Na França, a campanha sobre a depressão irrompeu massivamente nos meios de comunicação. Na Espanha também está presente, mas de forma mais discreta, mais insidiosa. Por que, segundo a Sra., este ativismo dos poderes públicos?
Esta campanha é a ponta de um iceberg que se formou há muito e de maneira, creio, bastante sistemática, como ameaça para congelar qualquer novidade. A novidade que sempre é perturbadora, enquanto implica que a ordem admitida seja submetida a deslocamentos. Assim é na ciência - a física passou de Galileu a Newton, e de Newton a Einstein - e nas artes ou nos costumes.
O iceberg cognitivista pretende falar em nome da ciência, do método científico, quando só o imita utilizando cifras e o reduz à quantificação; na realidade, é impermeável à ciência, precisamente por fazer dela, um ideal, e por não ter idéia alguma do que requer o Ideal da ciência - para retomar uma distinção proposta por Jean Claude Milner.
O cientificismo é higienista, faz uma guerra sem quartel a todos os que saem da fila, em nome da saúde, a mental em particular. Pretende estabelecer uma ordem à la Big Brother, não conhece senão as leis do mercado mundial. Sua ascensão não é irresistível, basta dizer-lhe não e raciocinar um pouco para por em dia, a impostura: a humanidade que sonha fabricar já não é humana, como o demonstra o periódico Le Nouvel Âne n°7 (LNA 7). Não duvido que a Espanha conheça os efeitos nefastos da glaciação cognitivo-comportamental que afeta toda a Europa.
A Europa não é uma pequena rã que quer ser tão grande quanto um boi americano, a clivagem passa por outro lado. Uma das vantagens da França é, sem dúvida, ser o país de Lacan, onde sua palavra é ainda muito escutada, graças, particularmente, a Jacques-Alain Miller. Por esta razão, é na França onde a resistência se organiza contra esta modalidade de utopia que estraga, mas a resistência se organiza também nos Estados Unidos, como testemunham, por exemplo, as propostas do Presidente da Universidade de Harvard.
Em cada país há resistentes que se farão escutar: oxalá os LNA espanhol e italiano sejam também catalizadores e porta-vozes a partir de 2008.
LNA pôs em marcha uma anti-campanha que mobiliza com força, e isso mais além de nosso Campo. Que interpretação a Sra. dá deste movimento?
Eu não interpreto, constato a diversidade daqueles que vieram ao Forum extraordinário de novembro, diversidade dos que tomaram a palavra e dos que escutaram, todos se sentiram tocados. Talvez o melhor seja citar o que me escreveu uma jovem atriz a quem eu apresentava minhas desculpas por não haver podido assistir a seu espectáculo: “Como poderia estar ressentida quando devo ao último “Fórum extraordinário”, muitos de meus pensamentos e minha energia de hoje? (…) Temia que isso não fosse dirigido a gente como eu, que não poderia entender o que se dissesse e, no entanto, esse forum extraordinário me deu muito impulso e me acompanha nos projetos cênicos que abordo. Se me revigorei no encontro com esses oradores foi, em primeiro lugar, porque psicanalistas, cientistas, artistas, professores, diretor de cena e de teatro, estudantes russos ou franceses abordaram com pertinência, humor, rigor e não sem gênio, os aparecimentos da quantificação, seus desastres, a mordaça que nos querem atrapar (…) isso não impede que quem recorre com prazer a cursos de filosofia quando deve terminar uma tese de biologia vegetal, o viva ainda com mais satisfação quando encontra alguém que rompa a separação imaginária entre esses dois domínios e funde sua necessária relação, abrindo a porta para que se ponham em comunicação (…) foi uma idéia feliz de que nesse Forum, as artes tenham estado presentes. Sim, nós trabalhamos ombro a ombro para que o singular não permita que se cale sua palavra, seu pensamento e sua imaginação. Ainda que o intuísse antes, foi com este Fórum que vi estender as ‘humanidades’ sem fronteiras, esta língua plural das humanidades”.
Acrescenta em seu e-mail que falou do Forum a amigos, antigos ou atuais alunos do Conservatório. Benvindos sejam!
