O sonho da eternidade é aquele que consiste em imaginar, diz Lacan, que despertamos... o próprio despertar é um sonho. O ser humano, l’être humain, – que na época ele escreve: les trumains - está condenado ao sonho.... Posso lhes dizer, agora, qual foi o verso que me veio à cabeça ao redigir O momento de concluir... Trata-se de um verso de T.S. Eliot com quem Lacan escolheu concluir seu “Discurso de Roma”... O poema é The hollow men: Somos os homens ocos / Os homens empalhados / Uns nos outros amparados / Um elmo cheio de nada... / Nossas vozes dessecadas, Quando juntos sussurramos / São surdas, inexpressivas / Tal sopro do vento na relva seca (...) / Silhueta sem forma / Sombra sem cor / Força paralisada, gesto sem vigor (...)Entre o desejo e o espasmo / Entre a potência e a existência / Entre a essência a descendência / Tomba a Sombra (...) Assim acaba o mundo (...) E o verso que me veio à memória naquele exato momento foi: Not with a bang but a whimper. Assim acaba o mundo: Not with a bang - Não com um Bang!, ou com um Bum!...não com um trovão, tal como o “Discurso de Roma”, but a whimpe, mas com um murmúrio, acaba com um murmúrio. (...) Lacan escolheu – esta é uma sacada minha - terminar seu Seminário não com alguma coisa como o trovão... ele termina com o esvaziamento do toropsicanalítico, termina com passinhos miúdos, com o trote dos ratos....o que não retira de maneira alguma a seriedade da psicanálise.
Orientação lacaniana III, 9, lição XII (2/5/07)
Tradução: Maria Cristina Maia Fernandes
Revisão: Vera Avellar Ribeiro |