AO LEITOR , por Jacques-Alain Miller
Textos de Jacques-Alain Miller
“Lendo a Orientação lacaniana” - Carlos Nicéas - (PDF)
A orientação lacaniana e a EBP - Jésus Santiago - (PDF)
Esse anfiteatro me dá o sentimento de estar no pé de uma montanha. Não se trata tanto da montanha constituída pela presença de vocês, mas da montanha do discurso que devo assegurar nesse ano. Há aqui vinte e cinco outrinta arquibancadas como há vinte e cinco ou trinta quartas-feiras. Reservei o título do curso desse ano até essa primeira sessão e é preciso que eu o forneça agora a vocês. Eis aqui o título: « 1, 2, 3, 4 ». Trata-se então de quatro pequenas cifras alinhadas. Tenho para isso boas razões. Primeiramente, o fato de que esse curso é o quarto de uma série que é a segunda de um percurso que faço sob o título de Orientação lacaniana e que começou em 1972.
Orientação significa direção, pois orientação, pelo menos tal como nós empregamos agora essa palavra, tem um sentido recente, que nem está ainda repertoriada como tal pelo dicionário Littré.Nós compreendemos com essa palavra o fato de dar um movimento, uma direção determinada e também o fato de ter essa direção. Nós dizemos « orientação » em francês somente a partir de 1834, dizem os dicionários. Nessa data, se compreendia com isso somente a arte de reconhecer o lugar onde a gente está, determinando os pontos cardeais.
Quando batizei essas séries Orientação lacaniana, entendia expor a direção que Lacan imprime à psicanálise e, indissoluvelmente, à prática analítica e ao movimento psicanalítico. Entendo bem que aqui há movimento. É isso que comporta a orientação. A orientação, tal qual eu entendo, não é uma estática. Pelo contrário, uma orientação se representa da melhor forma, nesse sentido recente, por um vetor, ou seja um segmento munido de uma orientação.
Há algo mais em uma figura geométrica orientada do que em uma figura não orientada. A orientação é um fator de diferenciação. Há uma diferença entre esse círculo não orientado e o mesmo orientado simplesmente pela inscrição de um símbolo flechado, que é suficiente para fazer nascer uma distinção. Podemos dizer que este e aquele são distintos. Uma orientação não é pouca coisa, ela é susceptível de ser inscrita.
Aproveito para assinalar que entre os problemas de orientação há, na primeira fila, os problemas de simetria que nos reterão talvez nesse ano. Essa orientação está presente nos esquemas de Lacan. Ela está presente no seu grafo, que é um grafo orientado, como também em sua elaboração concernindo o nó borromeano.
Entendia também por orientação o fato de que não me interessa desenvolver o ensino de Lacan como uma dogmática. Além do mais, penso que isso não é possível. Esse ensino só pode ser desenvolvido como uma orientação, ou seja como um caminho ou uma abertura; podemos até dizer como um progresso, se nós entendermos por isso o fato de que não permanece imóvel. É assim que me esforço também para assumir, para adotar o que Lacan pôde formular em suas variações. É justamente porque tenho o ponto de vista da orientação que posso tratar o conjunto dos ditos de Lacan que, considerados do ponto de vista dogmático, seriam pura e simplesmente contraditórios. Esses ditos só encontram sua função do ponto de vista da orientação. Entretanto, na orientação, não há somente o movimento. Há as condições das possibilidades de uma orientação. Só há orientação se há determinação dos pontos cardeais. Pois bem, nesse ano, serão tratados esses pontos cardeais na experiência analítica e no ensino de Lacan. É com essa idéia que escrevo: « 1, 2, 3, 4 ».
* Abertura do curso “1, 2, 3, 4” extraído de Phœnix, nº 4,
abril de 2004, pp. 9-42,A tradução é de Maria de Souza, Membro da EBP, a quem devemos igualmente a seguinte nota que situa esta segunda série do curso iniciado em 1972: “Esta segunda série começa em 1981 com II, 1 - « Scansions dans l’enseignement de Lacan » (1981-1982). Vêm em seguida: II, 2, « Du symptôme au fantasme et retour » (1982-83); II, 3, « Dês réponses du réel » (1983-1984); II, 4, « 1, 2, 3, 4 » (1984-1985). As lições publicadas aqui foram proferidas em 14 & 21 de novembro de 1985, Université de Paris VIII, département de psychanalyse, Orientation lacanienne II, 4, « 1, 2, 3, 4 » (1984-1985), inédito”.