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Rumo ao IV Encontro Americano


Jacques-Alain Miller:

Sobre o desejo de inserção e outros temas

Intervenções em Barcelona, 7 de novembro de 2008


I

A história do pão[1] me faz lembrar um conto de Ray Bradbury. Vicente Palomera certamente o conhece.  É uma história projetada no futuro. Todo mundo calcula com computadores, com máquinas, e esqueceram-se por completo da antiga maneira de fazer pão. Num dado momento, num Ministério da Defesa dos EUA, no Pentágono ou algo assim, alguém chega e diz que se fez uma descoberta extraordinária: pode-se calcular com lápis e papel e não custa nada. É como me lembro.

É como a história do pão: há o sentimento de termos perdido um saber fundamental e antigo sacrificando-o ao automatismo, à máquina, à técnica. Isso ressoa em nós, pois não podemos desconhecer que, de certo modo, estamos estandardizando nossa maneira de fazer. Nos primeiros tempos, os analistas pareciam bruxos inquietantes que sabiam fazer. Depois, a coisa foi se ampliando até a chegada de Lacan que nos deu as chaves fundamentais. Todos os seus colegas disseram: “você não deve dizer isso ao grande público, tem de ficar entre a gente”. Ele vendia a mercadoria a preço baixo, ou sem preço algum, a todos os que vinham ao seu Seminário. Depois chegamos nós para pôr ordem. No nosso tempo, no meu, no de minha geração e de outros que aqui estão, temos posto em ordem os instrumentos que Lacan nos havia dado. O que ele havia inventado pouco a pouco nós o vimos em seu conjunto, pusemos os instrumentos no lugar tal como se põe a Black & Decker, o martelo, para fazer a bricolagem no painel da parede.

Agora, estamos em outro momento histórico, momento em que passamos à estandardização em massa, e os CPCT são o seu veículo assim como do uso rápido de seus instrumentos. Devemos refletir sobre o que está acontecendo. O tema “inserção/des-inserção” foi feito para isso.

Parece-me possível decidir que o desejo de inserção é um desejo fundamental no ser falante. O ser falante deseja inserir-se. O que Lacan chamou discurso do Outro - e que imediatamente passou para a psicanálise como um esquema de comunicação, de intercâmbios de mensagens, de inversão de mensagem - diz que, nesse desejo o social é radical, é a raiz. Esse é o sentido do título de Freud “Psicologia das massas e análise do eu”. Nele, Freud já diz que o social está constituído na relação analítica. E sabemos que um sujeito com um desejo de des-inserção é algo que pode chegar ao suicídio social e ao suicídio vital.

Há dois matizes da inserção que a frase de Lacan do Seminário XVII destacada por Hebe e retomada por Bassols nos faz ver[2]. É a inserção como identificação, ou seja, o sujeito se identifica com o S1 e, de certo modo, morre nessa identificação, faz-se representar por um significante rígido. É como morrer para ser representado. Vai no mesmo sentido que: “a palavra é a morte da coisa”. É a identificação. Do outro lado, com a chegada de S2 há uma nova vida, é como um renascimento do sujeito, e a produção do objeto. Em minha opinião, nessa frase Lacan distingue alienação e separação. 

A alienação é a identificação. Do outro lado é necessário S2, o significante do saber para fazer renascer o sujeito. E com isso desprende-se do corpo o famoso objeto a. No texto “Posição do inconsciente”[3], ao comentar a palavra separação, Lacan diz que o sujeito deseja ser “pars”, ser parte, e que o desejo de ser parte, de pertencer a um todo, tem a ver com o objeto.

Constatamos na clínica o quanto ser parte, pertencer, é importante para cada um. Quando o sujeito perde sua pertinência a um grupo, a uma associação, a uma hierarquia, a um cargo no trabalho, a uma empresa, ainda que se queixe de suas condições de trabalho, essa perda acarreta regularmente efeitos patológicos, pois ela vai muito mais longe do que perder dinheiro, status ou prestigio. Ela toca em seu ser, toca no objeto a.

