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"A Biblioteca Virtual do site da EBP, se coaduna com o movimento desencadeado por Miller e apoiado pela AMP e suas Escolas para fazer frente à Campanha massiva contra a depressão lançada na França (INPES), mas que lança seus tentáculos pelo mundo afora, e destaca alguns trabalhos da nossa BV sobre depressão, que mostram as diferentes facetas dessa, que é considerada como a "doença da verdade", por excelencia."

Zelma Galesi

 



Depressão generalizada?
Iordan Gurgel



As estatísticas médicas estimam que 25% da população teve, tem ou terá depressão em uma fase de sua vida.

No Brasil, ainda não chegamos ao estágio europeu, onde os órgãos públicos de saúde, ao considerarem estes dados, iniciaram uma campanha anti-depressão, de presumível alerta à população e na verdade serve mais à indústria farmacêutica que se propõe a medicalizar a tristeza e fazer vender os antidepressivos.

A psicanálise considera que a tristeza é um estado afetivo  normal, experimentado pelo humano no decorrer da vida e não deve ser confundido com os estados de humor depressivo. Como bem chamou atenção, Jacques Alain Miller [1], não se deve confundir depressão com os eventos reativos da vida: o luto, as inadequações afetivas passageiras, o cansaço eventual, a tristeza, que são respostas específicas a certas experiências de vida e são compatíveis com nossas emoções mais íntimas.

Desde Freud, sabemos que o afeto depressivo não é um tipo clínico. Pelo contrário, os afetos de tristeza e felicidade, são provas irrefutáveis da existência do inconsciente [2] e das suas conseqüências no corpo, como também abre alas para as possibilidades de tratamento. Do ponto de vista energético e econômico, os sintomas depressivos são expressões de perda de libido, seja na experiência de vazio dos psicóticos (recusa ao inconsciente) ou a da falta dos neuróticos (fechamento do inconsciente)[3].

A medicina, que sempre esteve centrada em tratar o órgão doente, se defronta na contemporaneidade, com o ideal da pessoa em ser feliz. A ambição de hoje é curar o mal-estar da vida, a busca da  felicidade e qualquer resposta contrária é concebida como patológica e deve ser tratada.

Assim como os neurologistas da época de Freud não encontravam uma correspondência entre os sintomas histéricos e uma lesão neuronal, hoje os médicos, frente ao mal-estar, ao humor depressivo, as variações do estado de animo dos seus pacientes não encontram qualquer correspondência com um órgão afetado e buscam nas carências bioquímicas das interconexões neuronais a explicação para as variações dos estados afetivos.

 O avanço das ciências, especificamente o estudo da anatomia, fisiologia e bioquímica do cérebro, ao ser divulgado na mídia, interfere na cultura e molda mudanças nos costumes, incorpora-se na linguagem e tem efeitos para o sujeito. Na década de setenta, um jovem que sofria uma perda importante, uma ruptura afetiva, entrava na fossa, vivia um baixo astral até re-encontrar seu eixo existencial e continuar tocando sua vida. Hoje o sujeito fica deprê e como não pode parar, recorre ao recurso médico, sente-se carente de serotonina e o caminho aparentemente mais curto – para o médico e o paciente – é recorrer a um anti-depressivo. Isto reflete uma das características de nossa civilização, a paixão pelo objeto, por um modo hedonista de viver que vai mais além do prazer. O mais interessante é que o clínico que prescreve um anti-depressivo e ver seu paciente melhorar no outro dia, por desconhecer a  psicopatologia e a farmacodinâmica, deixa de perceber os efeitos terapêuticos da transferência e alegra-se com o seu quase-saber sobre a ação do fármaco nos neurotransmissores e é persuadido a acreditar na pílula da felicidade.

Para nós analistas não há nenhum problema em se indicar uma prescrição medicamentosa, quando se faz necessário; não há porque fazer o sujeito padecer quando se pode aliviá-lo com um recurso farmacológico, visando o alivio sintomático – é uma posição ética assim proceder. Nós somos contra o uso etiológico do fármaco, indicado como tratamento eletivo para as diversas manifestações da dor de existir.

A psicanálise pode e deve participar deste debate, distinguindo os afetos de tristeza dos quadros patológicos de depressão, contribuindo para que os pacientes que demandem atendimento, possam, via a arte de falar, se sublevarem, assumir a sua verdade e ir  mais além de seu mal-estar. Eis, como disse J.A.Miller,  o anti-depressivo mais potente!

[1]« Tout le monde passe par des états d’humeur dépressifs » 

[2] Cottet,S., “Gai savoir et triste vérité”, in Revue de la Cause Freudienne, 35, 1997.

[3] Nepomiachi, R., Conferência publicada na Revista El Faro Nº1 do Centro Psicoanalítico de Ushuaia, Grupo Asociado al IOM

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