Neste primeiro apanhado de efeitos do curso da Orientação Lacaniana,
os fragmentos giram em torno da primeira lição do seminário atual de J.
A. Miller., que acaba de se encerrar na França (nem todos sabem: o ano
letivo francês se inicia em final de setembro e termina em junho). Este
seminário, por enquanto, leva o título em francês “TDL - le tout dernier
Lacan”.
Um toque de saída marca a importância do neologismo criado por Miller,
a dizência, e o tema central em torno do qual tem girado a maior parte
das discussões: a noção de inconsciente real.
Num fragmento clínico é delimitado o significante só, separado da cadeia.
Em outro, como ele deverá encontrar sua articulação para que aconteça
o tratamento de uma criança. Sérgio
de Mattos
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Dizência
O inconsciente real I - Acontecimento
O inconsciente real II - Do espaço de
um lapso ao esp de um laps
O recalque e a foraclusão
O inconsciente real III - Ato e amizade
Incidência clínica I - Um desligamento
do Outro
Incidência clínica II - Final de análise
e luto
DIZÊNCIA
A dizência (disance) é “a língua tal como falada pelas pessoas
de um dado ofício”. Quanto aos hábitos profissionais, nossos autores fazem
esta sensata observação: “Os termos técnicos que designam atos, ferramentas,
produtos de um modo de atividade humana são freqüentemente ignorados pela
maioria das pessoas” (Damourette, J. & Pichon, É., Essai de grammaire
de la langue française, (p. 45). Digo dizência lacaniana
porque essa língua me parece, hoje, ter uma extensão suficiente para que
lhe poupemos o nome de jargão, mais pejorativo. Um jargão é a
língua falada por um destes meios “que recorrem, seja por interesse, fantasia,
ou tradições particulares, a certas construções frasais ou a vocábulos
incompreensíveis para os não-iniciados (J. A. Miller, 15/11/2006).
“Afastar-se da dizência”, como propõe J. A. Miller, não é uma
coisa fácil. É confortável estar nela e, sobretudo imprime um certo ar
de saber. A “dizência” também promove um efeito, que a meu ver
é o mais perigoso de todos, para a psicanálise, o efeito de grupo. Como
apontou Lacan na carta de dissolução da Escola Freudiana de Psicanálise,
o efeito de grupo, entra no lugar do efeito de discurso e impede a transmissão
da experiência. Esta é uma questão que clama por estar permanentemente
em pauta.
Ana Estela, aluna do Instituto de Psicanálise
da Bahia
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O INCONSCIENTE REAL - I - ACONTECIMENTO
O inconsciente aqui delineado em filigrana é o inconsciente como real
e não o inconsciente como transferencial.O que imanta Lacan no final de
seu Seminário é um outro modo, uma outra perspectiva sobre o inconsciente
que faz dele real. De algum modo, é o inconsciente como exterior ao sujeito
suposto saber, exterior à máquina significante produzindo sentido aos
borbotões, por pouco que a deixemos funcionar, conforme acreditamos que
somos obrigados a fazê-lo. Esse inconsciente como real é análogo, homólogo
ao que evocamos inicialmente do traumatismo. De todo modo, é certamente
um inconsciente não transferencial, formulado como um limite. No entanto,
Lacan considera esse real como o que mais lhe é próprio na acolhida que
reserva à descoberta de Freud. O real como irrupção, contingência de um
acontecimento imprevisto e que não se integra, nos acontece o tempo todo.
O mestre ou bem o inclui em seusaber, tornando-o a expressão de uma exceção
à regra, por exemplo, ou o desconsidera. A questão não é tanto que topemos
com ele, dessa forma,ex-sistente, mas ao tratamento que a ele será dado.
O analista dará a ele, diferentemente do tratamento habitual do sujeito,
um modo de integrá-lo sem mergulhá-lo no sentido.
Fragmento colhido no seminário da Orientação
lacaniana da EBP-Rio a partir de um diálogo entre Ana Lúcia Lutterbach-Holck
e Heloisa Caldas, Membros da EBP
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O INCONSCIENTE REAL II – DO ESPAÇO DE UM LAPSO
AO ESP DE UM LAPS
Prefiro instalá-los na dificuldade visando, tanto quanto me seja possível
– em relação a mim, é claro -, balizar o que não passou para a dizência.