Nós o vemos também em outros fenômenos. Quando em Paris os jovens me descreviam o prazer que sentiam no CPCT, que é como uma família, um grupo tão confortável, posso entender o prazer, mas esse é o problema. Porque em psicanálise cada um está confrontado com sua solidão, com sua falta, sua miséria. E isso produz um apelo ao conforto grupal. É toda uma questão saber se devemos pôr em marcha aparatos de contra-solidão, de pertinência. Lacan pensava que não.

 

A École freudienne de Paris era um lugar que não funcionava, não tinha uma organização interna, a Assembléia Geral durava 15 minutos anuais, não se entendia nada do discurso do Secretário, não havia nenhum documento escrito e Lacan dizia: “Há perguntas?” Geralmente havia um ou dois dentre alguns sujeitos histéricos que queriam receber uma paulada na cabeça por parte de Lacan. Assim a coisa terminava e não havia lugar para queixas. Foi uma boa época para a psicanálise. Foi a época em que Lacan construía seu ensino enquanto havia muita gente trabalhando Freud. Estavam em instituições como hoje, mas considerava-se que a questão das instituições não devia ser formulada dentro da Escola. Dentro das instituições havia o regime do mestre e quando alguém vinha à Escola podia respirar outro ar. Isto era o mais importante: formar-se como analista, respirar a atmosfera do discurso analítico. Com isso era possível cuidar-se nas instituições.

Nós fizemos diferente. Os tempos são distintos. Mas, se com o pretexto de difundir a psicanálise lá fora fazemos entrar a atmosfera de fora para dentro, se nós mesmos vamos acreditar no que dizemos do lado de fora, no sentido de que somos eficazes, somos os profissionais mais excelentes, obtemos efeitos terapêuticos tão rápidos a ponto de nos espantarmos, ou seja, se começamos com um narcisismo tão transbordante, continuaremos dizendo que somos psicanalistas, mas talvez estejamos nos transformando, tal como ocorre na obra de Ionesco, O rinoceronte. Bem, isso é um perigo. E acho que deve ser considerado.

 

No tema da des-inserção, é preciso pensar o tema do lugar, la place, o local. Lacan começa sua conferência sobre seu ensino com o conceito de local, estende-se deste ao conceito de espaço, um espaço métrico. O local de cada um em relação ao local dos demais é muito importante. Sabemos dos transtornos produzidos por uma mudança espacial dos outros em relação ao sujeito, ou seja, quando ele vê pessoas de sua própria geração avançarem mais rápido numa hierarquia. Tudo isso é do cotidiano, mas tem um sentido fundamental.  

No tema da des-inserção para o Encontro de Barcelona, em julho, é preciso considerar o tema da des-inserção do analista, a saber: em que medida o analista deve inserir-se ou des-inserir-se do discurso do Outro e em que sentido? A posição de Lacan nunca foi favorável à ilusão de extraterritorialidade, mas eventualmente ele falava da Escola como de uma base de operações contra o mal-estar da cultura, isto é, na contracorrente dos valores predominantes. Então, como manter essa posição sem sermos esmagados? Devemos elaborar uma postura, já que a pressão social para com a psicanálise é muito mais forte agora do que antes.


Antes, os políticos não se preocupavam com a psicanálise e sim com sua família ou com seus próprios transtornos pessoais, mas não com a psicanálise como problema político. Agora, o psi é um problema político, administrativo e social. Estamos numa situação histórica inédita, o que torna mais difícil pensar em nossa posição. De certo modo, estamos exilados desde o interior e condenados a uma certa astúcia com os poderes.

