Home seta Homes anteriores seta Entrevista realizada com Judith Miller


Entrevista realizada com Judith Miller para La Gaceta del Consejo da ELP Nº. 42, janeiro de 2008

judith_miller   Equipe de Redação: Vilma Coccoz (responsável), Carmen Garrido, Felix Rueda, Marta Serra

Na França, a campanha sobre a depressão irrompeu massivamente nos meios de comunicação. Na Espanha também está presente, mas de forma mais discreta, mais insidiosa. Por que, segundo a Sra., este ativismo dos poderes públicos?

Esta campanha é a ponta de um iceberg que se formou há muito e de maneira, creio, bastante sistemática, como ameaça para congelar qualquer novidade. A novidade que sempre é perturbadora, enquanto implica que a ordem admitida seja submetida a deslocamentos. Assim é na ciência - a física passou de Galileu a Newton, e de Newton a Einstein - e nas artes ou nos costumes.

O iceberg cognitivista pretende falar em nome da ciência, do método científico, quando só o imita utilizando cifras e o reduz à quantificação; na realidade, é impermeável à ciência, precisamente por fazer dela, um ideal, e por não ter idéia alguma do que requer o Ideal da ciência - para retomar uma distinção proposta por Jean Claude Milner.

O cientificismo é higienista, faz uma guerra sem quartel a todos os que saem da fila, em nome da saúde, a mental em particular. Pretende estabelecer uma ordem à la Big Brother, não conhece senão as leis do mercado mundial. Sua ascensão não é irresistível, basta dizer-lhe não e raciocinar um pouco para por em dia, a impostura: a humanidade que sonha fabricar já não é humana, como o demonstra o periódico Le Nouvel Âne n°7 (LNA 7). Não duvido que a Espanha conheça os efeitos nefastos da glaciação cognitivo-comportamental que afeta toda a Europa.

A Europa não é uma pequena rã que quer ser tão grande quanto um boi americano, a clivagem passa por outro lado. Uma das vantagens da França é, sem dúvida, ser o país de Lacan, onde sua palavra é ainda muito escutada, graças, particularmente, a Jacques-Alain Miller. Por esta razão, é na França onde a resistência se organiza contra esta modalidade de utopia que estraga, mas a resistência se organiza também nos Estados Unidos, como testemunham, por exemplo, as propostas do Presidente da Universidade de Harvard.

Em cada país há resistentes que se farão escutar: oxalá os LNA espanhol e italiano sejam também catalizadores e porta-vozes a partir de 2008.


LNA pôs em marcha uma anti-campanha que mobiliza com força, e isso mais além de nosso Campo. Que interpretação a Sra. dá deste movimento?

Eu não interpreto, constato a diversidade daqueles que vieram ao Forum extraordinário de novembro, diversidade dos que tomaram a palavra e dos que escutaram, todos se sentiram tocados. Talvez o melhor seja citar o que me escreveu uma jovem atriz a quem eu apresentava minhas desculpas por não haver podido assistir a seu espectáculo: “Como poderia estar ressentida quando devo ao último “Fórum extraordinário”, muitos de meus pensamentos e minha energia de hoje? (…) Temia que isso não fosse dirigido a gente como eu, que não poderia entender o que se dissesse e, no entanto, esse forum extraordinário me deu muito impulso e me acompanha nos projetos cênicos que abordo. Se me revigorei no encontro com esses oradores foi, em primeiro lugar, porque psicanalistas, cientistas, artistas, professores, diretor de cena e de teatro, estudantes russos ou franceses abordaram com pertinência, humor, rigor e não sem gênio, os aparecimentos da quantificação, seus desastres, a mordaça que nos querem atrapar (…) isso não impede que quem recorre com prazer a cursos de filosofia quando deve terminar uma tese de biologia vegetal, o viva ainda com mais satisfação quando encontra alguém que rompa a separação imaginária entre esses dois domínios e funde sua necessária relação, abrindo a porta para que se ponham em comunicação (…) foi uma idéia feliz de que nesse Forum, as artes tenham estado presentes. Sim, nós trabalhamos ombro a ombro para que o singular não permita que se cale sua palavra, seu pensamento e sua imaginação. Ainda que o intuísse antes, foi com este Fórum que vi estender as ‘humanidades’ sem fronteiras, esta língua plural das humanidades”.

