? Comentando esta questão no III Encontro Americano, realizado em Belo Horizonte em 2007, Éric Laurent[5] se pergunta se as redes assistenciais, os Centros que existem já há dez anos, realizam um contato direto com o social. Sua resposta é negativa; diz que melhor seria dizer um contato direto com os sujeitos, e acrescenta que o que se agrega com nossos centros CPCTs é que podemos nos dirigir a uma demanda do Outro social como tal, com programas definidos, como, por exemplo, um programa de assistência à violência intrafamiliar.

Uma outra particularidade da organização dos CPCTs está na separação da consulta do tratamento propriamente dito. Nos CPCTs, trata-se de localizar na consulta a fixação de gozo de cada falasser. Quer dizer, alcançar o núcleo real do sintoma. Se for possível, encontrar o nome dessa posição, que fixa o falasser em um lugar de impotência, incapacidade e desamparo.

Em contrapartida, no tratamento, retomar o nome de gozo na perspectiva do Nome-do-Pai implica introduzir simbólico no real. Podemos dizer que se trata de uma das formas de versão do pai. No Seminário 23, Le Sinthome, Lacan diz queperversion ne veut dire que version vers le père” (p. 19)[6]. Este movimento permite também o desenrolar lento do fantasma, com a conseqüente redistribuição e mediação possível nas formas de gozo. Se esta redução de gozo não fosse possível de realizar, o passe somente seria um passe ao ato.

Sobre a consulta, Hugo Freda diz: “Em uma série limitada de entrevistas, trata-se de dar um nome à demanda do paciente e indicar-lhe que tal problema será tratado, durante um tempo limitado de quatro meses, com outro analista. [...] Trata-se, nesse momento, de fazer da demanda um nome, um novo sintoma, produto do encontro com um psicanalista. Um ‘sintoma provisório’, se nos permitem esta expressão”.[7]

O tratamento será orientado pelo analista no sentido que foi desvendado na consulta. O trabalho do sujeito com o analista poderá levá-lo a saber algo mais sobre suas formas de gozo, assim como a saber fazer melhor com suas dificuldades. Em todo caso, o sujeito, nestes encontros com um analista, poderá vislumbrar o que significa um novo laço social no qual o saber verdadeiro esteja presente.


[1] Discurso de candidatura de Éric Laurent para a função de Delegado-Geral 2006-2008.

[2] Gorostiza, L. “Los nombres de la angustia en el mal vivir actual”. In: IV Jornadas de la NEL.

[3] Lacan, J. «Proposition du 9 octobre 1967 sur le psychanalyste de l´École». In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

[4] Intervenção de J.-A. Miller nas Jornadas PIPOL 3, celebradas em Paris, 31 jun.-1° jul. 2007, sobre o tema “Psicanalistas em contato direto com o social”.

[5] Laurent, E. III Encontro Americano. Belo Horizonte, 2007, 3ª plenária.

[6] “Perversão quer dizer apenas versão em direção ao pai” p. 21

[7] Freda, H. “CPCT de Paris, experiências e resultados”. In: Opção Lacaniana, nº 45. São Paulo: Edições Eólia.


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