Eles se chamam ou propõem que os chamemos “parceiros”. E nós os consideramos agentes do discurso do mestre, mas não podemos chamá-los assim quando discutimos com eles. Entre nós, porém, é muito importante lembrá-lo. Acontece de modo muito rápido passar da difusão da psicanálise no lado de fora ao fato de abrir as portas de nossas bases de operações para fazer entrar os agentes do discurso do mestre. E, em minha opinião, quando isso se produz, não é bom. São contatos para fora, não cabe trazê-los para dentro. A questão é como elaborar a extimidade analítica na sociedade contemporânea. Creio não ser impossível elaborá-lo, há alguns critérios que permitem dizer: isto dá e isto não dá. Acho que deve ser uma elaboração provocada e com muitas contribuições.

A solução não está nos livros, não há uma fórmula em Freud ou em Lacan porque esse não foi um problema da época deles. É um problema do nosso tempo, é recente. Não era um problema em 1980, é um problema em 2008. É apaixonante e precisa da valentia da qual Mercedes Francisco deu testemunho. Devemos fazer algo como tomar posição firme em nossos debates, não deixar as coisas debaixo da mesa.

Estamos no início do século e também dessa questão.  A questão sociopolítica não é tão antiga para nós, é algo deste século. Quando ele começou, houve na Europa um giro quanto ao desejo de regularizar o título de psicoterapeuta, isso é recente. Estamos no início de uma longa trajetória e há liberdade entre nós para discutir com firmeza, de modo a obtermos uma Aufhebung de nossa posição.

 
Em minha opinião, é disso que se tratará em Pipol 4: da psicanálise aplicada, mas da psicanálise aplicada à própria psicanálise. 

J. A. Miller


Notas

1 - Referência a uma intervenção prévia de Mercedes de Francisco: “Como dizia Richard Sennett em La Corrosión del Carácter, já não encontramos os padeiros gregos que sabiam fazer o pão, mas apenas os que sabem apertar o botão da máquina que faz pão.  Em qualquer desses âmbitos, os sujeitos se vêem degradados em  sua relação com o saber e com sua tarefa.”

2 - A frase citada e comentada está no Seminário XVII, Ed. Paidos, p. 97: “No discurso do mestre o sujeito se encontra vinculado com todas as ilusões que isso comporta, com significante mestre, ao passo que a inserção no gozo se deve ao saber”.

3 - Lacan, J. – “Posição do inconsciente”, em Escritos, Rio de Janeiro, J. Zahar Ed, p. 857, 1964

Transcrição: Elvira Guilañá.
Estabelecimento do texto: Miquel Bassols

Tradução para o português:

I e II - Vera Ribeiro

Discussão - Maria Cristina Maia Fernandes

Revisão: Marcus André Vieira



[1] Referência a uma intervenção prévia de Mercedes de Francisco: “Como dizia Richard Sennett em La Corrosión del Carácter, já não encontramos os padeiros gregos que sabiam fazer o pão, mas apenas os que sabem apertar o botão da máquina que faz pão.  Em qualquer desses âmbitos, os sujeitos se vêem degradados em  sua relação com o saber e com sua tarefa.”

[2] A frase citada e comentada está no Seminário XVII, Ed. Paidos, p. 97: “No discurso do mestre o sujeito se encontra vinculado com todas as ilusões que isso comporta, com significante mestre, ao passo que a inserção no gozo se deve ao saber”.

[3] Lacan, J. – “Posição do inconsciente”, em Escritos, Rio de Janeiro, J. Zahar Ed, p. 857, 1964

 
 

Apresentação

Ram Mandil


Caros colegas,

Após a difusão em nossa lista do texto "Sobre o desejo de inserção e outros temas", de Jacques-Alain Miller,  inicia-se o debate rumo ao ENAPaOL.

A partir dos efeitos da recente interpretação de Miller sobre as relações entre psicanálise pura e psicanálise aplicada, Judith Miller considera suas conseqüências e nos propõe duas orientações para o nosso Encontro: a retomada dos trabalhos individuais - "um retorno de cada um à sua relação com o inconsciente e à causa analítica" - e uma consideração pela "pragmática" na psicanálise.

A intervenção de Judith Miller produziu efeitos imediatos. Leiam o que os nossos colegas da EOL, Cecilia Gasbarro e Eduardo Benito, nos propõem como seguimento do debate.