Acrescenta em seu e-mail que falou do Forum a amigos, antigos ou atuais alunos do Conservatório. Benvindos sejam!

LNA e o Campo Freudiano não são corporativistas nem comunitaristas. O grande meeting de fevereiro e o Forum de março tampouco o serão. Não estamos sós, deve-se estar muito doente e muito débil para deixar-se atropelar pelas cifras, o fantasma do homem comum, o espectro da norma, o gris da mediocridade vingativa e o fog do poder dos agentes da avaliação.

Buscam-nos: nos encontrarão aí, cada um com seu desejo decidido.



Poder-se-ia pensar que a indústria farmacêutica tem um interesse nesta campanha. A Sra. pensa que vamos assistir a um aumento dos diagnósticos de depressão com um aumento concomitante dos tratamentos, incluindo o das crianças e adolescentes?

Jacques-Alain Miller já respondeu o primeiro ponto, a indústria farmacêutica, como toda indústria, deve ganhar dinheiro. Pode ganhá-lo sem distribuir Prozac sistematicamente: aos médicos não lhes sobram bons remédios. No entanto, isso não é razão para declarar que quem não está contente de si mesmo mais de x dias no ano é um depressivo a localizar, assinalar e curar: é um i-mundo. É preciso escapar a isso, recordando o que são a depressão, um diagnóstico e também o que é um “mal aluno”, segundo Jacques Prévert. 


Jacques-Alain Miller anunciou para finais de janeiro, um Colóquio sobre a depressão que abrirá a ministra da Saúde da França. Podemos entender isto como a tomada de consciência de um erro na decisão de iniciar a campanha?

Sim, esse Colóquio será nos dias 1 e 2 de fevereiro de 2008, no Ministério da Saúde e está previsto que  a ministra, Sra. Bachelot, intervenha às 9.30h. Constato que é uma ministra que não rechaça receber àqueles que têm algo a dizer, inclusive se esse algo é uma campanha contra a lançada por sua administração. Jacques-Alain Miller tinha algo a dizer e ousou dizê-lo, com todos os de LNA. O anfiteatro ministerial tem 250 lugares, o que torna inevitável que a freqüência seja com convites, como fez saber Jacques-Alain Miller.

Não conheço o programa, mas, sem dúvida, não será corporativista, inclusive seria desejável que os psicanalistas que traem Freud e a psicanálise - os da IPA, particularmente - viessem ousar sustentar que o futuro da psicanálise depende de uma colaboração com as aplicações quantificáveis das neurociências e da genética. Parece-me lógico que, graças a Freud e Lacan, nós tenhamos a ética de não ceder sobre nosso desejo.

Este Colóquio é um colóquio que – sem banalizar o termo - compete à ética da psicanálise. Sua  dimensão decisiva permite reunir alguns dos que não se põem a serviço dos bens, os que não tratam a depressão a golpe de estatística mas no caso a caso, e não confundem verdade e cifra nem diagnóstico e norma. São heróicos…?


A Sra. conhece a Espanha e segue a atualidade de nosso país. A partir do que sucedeu e sucede na França, que gostaria nos dizer?

Conheço os membros da ELP, no entanato, não conheço demasiado a Espanha, nem sequer os alunos do Instituto do Campo Freudiano e das Seções Clínicas. Sei que o governo atual sustenta quatro CPCT, conheci a Sra. Amparo Valcarcel García – excepcionalmente viva e precisa; José Andrés Torres Mora é uma grande figura para mim. Admiro também a ação emprendida por Juan Pundik, que falou em Bruxelas sem haver recebido, ao menos por minha parte, ajuda alguma. Penso que a criação da Federação das Escolas Européias de Psicanálise, se passa à realidade efetiva, deverá fazer saber que as Escolas de Psicanálise e o Campo Freudiano na Europa não deixarão que a civilização fique livre das cifras, da quantificação, dos protocolos de avaliadores e dos métodos contemporâneos de condicionamento. Que quiz dizer-lhes? Que é o momento de falar a língua do Outro e que falar a língua do Outro não é adotá-la; que a preparação do Pipol 4 é um componente destas perspectivas, como o RIPA europeu, o LNA espanhol e que todas as iniciativas serão benvindas; também que é responsabilidade nossa que a resistência se estenda como uma mancha de azeite, que tenha o efeito acumulativo de uma bola de neve.


