Orientação Lacaniana

UMA TRADUÇÃO

Ao longo de quase trinta anos, e a cada ano, Jacques Alain Miller realizou um curso de psicanálise voltado para o ensino de J. Lacan. Estes cursos são eixos que orientam nosso estudo e nossa prática em todas as Escolas da Associação Mundial de Psicanálise.

Deixemos com a palavra com o próprio Jacques Alain Miller:

 

“Em meu trabalho, trata-se de reencontrar o que Lacan quis dizer e não disse! Ou disse de modo imperfeito, obscuro. Evidentemente, é arriscado. É um exercício arriscado avaliar o que ele quis dizer e não disse porque o significante resiste à intenção de dizer.

Trata-se de reencontrar o que ele quis dizer o mais próximo possível daquilo que ele disse, mas subtraindo-se da ditadura do que ainda resta na estenografia. Isso é especialmente válido quando se trata, como no Seminário A Identificação, de múltiplas figuras topológicas as quais Lacan aprendia ao mesmo tempo em que ensinava a desenhá-las. Uma parte do que ele dizia sobre isso ele o fazia, claramente enquanto desenhava. Se não tomarmos como regra o que ele quis dizer, não resta dúvidas de que não compreenderemos nada.

Aqui, portanto, certamente é a intenção que domina, tal como podemos reconstituí-la a partir do que ele disse. Em outras palavras, a partir disso, se eu tivesse de qualificar o que fiz e que, talvez, deveria ter feito mais, diria: é traduzir Lacan. É uma tradução.


Jacques-Alain Miller

 

Lacan se expressava em uma língua falada apenas por um, que ele se esforçava para ensinar aos outros. Trata-se, então, de compreender essa língua e posso dizer que, nesses últimos nos, me dei conta de que, na verdade, eu só a compreendi depois de tê-la traduzido. Antes, ao percorrer inúmeras vezes seus Seminários – como dizê-lo?.. – eu percebia do que se tratava o suficiente para deles extrair os teoremas que poderiam me inspirar neste curso. Mas foi apenas depois de estabelecer, escrever o texto no movimento de fazê-lo definitivamente que apareceram para mim os lineamentos, a trama tão cerrada da invenção de Lacan. Com efeito, quando digo traduzir, digo fazer aparecer a arquitetura. […]

Em outras palavras, minha tradução de Lacan se orienta antes de tudo na argumentação e é baseado na ideia de que é bem deduzida, de que ali deve haver uma argumentação impecável, com base nisso leio os detritos da estenografia e constato que a coisa vai. A coisa vai porque, afinal, eu fiz o bastante para estar previamente convencido disso.

Reconstituo, assim, uma cadeia de deduções. Por vezes, há um elo saltado e eu o restituo ao seu lugar. Faço isso agora mais do que antes. Por quê? Eu era mais tímido? Antes, eu deixava mais para o leitor destrinchar isso e, eventualmente, em meu curso, eu destrinchava. Hoje, digamos, já destrincho bem mais o texto do que no passado. Comecei pela frase. Lacan sempre confia o termo mais importante à última palavra, o que obriga a fazer acrobacias prévias. Eu a preservei por longo tempo, mas a partir de certa data, decidi destorcer a frase, constatando as dificuldades que isso produzia para o leitor. Hoje, um passo a mais, tentei viabilizar nesses oito Seminários um texto tão pouco equívoco quanto possível, ou seja, eu o restitui, vê-se com mais clareza a que se referem os pronomes relativos, por exemplo, pensando que se eu não o fizesse, ninguém o faria. É isso. […]”

Jacques-Alain Miller
(Paris, 19 de janeiro de 2011)
Tradução: Vera Avellar Ribeiro