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Cartel On-line: uma experiência virtual


Sandra Conrado (PB) - mais-um
Carlange Castro (PI)
Marlos Ribeiro (PI)
Yara Valione (SP)

Nosso Cartel foi formado para discutir o seminário Relação de objeto, de Jacques Lacan, e teve seu início em meados de julho deste ano.
Fazem parte desse Cartel: Carlange Castro e Marlos Ribeiro de Terezinha (PI), Yara Valione (SP) e Sandra Conrado (PB), mais-um. No primeiro encontro tivemos conosco Rodolfo Melo (PB), que deixou o cartel logo em seguida.

O que temos a dizer hoje nessa III Jornada de Cartéis da Delegação Paraíba não está ainda dirigido a uma produção teórica de nosso estudo, visto o pouco tempo de discussões do tema, mas dizer da importância de dividir com vocês uma experiência muito incomum: a de não estamos diante do corpo do colega para discutir os textos, mas diante de uma tela de computador. Os colegas estão cada um em suas casas, frente a seus computadores, com seus livros e anotações de lado.

Esta situação, de início, pareceu incomodar. Falamos sem muita reflexão dessa estranheza, ríamos, parecia a nós muito esquisita essa forma de trabalhar. Onde estaria a expressão facial, o olhar, os movimentos e os trejeitos dos corpos dos colegas? Como imaginar as feições de Marlos, Carlange, Yara e Sandra? Como trabalhar sem a presentificação do corpo? O que iria nos garantir como imagem? Essas reflexões ficaram, a princípio, nas entrelinhas. Ao que parecia, surgia o receio de tocar no assunto e de repente a coisa desandar, já que estávamos diante não da estranheza do que se vê pelo semblante do outro, mas do que não se olha, daquilo que nos é tão essencial no campo do imaginário. A expressão que mais se manifestava no início dessa proeza era: “não estamos no corpo-a-corpo”, numa conotação que traduzia, seria possível fazer essa ausência funcionar? Garantimos a vocês que realmente foi necessário inventar uma forma de acontecer.

Agora, depois de quatro meses, paramos para falar disso e aqui estamos para relatar a nossa experiência particular de se estar num Cartel que funciona de forma virtual, tomando aqui virtual em seu significado, ou seja, como o que está pré-determinado e contém todas as condições essenciais à sua realização, segundo o dicionário Aurélio.

O cartel, assim como toda prática da psicanálise, é algo que foge ao que se chama de comum, seu funcionamento não tem nada de ordinário à prática de um grupo e o seu laço não é constituído em torno de um líder, mas de um tema que interessa aos que se juntam. Pensar e experimentar um cartel on-line é mais complexo que tudo isso. Embora a vida de internauta seja uma prática do cotidiano globalizado, tivemos no início desse cartel uma dificuldade a mais. O que teríamos que fazer frente a um exercício que pede o corpo, ali onde ele não aparece?  O universo da psicanálise circula através da fala e, se aproveitando da tecnologia moderna que isola e distancia o encontro do corpo do outros, estamos paradoxalmente no caminho de vencer o desafio de reunir pessoas de diferentes estados, em tempo real, em prol da causa analítica e, mais particularmente, da causa em que cada um nela se insere

Pensamos ter sido por esse motivo o fato de termos dado nosso primeiro passo, sem deixar de levar em conta a nossa estranheza.

Houve uma proposta de skype, mas ela foi logo abortada e só agora podemos entender o por quê. Com o skype havia a possibilidade da fala, mas a imagem continuaria ausente. O que adiantaria para nós uma fala sem corpo?

À medida que fomos nos encontrando no msn, foi-se estabelecendo um trabalho de transferência ao tema na tentativa de sair da dificuldade de querer dizer sem a expressão facial e o tom da voz. Dizer sem o tom exigia e exige ainda de nós algo a mais. Estamos assim, cada um no seu ritmo, mas sempre articulando as nossas questões ao que se extrai do texto. Nossa mudez ganha um lugar especial e nos demos conta de que a escrita poderia fazer em nós o laço, o nó que amarra o furo da ausência do corpo

Fizemos dessa escrita o nosso corpo, tudo que se diz nesse cartel tem que passar pelo punho, e se podermos enfatizar aqui para vocês, haja punho!

