No Brasil, ainda não chegamos ao estágio europeu, onde os órgãos públicos de saúde, ao considerarem estes dados, iniciaram uma campanha anti-depressão, de presumível alerta à população e na verdade serve mais à indústria farmacêutica que se propõe a medicalizar a tristeza e fazer vender os antidepressivos.
A psicanálise considera que a tristeza é um estado afetivo normal, experimentado pelo humano no decorrer da vida e não deve ser confundido com os estados de humor depressivo. Como bem chamou atenção, Jacques Alain Miller [1], não se deve confundir depressão com os eventos reativos da vida: o luto, as inadequações afetivas passageiras, o cansaço eventual, a tristeza, que são respostas específicas a certas experiências de vida e são compatíveis com nossas emoções mais íntimas.
Desde Freud, sabemos que o afeto depressivo não é um tipo clínico. Pelo contrário, os afetos de tristeza e felicidade, são provas irrefutáveis da existência do inconsciente [2] e das suas conseqüências no corpo, como também abre alas para as possibilidades de tratamento. Do ponto de vista energético e econômico, os sintomas depressivos são expressões de perda de libido, seja na experiência de vazio dos psicóticos (recusa ao inconsciente) ou a da falta dos neuróticos (fechamento do inconsciente)[3].
A medicina, que sempre esteve centrada em tratar o órgão doente, se defronta na contemporaneidade, com o ideal da pessoa em ser feliz. A ambição de hoje é curar o mal-estar da vida, a busca da felicidade e qualquer resposta contrária é concebida como patológica e deve ser tratada.
Assim como os neurologistas da época de Freud não encontravam uma correspondência entre os sintomas histéricos e uma lesão neuronal, hoje os médicos, frente ao mal-estar, ao humor depressivo, as variações do estado de animo dos seus pacientes não encontram qualquer correspondência com um órgão afetado e buscam nas carências bioquímicas das interconexões neuronais a explicação para as variações dos estados afetivos.
O avanço das ciências, especificamente o estudo da anatomia, fisiologia e bioquímica do cérebro, ao ser divulgado na mídia, interfere na cultura e molda mudanças nos costumes, incorpora-se na linguagem e tem efeitos para o sujeito. Na década de setenta, um jovem que sofria uma perda importante, uma ruptura afetiva, entrava na fossa, vivia um baixo astral até re-encontrar seu eixo existencial e continuar tocando sua vida. Hoje o sujeito fica deprê e como não pode parar, recorre ao recurso médico, sente-se carente de serotonina e o caminho aparentemente mais curto – para o médico e o paciente – é recorrer a um anti-depressivo. Isto reflete uma das características de nossa civilização, a paixão pelo objeto, por um modo hedonista de viver que vai mais além do prazer. O mais interessante é que o clínico que prescreve um anti-depressivo e ver seu paciente melhorar no outro dia, por desconhecer a psicopatologia e a farmacodinâmica, deixa de perceber os efeitos terapêuticos da transferência e alegra-se com o seu quase-saber sobre a ação do fármaco nos neurotransmissores e é persuadido a acreditar na pílula da felicidade.
Para nós analistas não há nenhum problema em se indicar uma prescrição medicamentosa, quando se faz necessário; não há porque fazer o sujeito padecer quando se pode aliviá-lo com um recurso farmacológico, visando o alivio sintomático – é uma posição ética assim proceder. Nós somos contra o uso etiológico do fármaco, indicado como tratamento eletivo para as diversas manifestações da dor de existir.
A psicanálise pode e deve participar deste debate, distinguindo os afetos de tristeza dos quadros patológicos de depressão, contribuindo para que os pacientes que demandem atendimento, possam, via a arte de falar, se sublevarem, assumir a sua verdade e ir mais além de seu mal-estar. Eis, como disse J.A.Miller, o anti-depressivo mais potente!
[1]« Tout le monde passe par des états d’humeur dépressifs »
[2] Cottet,S., “Gai savoir et triste vérité”, in Revue de la Cause Freudienne, 35, 1997.
[3] Nepomiachi, R., Conferência publicada na Revista El Faro Nº1 do Centro Psicoanalítico de Ushuaia, Grupo Asociado al IOM
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