LNA e o Campo Freudiano não são corporativistas nem comunitaristas. O grande meeting de fevereiro e o Forum de março tampouco o serão. Não estamos sós, deve-se estar muito doente e muito débil para deixar-se atropelar pelas cifras, o fantasma do homem comum, o espectro da norma, o gris da mediocridade vingativa e o fog do poder dos agentes da avaliação.
Buscam-nos: nos encontrarão aí, cada um com seu desejo decidido.
Poder-se-ia pensar que a indústria farmacêutica tem um interesse nesta campanha. A Sra. pensa que vamos assistir a um aumento dos diagnósticos de depressão com um aumento concomitante dos tratamentos, incluindo o das crianças e adolescentes?
Jacques-Alain Miller já respondeu o primeiro ponto, a indústria farmacêutica, como toda indústria, deve ganhar dinheiro. Pode ganhá-lo sem distribuir Prozac sistematicamente: aos médicos não lhes sobram bons remédios. No entanto, isso não é razão para declarar que quem não está contente de si mesmo mais de x dias no ano é um depressivo a localizar, assinalar e curar: é um i-mundo. É preciso escapar a isso, recordando o que são a depressão, um diagnóstico e também o que é um “mal aluno”, segundo Jacques Prévert.
Jacques-Alain Miller anunciou para finais de janeiro, um Colóquio sobre a depressão que abrirá a ministra da Saúde da França. Podemos entender isto como a tomada de consciência de um erro na decisão de iniciar a campanha?
Sim, esse Colóquio será nos dias 1 e 2 de fevereiro de 2008, no Ministério da Saúde e está previsto que a ministra, Sra. Bachelot, intervenha às 9.30h. Constato que é uma ministra que não rechaça receber àqueles que têm algo a dizer, inclusive se esse algo é uma campanha contra a lançada por sua administração. Jacques-Alain Miller tinha algo a dizer e ousou dizê-lo, com todos os de LNA. O anfiteatro ministerial tem 250 lugares, o que torna inevitável que a freqüência seja com convites, como fez saber Jacques-Alain Miller.
Não conheço o programa, mas, sem dúvida, não será corporativista, inclusive seria desejável que os psicanalistas que traem Freud e a psicanálise - os da IPA, particularmente - viessem ousar sustentar que o futuro da psicanálise depende de uma colaboração com as aplicações quantificáveis das neurociências e da genética. Parece-me lógico que, graças a Freud e Lacan, nós tenhamos a ética de não ceder sobre nosso desejo.
Este Colóquio é um colóquio que – sem banalizar o termo - compete à ética da psicanálise. Sua dimensão decisiva permite reunir alguns dos que não se põem a serviço dos bens, os que não tratam a depressão a golpe de estatística mas no caso a caso, e não confundem verdade e cifra nem diagnóstico e norma. São heróicos…?
A Sra. conhece a Espanha e segue a atualidade de nosso país. A partir do que sucedeu e sucede na França, que gostaria nos dizer?
Conheço os membros da ELP, no entanato, não conheço demasiado a Espanha, nem sequer os alunos do Instituto do Campo Freudiano e das Seções Clínicas. Sei que o governo atual sustenta quatro CPCT, conheci a Sra. Amparo Valcarcel García – excepcionalmente viva e precisa; José Andrés Torres Mora é uma grande figura para mim. Admiro também a ação emprendida por Juan Pundik, que falou em Bruxelas sem haver recebido, ao menos por minha parte, ajuda alguma. Penso que a criação da Federação das Escolas Européias de Psicanálise, se passa à realidade efetiva, deverá fazer saber que as Escolas de Psicanálise e o Campo Freudiano na Europa não deixarão que a civilização fique livre das cifras, da quantificação, dos protocolos de avaliadores e dos métodos contemporâneos de condicionamento. Que quiz dizer-lhes? Que é o momento de falar a língua do Outro e que falar a língua do Outro não é adotá-la; que a preparação do Pipol 4 é um componente destas perspectivas, como o RIPA europeu, o LNA espanhol e que todas as iniciativas serão benvindas; também que é responsabilidade nossa que a resistência se estenda como uma mancha de azeite, que tenha o efeito acumulativo de uma bola de neve.
Tradução: Maria Cristina Maia Fernandes
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