 
 

Judith Miller abre o debate do ENAPaOL

Cecilia Gasbarro e Eduardo Benito

 

Pouco antes de anunciar a intenção de promover um debate sobre o ENAPaOL, recebemos uma primeira contribuição de Judith Miller que corresponde à sua intervenção na Abertura do Colóquio ”Psicanálise e sociedade”, realizado em Paris, em 31 de janeiro de 2009, como parte da preparação para o PIPOL IV.

A mesma refere-se a seu ponto de vista sobre as conseqüências da interpretação de Jacques-Alain Miller nas Jornadas da Escola da Causa Freudiana, em outubro de 2008. É assim que nos apresenta, formalizadas em cinco pontos, as respostas que obteve na Assembléia Geral da AMP.

Com base nisso, Judith Miller conclui em dois eixos. Um admitido, a respeito dos textos apresentados, que serão produto de trabalho pessoal e não co-assinados por um grupo. O outro, uma proposta audaz, dirigida à elucidação do significante “pragmática” em psicanálise.
As respostas obtidas na Assembléia Geral que antecedem à proposta, entendemos, explicam seus motivos.

É que, por um lado, por definição não deveria haver conflito entre psicanálise aplicada e pura, pois se trata de duas formas de psicanálise. Conseqüentemente, não se deve pensar que “agora só vale a psicanálise pura”.

Contudo: como ponderar que, na tentativa de expansão da psicanálise aplicada, poder-se-ia colocar em risco a própria psicanálise?

É por isso que, na conjuntura de “agressão estrutural ao discurso do mestre", a interpretação de J.-A. Miller leva a reconsiderar o fracasso de um êxito. Êxito para o mestre, fracasso para a psicanálise.

Fenômenos como identificações coletivas, marco de vaidades e, ainda, a cegueira perante o perigo de ser engolido pela demanda do Outro social, não são mais que algumas de suas manifestações.

Como disse J.-A. Miller, seguindo Nietzsche, existe o risco de nos “tornarmos aquilo que combatemos”. [1]             

Da mesma forma, Judith Miller aposta enfaticamente que o Programa Internacional de Investigação em Psicanálise Aplicada possa velar pela orientação lacaniana, pois é evidente, pelo ocorrido, que parece não haver garantias em relação a novos “êxitos” no futuro.

Entende-se, então, que a proposta de Judith Miller seria exatamente revisar e tentar elucidar a chamada pragmática em psicanálise.

Proposta, entendemos, de grande importância – às vésperas do ENAPaOL – para aqueles que hoje sustentam a psicanálise aplicada deste lado do oceano.

Sendo assim, decidimos que constitua o centro do debate rumo ao próximo Encontro Americano.

Um debate que urge, cremos, pois é evidente que o perigo de ser engolidos pela demanda do Outro social não cede, mas aumenta.

Eric Laurent nos diz: “Este mestre contemporâneo, por intermédio das burocracias sanitárias, propõe sonhos inéditos às populações as quais quer afetar em seu cerne. Profilaxias da depressão na França e na Europa, construção de um sistema de distribuição de psicoterapias prescritivas para fazer os deprimidos voltar ao trabalho...”.[2] (trad. livre)

Supomos que um analista nunca se prestaria a isso.

Contudo, nos perguntamos: por acaso não existe o risco de alguém responder por tais sonhos inéditos se consegue como efeito terapêutico rápido reinserir, em poucos encontros, um sujeito (invalidado por seu sintoma, segundo as psicoterapias prescritivas) no Outro social laboral sem que se analise previamente a qual classe de Outro se dirige?

Por se tratar do mestre contemporâneo, tal prática, por mais exitosa que seja, faria do analista uma espécie de agente direto do mestre.

Dito de outro modo: de que lado deveria estar uma pragmática em psicanálise? Do lado do laço social do mestre contemporâneo, ou do lado do sintoma “invalidante”?

É evidente que, em um passado recente, a psicanálise em extensão parecia garantida, e pelas melhores razões, pois era suposto sustentar-se no discurso que lhe é próprio.

