ERASMO: UMA REVOLUÇÃO CULTURAL SEM VIOLÊNCIA
LE MONDE DES LIVRES | 19.06.08 | 12h04 • Publicado em: 19.06.08 | 12h04
Qual é o lugar de Erasmo e de sua obra em seu itinerário intelectual ?
Ele pertence ao meu jardim secreto. Constante dileção. Podeira dizer, como o poeta Wallace Stevens: "O que eu gosto em Erasmo é um certo chic". Depois do meu último ano de secundário, que me ensinou seu nome e sua glória, continuei curioso sobre esse prodigioso homem de múltiplos interesses, erudito errante que se sentia em casa em qualquer lugar da Europa, com seu pequeno conjunto portátil de leitura e de escrita. Seu principado midiático na república das letras durou um quarto de século. Sua obra é o "epítome", o compêndio da cultura do Ocidente, o grande reservatório para onde tudo conflui e de onde tudo procede.
Nascido em1469, em Rotterdam, sem dúvida, dos amores de uma doméstica e de um padre, e falecido em 1536, em Bâle, Erasmo foi um dos principais representantes do humanismo do Renascimento e de sua "República das letras". Apaixonada pela independência, sua inteligência não foi feita para o ensino rígido que recebeu nos seus primeiros anos, principalmente junto aos cônegos agostinianos de Steyn onde, aos 19 anos, pronunciou seus votos, mas onde descobriu também, maravilhado, os grandes autores pagãos.
Esse "Príncipe dos Humanistas" residiu por longa temporada na Itália e na Inglaterra, onde fez amizade com o autor de Utopia, Thomas More (1478-1535), em cuja casa ele redigiu seu célebre Elogio da loucura. No cerne de suas preocupações havia um esforço para revivificar as tradições cristãs, em nome de uma recorrência direta ao Evangelho, cuja teoria encontramos em seu Manuel du soldat chrétien, de 1504 (que lhe valeu a admoestação de ter "incubado o ovo" da Reforma), um vasto projeto de renovação do ensino, assim como uma esperança jamais desmentida na concórdia universal (que bem ilustra seu Complainte de la paix persécutée, de 1517).
Epistológrafo incansável (milhares de cartas e mais de seiscentos correspondentes entre os quais se encontram os nomes mais importantes de seu século), Erasmo permanecerá como a "placa giratória" do humanismo, embora em seus últimos anos tivesse de ver as lutas da Reforma anunciarem o final de seu sonho de paz, fundado sobre a associação das belas-letras e da mensagem cristã.
Quantas destrezas de mágico! Transfere para a Europa do Norte a herança do Renascimento Italiano, desvalisa as bibliotecas da Antiguidade, transfunde a sabedoria dos pagãos na cristandade, faz copular a piedade com as letras clássicas, mistura alegremente o sagrado e o profano, destrona a lógica escolástica para instalar em seu lugar a eloqüência, enfim, ensina às elites um lifestyle inédito, das maneiras de se comportar à mesa a todas as formas de bem dizer, pois esse grande mestre do significante, maravilhoso retórico, editor, tradutor, malabarista de palavras, é também o príncipe dos semblantes e o árbitro das elegâncias. Em suma, da filologia ele faz nascer o Homem do "humanismo" (a palavra é do século XIX), perfeito homem do mundo, letrado porém amador, tão oportunista quanto universal.
Essa revolução cultural sem violência difundiu-se sobre a Europa como um perfume. Quando seu momento violento chegou, o estrepitar da Reforma, Erasmo lá não estava. De fato, ele "incubara o ovo que Lutero fizera eclodir", segundo as palavras da historiadora britânica Frances Yates, mas ele não era como aqueles que vociferam: "A verdade ou a morte", ele preferia a vida, ainda que amputada da verdade, pois não punha nada acima da paz (que fez falar em seu Complainte de la paix).
Aqui, em meu teatro mental, Erasmo tem seu lugar junto a Lutero, o diálogo íntimo de um psicanalista que foi "mao" em sua juventude: qual é o bom uso da verdade? Levá-la às suas últimas conseqüências? Ou moderá-la, amortecê-la, amansá-la? Para o filólogo, a verdade só poderia ser um efeito de significante, um puro semblante. Sem dúvida, é o que chamamos sabedoria. Seria possível o mundo ser sem real?
Qual é o texto de Erasmo que mais o marcou, nutriu, e por que?