Tradução: Maria Cristina Maia Fernandes



palhaco   A depressão, uma doença do gênero humano (em "ELLE")

«Todo mundo passa por estados de humor depressivos»

Jacques-Alain Miller, psicanalista e diretor da revista « Le Nouvel Ane ».

"Você tem altos e baixos? Então, você é bipolar. É uma doença, você a tem pela vida afora, não é grave, é como dor nas costas, se trata, há pílulas justamente para isso". Isso é o que escutamos cada vez mais freqüentemente de nosso médico.  No rádio, na TV, num manual cuja tiragem será de 1 milhão de exemplares, uma propaganda maciça é deflagrada. As campanhas anti-depressão constituem um perigo público. O dever dos psicanalistas é alertar o Estado, a mídia e todo mundo. No mundo inteiro, uma parte da burocracia sanitária se pôs na empreitada de medicalizar a tristeza e fazer vender, a todo vapor, os antidepressivos, medicamentos por vezes úteis, mas de uso delicado, que apenas os especialistas deveriam poder prescrever. Euforia obrigatória.  As pílulas da felicidade ! Como nos romances de science-fiction. Um cansaço repentino e,  hop !, passamos a tê-lo pro resto da vida. No entanto, demonstrou-se cientificamente - é verdade! - que ter momentos de tristeza é perfeitamente normal. 95 % da pessoas sentem, todo ano, uma média de seis baixas de humor ou de auto-estima. Os 5% restantes têm muita sorte. Mas será que são normais?

Todo mundo tem estados de humor depressivos. Estabelecer a respeito deles um diagnóstico clínico de depressão equivalerá a dizer que a depressão é a doença do gênero humano. É bem possível, mas, então, como curá-la sem fazer desaparecer o homem e, ainda por cima, a mulher? Aliás, alguns sonham em nos retirar toda a aspereza e que, amanhã, a biotecnologia permitirá nos desembaraçarmos da sexualidade, da depressão...Todos unissex, um sorriso congelado no rosto. E, sobretudo, que não nos falemos mais,  isso só traz mal-entendidos. Os altos funcionários exaltados pela caça mundial à depressão não sabem o que fazem. Seu discurso busca insinuar o âmago de cada um e recobrir com sua baba nossas emoções mais íntimas. Não, isso não! É o horror. Além do mais, eles odeiam a psicanálise, tem lógica: eles sonham em nos erradicar junto com a depressão.  Pois bem, veremos o que veremos!

(From le Blog postal de l’AMP)

Trad:Vera Avellar Ribeiro



ESCOLA BRASILEIRA DE PSICANÁLISE
- Copyright© 2007/2010, EBP
Rua Felipe dos Santos, 588 - CEP 30180-160 – Lourdes – Belo Horizonte  MG. Telefone/ Fax 31 3292 7563    - Secretária: Márcia Caldeira: ebp@ebp.org.br

CRÉDITOS


 
Diretor Responsável: Lilany Pacheco
Coordenação Geral: Helenice Saldanha de Castro
Coordenação de equipe: José Marcos Moura 
Articulação de conteúdos: Tatiane Grova
Revisão: Sandra Landim
Webdesign: Sandra Gober
Programação: Andrea Passos
Secretária: Ana Paula Santos
RUBRICAS
Anuário: Jorge Pimenta
Biblioteca online: Marcela Antelo
Cartéis: Heloísa Telles
Centros de atendimento: Iordan Gurgel
Eventos e Subsites: Tatiane Grova
Institutos: Ram Mandil
Memória de Veredas e Agendas: Rômulo Ferreira
Orientação Lacaniana: Vera Ribeiro
Publicações: a definir