Impertinências
Pergunta:
Em que condições o psicanalista
sugere o uso de antidepressivo?
Resposta:
É uma constatação: os psicanalistas, quase que sem exceção,
encaminham analisantes para serem medicados por psiquiatras,
em algumas situações. O que não quer dizer que seja
um procedimento bem definido e resolvido; pelo contrário,
trata-se de algo sobre o qual pouco se escreve, pouco
se formaliza. O que se segue são algumas de minhas reflexões
sobre o tema.
Tomarei o exemplo da depressão, que, para a psicanálise,
é um sintoma. Ela pode ser abordada pela vertente sofrimento
(que a psicanálise chama de gozo do sintoma) ou pela
vertente do enigma (a pergunta, ou aquilo que faz questão
para o sujeito: O que é que está acontecendo comigo?
Por que é que algo comigo não funciona, não anda?).
Quem apresenta o sintoma pode querer, única e exclusivamente,
se livrar do sofrimento que ele acarreta. É a demanda
terapêutica.
Uma demanda de análise pressupõe, além da expectativa
de alívio, que se queira levar a sério o enigma do sintoma,
ou seja, que se busque um saber sobre o sintoma. Saber
que se pode atribuir ao psicanalista, constituindo-se,
assim, um sujeito suposto saber.
Que fique claro: o sofrimento (gozo) do sintoma é a
mola propulsora de uma análise, mas esta não acontece
se não houver um querer saber sobre o enigma do sintoma.
Uma pergunta, agora, se insinua: por que, nesse contexto,
indicar um psiquiatra para uma medicação antidepressiva?
Creio haver uma única resposta: quando o analista considera
que, mais do que contribuir para os propósitos de uma
análise, o sofrimento de uma depressão está servindo
para dificultá-los, ou mesmo para travá-los.
Pode ser uma conclusão simples, mas, é decisiva. Acaba,
de vez, com o preconceito segundo o qual psicanálise
e psicofármaco são inconciliáveis.
O problema, porém, continua: que psiquiatra indicar
para fazê-lo? Sério problema! Terá que ser um psiquiatra
que concorde com, pelo menos, dois pontos básicos. (1)
O lugar do psicofármaco: não é de ator principal, mas
de coadjuvante. (2) A função do psicofármaco: não se
trata de “eliminar o sintoma”, mas de moderar o gozo.
As exigências mencionadas sugerem que se deva indicar
um psiquiatra que esteja em análise, quando não houver
um psiquiatra psicanalista. Existe ainda a possibilidade
de a análise estar sendo conduzida por um psicanalista
que é também psiquiatra. Ele pode fazer as duas coisas,
desde que saiba o que está fazendo (ou de que lugares
está operando) e o analisante também. O medicamento
pode não ser anti-analítico, mas é não analítico.
O que estou propondo foi, a meu ver, entrevisto por
Freud, que, certa feita, afirmou: “Esperamos que o futuro
nos ensine a agir diretamente, com a ajuda de substâncias
químicas, sobre a quantidade de energia e a sua distribuição
no ‘aparelho psíquico’. É possível que descubramos,
então, outras possibilidades terapêuticas, ainda insuspeitadas”.
Ora, o que Freud propõe é o psicofármaco como regulador
do gozo.
Na minha apreciação, o futuro previsto já há algum tempo
chegou.
Francisco Paes Barreto |