Pois bem, na ausência do corpo, inventamos outro corpo: a escrita.

O corpo parecia ir tomando outra forma, fazendo assim, dessa ausência, um lugar de transferência ao trabalho que não esbarra só no tema, mas no esforço de dizer com a escrita. Parecia que ler os textos, escrever suas observações na tela, se interrogar, ia ganhando algo que se cede para além do corpo, algo que se cede para o Outro. Aquela transferência, tão conhecida nossa, que faz passagem para outra cena, onde se constitui um suposto saber, parecia na tela ilustrar, na escrita, o desejo de saber.

Ora, sabemos a partir de Lacan, no Seminário 20, que o corpo é o lugar do Outro e no Seminário 23 que a escrita assume um caráter estrutural, naquilo que marca o surgimento do sujeito que, pela diferença, pode, na sua singularidade, se contar, inventando o significante do que está ali para ser lido.

Penso que a partir disso podemos saber que o corpo poderia ir além do imaginário, ou seja, a partir disso podemos perder nossas imagens e buscar a cada letra escrita o encontro com o real de se estar em um cartel virtual, em um cartel on-line, em um tempo real onde também acontece o inesperado: “Marlos saiu da conversa” – “Marlos está na conversa” e de repente, escreve: “gente perdi o que a gente tava dizendo, dá para voltar aí?”, “faltou energia”, “O pc  travou” etc.

Quando Lacan aborda o nó borromeano no Seminário 23, nos fala que nesse nó há um lapso, uma falha, mostrando que diante disso é possível a construção de um quarto elemento que funcionaria como ponto de amarração. A esse ponto de amarração Lacan nomeia de sinthome. Se a Joyce foi possível uma escrita como ponto de amarração frente à falha do Nome-do-Pai, a nós a escrita nos serve como amarração da presença do Outro que tira de cada um a propriedade do corpo, mas introduz o laço que faz em nós a amarração no desejo de saber. Essa tem sido a nossa invenção, a nossa metáfora, o nosso “esforço de poesia”

Lacan, ao tomar Joyce, teve a cautela de fazer ver que não se tratava da aplicação da psicanálise à arte, função que Lacan sempre se desobrigou, mas o contrário, da aplicação da arte à psicanálise, uma vez que o artista sempre precede o psicanalista e lhe abre os caminhos.

A cada encontro, nossa colega de São Paulo, a mais distante de todas, nos envia um relatório. Essa iniciativa foi por sua própria conta. Quando menos esperamos, um belo dia estava lá, nas nossas caixas de e-mails, já desde a nossa primeira discussão teórica, surpreendentemente, um relato do que tinha acontecido no nosso primeiro encontro. Esse relatório, até hoje mantido, é elaborado em forma de conversa, como uma ata, como um ato que presentifica ali um corpo, um trabalho, um efeito, um desejo de fazer algo acontecer. Aquele que foi nomeado de mais-um, naquele momento, não pôde deixar de perceber a todos o quanto isso anima um cartel e discutimos, na perspectiva lacaniana, o quanto o mais-um pode girar, ou seja, que esta função não está colada numa das pessoas, mas na função que qualquer um ocupa dentro do cartel quando zela pelo trabalho, não importando em que condições materiais e ideais este cartel esteja funcionando.

Uma das maiores provas desse funcionamento é o desfio de levar a cada letra escrita o desejo de diminuir a distância geográfica a aproximar o trabalho que temos pela frente, sem perder de vista “o vivo do sujeito”, nem se limitar, simplesmente, aos dogmas da tecnologia.

Segundo Cláudio Cardoso Paiva, professor do departamento de comunicação da UFPB, se referindo ao virtual, nos diz: “Estas contribuições têm instigado trabalhos férteis que procuram se orientar metodologicamente nos domínios de uma ‘antropologia da informação e da comunicacão’. Contudo, é o entusiasmo das gerações mais recentes, que utilizam os computadores e a internet de modo criativo, realizando pesquisas conseqüentes, que nos estimulam a considerarmos pertinente a recepção destas novas tecnologias.

É no entusiasmo de nossa geração e no espírito do tempo, no qual o psicanalista não arreda seu desejo de sustentar a psicanálise no mundo, que estamos frente ao novo e  à disponibilidade de inventar e manejar o que não cessa de não se inscrever.


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