E isto, como disse J.-A. Miller, porque “Os efeitos psicanalíticos não dependem do enquadre, mas do discurso, ou seja, da instalação de coordenadas simbólicas do lado de alguém que é analista e cuja qualidade de analista não depende do tempo de sua consulta, nem da natureza da clientela, mas bem da experiência na qual se comprometeu”.[3](trad. livre)

Contudo, hoje, o mesmo J.-A. Miller diz, para quem queira ouvi-lo, que existe o risco de “…triturar a psicanálise sob o pretexto de expandi-la”.[4]

Tentaremos então, com a proposta de Judith Miller dirigida ao PIPOL IV, abrir um debate para aqueles que participem do ENAPaOL, a respeito da reconsideração de uma pragmática em psicanálise, que possa dar provas de ter resistido tanto ao discurso do mestre como ao risco sempre latente de contribuir com seu reforço.

Fica aberto o debate e convidamos àqueles que o desejam, a enviar-nos sua opinião.

 

Notas

[1] Miller, J.-A. “Entrevista do momento atual 14”. In: Correio. Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, nº 61, nov. de 2008.

[2] Laurent, E. Informe moral apresentado à Assembléia Geral da AMP, em 24 de janeiro de 2009.
[3] Miller, J.-A. “Hacia PIPOL 4” Intervenção de J.-A. Miller nas Jornadas PIPOL 3, celebradas em Paris em 31 de junho e 1 de julho de 2007. In: El Caldero de la Escuela nº7, 2008, p.6.
[4]Miller, J.-A. “Entrevista do momento atual 11”. In: Correio. Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, nº 61, nov. de 2008.

 

Texto traduzido por Paola Salinas

 
 

Intervenção no Colóquio “Psicanálise e Sociedade”  

Judith Miller

 

Apresento-lhes o mais sucintamente possível este colóquio e seus quatro tempos. Busquei tornar explícito de que modo ele prepara o Encontro europeu na atualidade do Campo Freudiano, a partir das conseqüências da interpretação realizada por Jacques-Alain Miller nas Jornadas da Ecole de la Cause freudienne, em outubro passado – referida a um “excesso de libido” investido na psicanálise aplicada.

Esta interpretação e suas conseqüências concernem ao conjunto das escolas do Campo Freudiano que a AMP reúne, assim como à própria AMP. Ela concerne igualmente ao Encontro europeu e ao conjunto do Campo Freudiano, incluindo o RIPA.

Vou tentar dizer quais são, ao meu ver, estas conseqüências. Digo “tentar”, mas seria melhor dizer “arriscar”. O que vou dizer hoje empenha apenas a mim. De fato, a comissão do PIPOL IV, como tal, ainda não as examinou.

Como esta me concernia profundamente, formulei meu embaraço na AG da AMP, no sábado passado, minha última bússola possível antes deste colóquio. Raramente me senti tão “no ponto” para falar.

Com efeito, minha posição é a do patinho feio entre os analistas por ela reunidos. Alguns não perdem a ocasião de me lembrar isso – e eu sou a primeira. Como não-praticante, punha meu dedo na ferida, como podem aqueles que Lacan acolheu em sua Escola e com os quais suponho hoje partilhar a condição de “parrésia”, tal como Michel Foucault a destacou no início dos anos oitenta. Nem delírio de presunção de ex-combatente, nem lei do coração me animam, mas sim um desejo de “trabalhador decidido”.

Nesta condição recebi as respostas a mim dadas sábado passado as quais tentarei recapitular em cinco pontos.

 

1.     A interpretação de Jacques-Alain Miller não incide sobre aquilo que alguns entenderam como “um conflito entre psicanálise pura e aplicada”. Jacques-Alain Miller, tal como a maioria de nós, nunca deixou de se referir – e não deixou de demonstrar isso – ao “Ato de fundação”, por Lacan, em 1964, e a seus textos sobre o passe. As Escolas da AMP continuam a se reconhecer a partir dele.