Para isso tomarei o último texto, bem curto, dos Outros escritos [
1]
. Lacan o escreveu imediatamente depois de o Sinthoma (...). Vejam como
ecoa a primeira frase desse texto, feita de modo a ir direto ao cerne
da questão: “Quando [...] o esp(aço) de um laps(o) já não tem nenhum impacto
de sentido (ou interpretação), só então temos certeza de estar no inconsciente”
[ 2]
. Isso pode nos parecer conhecido, pois o valor dos sem-sentido foi, desde
sempre, enfatizado e posto em função por Lacan. Todavia, o que essa frase
surpreendente comporta - se a observarmos de perto - é a disjunção entre
o inconsciente e a interpretação, uma exclusão entre essas duas funções.
Digo função no que concerne ao inconsciente, porquanto, nesse mesmo texto,
Lacan fala da “função inconsciente” [ 3]
O que seria este “esp de um laps”? Um exemplo que está publicado no meu
passe. Indo à sessão, tomo na saída do metrô um caminho errado. Vou dar
no cemitério. Onde estou? Perdido, reorganizo meu itinerário e chego na
sessão... ali, articulou-se este lapso, como S1, com a morte do pai, S2.
O sentido outorgado ao laps foi eficaz e heurístico na análise. Hoje,
enxergando o assunto retrospectivamente, o laps tinha mais a ver com estar
desorientado, perdido, que com a morte do pai. O S2 articulado ao S1 afasta
o real da desorientação. O S2 articulado a um “laps” não tem nada a ver
com esse real.
Bernardino Horne, Membro da EBP-AMP
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O RECALQUE E A FORACLUSÃO
Essas manifestações erráticas do que é cortado da simbolização e que serão,
em “O espaço de um lapso” – texto que vem no final do Seminário
sobre Joyce -, valorizadas na psicose, já figuram o que Lacan chamou ‘real
sem lei’, ou seja, um real disjunto do simbólico e que o supera.
A teoria do inconsciente no último ensino de Lacan não é elaborada a partir
da histeria, mas da psicose. O inconsciente como real é um inconsciente
não atrelado ao recalque, onde se apagam o sentido e a interpretação.
Ele implica menos o sujeito do significante, ou o sujeito da identificação,
e sim o falasser. O Outro, como cadeia significante, é destituído e em
seu lugar, como princípio de identidade, há o corpo, o corpo próprio.
Cristina Drummond, Membro da EBP, a
partir da discussão no seminário da EBP-Minas
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O INCONSCIENTE III – ATO E AMIZADE
Eis as mudanças: da relação solitária e desatenta com o inconsciente à
psicanálise aos pares, operando a partir do sujeito suposto saber, assim
como a que se refere à conexão mínima significante aqui desfeita. Não
nos esqueçamos: é a isso que Lacan se dedica no final de seu trabalhoso
Seminário: o sinthoma. E o Um-sozinho, o tema de uma solidão toda especial,
aquela do ato, referido a esse inconsciente, passa então a ser o pivô
da questão, à qual alude Lacan ao afirmar, no texto que serve de referência
a Miller nessa lição (“Prefácio à edição inglesa do Seminário 11”, nos
Outros Escritos”, pp. 567-569): “Não há amizade que esse inconsciente
suporte.”
Vera A. Ribeiro, Membro da EBP
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INCIDÊNCIA CLÍNICA I – UM DESLIGAMENTO DO OUTRO
“Uma criança sonha com uma aranha e isso esquenta seu corpo”. O que estava
em questão eram os efeitos do significante sobre o corpo, ou mesmo o trabalho
da criança para simbolizar esse real através de uma metonímia significante.
A discussão, no seminário, nos trouxe a dificuldade do manejo do analista
nas situações em que o sujeito se apresenta, como nesse caso, como que
desligado do Outro simbólico, do Outro como cadeia ordenada. Essa situação
- de desligamento do Outro – apresenta-se, muitas vezes, logo no início
do tratamento”
Cristina Drummond, Membro da EBP
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INCIDÊNCIA CLÍNICA II – FINAL DE ANÁLISE E
LUTO
“Uma criança sonha com uma aranha e isso esquenta seu corpo”. O que estava
em questão eram os efeitos do significante sobre o corpo, ou mesmo o trabalho
da criança para simbolizar esse real através de uma metonímia significante.
A discussão, no seminário, nos trouxe a dificuldade do manejo do analista
nas situações em que o sujeito se apresenta, como nesse caso, como que
desligado do Outro simbólico, do Outro como cadeia ordenada. Essa situação
- de desligamento do Outro – apresenta-se, muitas vezes, logo no início
do tratamento”
Cristina Drummond, Membro da EBP
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