Nutriu ? Mas como!? A obra de Erasmo é uma imensa despensa. Mais de 4 000 adágios, por exemplo, que são também "gemmulae", pequenas pedras preciosas extraídas dos autores greco-latinos. Sua compilação, que foi o best-seller da época, foi cncebida não para ser devorada, mas para ali se petiscar. Cada sentença sintilante, ou provébio banal, enseja um ensaio que crepita de graça, mais lesto que Montaigne, enviscado em seu eu. "Aqui, tudo é substância, tudo é pérola", como diz Lacan sobre Freud. Desse livro dos Adágios, acreditaríamos de bom grado que, tal como o Aleph, de Borges, ele é o espelho infinto do mundo. Proveu de lugares comuns todos os letrados dos tempos modernos. Há os Colóquios, sainetes charmosos nos quais o conceito se faz carne, mas também manual de teologia familiar. Há a Correspondência, onde ele conservou as cartas ardentes que, quando adolescente, endereçou a um monge de sua idade. Era homo? De todo modo, tudo indica que ele não era neurótico e que nunca se viu perturbado pelo objeto feminino. É justamente na boca de uma mulher que ele coloca seu Elogio da loucura.
Como todo mundo, foi por meio dessa obra que entrei em Erasmo. E é através dela que ele permanece no público, como Voltaire mediante Candide. Primeiro, eu o li como lia Le Neveu de Rameau. Mas Diderot distribuia a enunciação entre dois machos, o louco e o sábio, ao passo que Erasmo instala loucura e sabedoria num torniquete único, onde elas trocam incessantemente seus lugares até se enlaçarem uma na outra. O Elogio tem evidentemente a estrutura da banda de Moebius (banda torcida de uma só borda) e não podemos orientá-la: o avesso e o direito fazem apenas um. A loucura não tem contrário.
Fazer tese da universalidade da loucura só podia abrir para um paradoxo. A escolástica quebrava a cabeça com os sofismas. Mas Erasmo demonstra em ato que o "Eu minto", recusado pela lógica, é perfeitamente sustentável pela eloqüência. E assim, o Elogio da loucura é levado pela verve triunfal de um inexpugnável "digo disparates a mais não poder".
Eis o que do Logos revela a verdade: a linguagem foi dada aos homens para dizer besteiras. E se Deus é linguagem, pois bem, cheguemos até aqui: Deus está louco. Stultitia Dei. A expressão está em S Paulo, é retomada no Elogio, confirmada por Erasmo em suas Anotações sobre o Novo Testamento. Não há garante da linguagem. Por isso, é necessário que ao final do Elogio tudo se apague.
Por que essa declamação, pequeno exercício que não deixa de ter um modelo antigo, fez sensação, de saída, e continua sendo a mais preciosa das gemas de Erasmo? É que ela é muito mais do que uma sátira do mundo tal como ele anda: ela vai além dos limites do discurso universal, introduz um modo de dizer inaudito. Seria excessivo ver nisso uma antecipação sensacional da associação livre? No entanto, o que é estar em análise senão ter licença de dizer besteiras? A isso se acrescenta apenas " a um auditor que tem memória". Será por acaso que Lacan parodia o Stultitia loquetur em sua famosa prosopopéia "Eu, a verdade, falo"? E quando lemos em seu ultimíssimo ensino: "Todo mundo está louco, ou seja, delirante"?
Em sua opinião, onde, nos dias de hoje, esse autor encontra sua atualidade mais intensa?
Você está a fim de rir? Erasmo está por toda parte em nossa cultura, mas com uma intensidade muito baixa. Diria também que ele não está em parte alguma, pois não tinha a menor idéia do que iria ser o discurso da ciência. O homem do humanismo está morto, resta seu fantasma que assombra as academias. De tempos em tempos, o nome de Erasmo serve de tapa miséria para nossas elites européias: de um modo geral, elas o fazem dizer asneiras. Não, a atualidade intensa de Erasmo deve ser buscada junto aos seus, no povo erudito. A que título ele está na série de seus filósofos? O Elogio da loucura é a "filosofia do Cristo"? Mas ele sempre foi mais lido como anti-filosofia. Era subversivo? Ora vamos!! Esse discurso foi feito para vacinar: é carnaval, deixemos rolar, depois tudo volta a entrar em ordem. Só que, como estamos todos muito mais loucos do que antes, como todos os dias é carnaval, isso já não aquece nem arrefece.
Tradução: Vera Avellar Ribeiro
Entrevista realizada por Jean Birnbaum
Artigo publicado na edição de 20.06.08. Le Monde