2.     A conjuntura permanece a da agressão, estrutural, eu diria, do discurso do mestre com relação ao discurso do analista. A interpretação de Jacques-Alain Miller incide sobre o ratear [ratage] de um sucesso (especialmente o do CPCT-Chabrol, cuja experiência, de realidade efetiva (por longo tempo diferida), exige que se reequilibre a articulação entre a psicanálise pura e a aplicada – nas Escolas, em primeiro lugar. Ela convida ao retorno a Lacan, não somente ao passe, mas à análise para cada um em sua relação com o inconsciente (o seu próprio) e à causa analítica.

3.     Todos os “lugares alfa” (e nem todos são CPCTs) estão ameaçados pelo efeito de identificação coletiva, massificadora, percebido como tal por Freud. Esse efeito de grupo, longe de conduzir a analisar a experiência do CPCT (que se multiplicou e é paradigmático dos lugares alfa), dele fez a glória. Isto sem que se percebesse que ao responder à demanda do Outro corria-se o risco de ver o discurso do analista deteriorado.

4.     Esse efeito de grupo é, por definição, cego ao fato de que se oferece e abandona o discurso analítico aos apetites do discurso do mestre, abrindo a porta para que ele seja tragado pelas demandas do Outro social. Donde a justeza do título deste colóquio: “Psicanálise e Sociedade”, que eu, em uma primeira abordagem, tinha achado banal.

5.     Esta justeza foi confirmada pela resposta de Eric Laurent, em forma de “tirada”, à minha pergunta sobre o quanto há de psicanálise aplicada à terapêutica na prática privada de um analista: “o consultório do analista é um lugar público”. Um analista, como todos nós, está a minima inserido no discurso do mestre e a ele está submetido (impostos, seguros etc.).

 

Reduzo, para PIPOL IV, hoje, a duas as orientações que deduzo destes itens.

Uma já está admitida, e será colocada em prática. Decidiu-se – desde dezembro, para a parte americana do Encontro Internacional do Campo Freudiano, e desde domingo passado para sua parte européia – que as comunicações apresentadas serão o produto de trabalhos pessoais e não co-assinados por um grupo, ainda que seja ele um lugar alfa; para enfatizar o que há de analítico no efeito produzido por um praticante que diz orientar-se pela psicanálise.

Proponho a outra: elucidar este novo significante, a “pragmática”, na psicanálise. Ele me parece declinar as maneiras pelas quais pode ser apreendida, em sua contingência, uma oportunidade de resistir ao discurso do mestre a partir do discurso do analista; de afirmar sua singularidade e resistir às agressões e devastações que elas induzem, obstruindo o espaço em que um sujeito pode advir.

Difícil, decerto, esta elucidação – que deve ser entendida como uma formalização e não como uma definição – não é impossível.

Restam-me 250 caracteres, seguindo-se o esquema proposto por Jacques-Alain Miller para este colóquio, ao qual se ateve a Comissão. Tomo o mínimo espaço para dizer a vocês a composição desta Comissão – Hugo Freda,  Fabien Grasser, Philippe La sagna, Jean Daniel Matet, Nadine Page e eu própria – e, para passar a palavra a Bernard Seynhaeve, Analista da Escola (no sentido objetivo e subjetivo deste genitivo) e diretor do Courtil. Nisto está “o que poderia aparentemente ser uma dificuldade” em seu título. Ele encarna a relação, na lógica das proposições, da disjunção conjuntiva. Agradeço-o por estar aqui in presencia. Sua presença engajada diz respeito, para mim, à ética que, como “prática de uma teoria”, enlaça as duas vertentes da psicanálise, em intensão e em extensão. Nisso bate o coração da aposta engajada pelo Programa Internacional de Pesquisa em Psicanálise Aplicada, na medida em que ele se sustenta – e ouso dizer que ela pode velar ativamente por ele – na Orientação Lacaniana.

 

Texto traduzido por Vera Avellar Ribeiro


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